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Alberto Manguel e a autobiografia de cada leitor

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Por Júlia Corrêa*

Havia alguns anos que o escritor, tradutor e editor argentino Alberto Manguel procurava o lugar ideal para abrigar a sua vasta biblioteca. Em setembro de 2020, em um acordo com a Câmara Municipal de Lisboa, ele a doou inteiramente à capital portuguesa. Com isso, os cerca de 40 mil volumes de sua coleção pessoal vão originar o Centro de Estudos da História da Leitura, que terá o próprio Manguel como diretor e ocupará um palacete histórico de 600 metros quadrados, atualmente em reformas para receber a nova função. 

“Quando era a minha biblioteca privada, era a minha identidade, a minha autobiografia, agora vai ser a autobiografia de todos os outros leitores”, declarou Manguel em entrevista à agência Lusa, na ocasião da assinatura do acordo. Mas o que significam essas autobiografias a que o autor se refere?

Antes de mais nada, vale lembrar que publicações sobre a história dos livros e da leitura constituem parte fundamental da trajetória de Manguel, conferencista do Fronteiras do Pensamento em 2014. O leitor como metáfora: o viajante, a torre a traça, Notas para uma definição do leitor ideal e Uma história natural da curiosidade estão entre os seus títulos mais recentes que ganharam tradução no Brasil. Neste último, lançado em 2016 pela Companhia das Letras, o autor traz reflexões sobre o impulso que antecede a própria leitura. 



“Uma das primeiras expressões que aprendemos quando crianças é por quê. Em parte porque queremos saber alguma coisa sobre o mundo misterioso no qual entramos sem que o quiséssemos, em parte porque queremos compreender como funcionam as coisas nesse mundo, e em parte porque sentimos uma necessidade ancestral de nos engajarmos com os outros habitantes desse mundo”, escreve o argentino na introdução da obra. É assim que, por estimular a imaginação e a alteridade, a literatura desponta como veículo privilegiado dessa nossa incessante busca por respostas. 

Na sequência, Manguel evoca Montaigne, que considerava os livros menos úteis como instrução do que treinamento, para mostrar aos leitores que “a imaginação, como atividade essencialmente criativa, desenvolve-se com a prática, não por meio de êxitos, que são conclusões, e portanto, becos sem saída, mas por meio de fracassos, por meio de tentativas que se revelem estar erradas, exigindo novas tentativas [...]”. No caso, a história da literatura — assim como a da arte, da filosofia e da ciência — seria a história de um fracasso iluminado. 

Nessa lógica, não é raro nos decepcionarmos, segundo Manguel, ao abrirmos um livro clássico na expectativa de chegarmos à essência do texto e, com isso, esclarecemos os nossos mais íntimos questionamentos. “Felizmente para a literatura, felizmente para nós, nunca o fazemos. Gerações inteiras de leitores não conseguem exaurir esses livros, e o fracasso da língua em comunicar integralmente lhes empresta uma riqueza ilimitada que só nos penetra na medida de nossas capacidades individuais”, complementa ele. 

Para o autor, há momentos, claro, nos quais encontramos livros que permitem, mais do que outros, a exploração de nós mesmos e do mundo. Mas o que realmente nos caracteriza como leitores, o que constitui a nossa autobiografia, é o nosso estado pessoal e sempre único de abertura à dúvida. Cada um procura conhecer o mundo de seu próprio modo e, assim, as respostas (provisórias) fornecidas pelos livros nunca são as mesmas para todos os leitores.

Não por acaso, em entrevista dada ao Fronteiras do Pensamento em 2016, Manguel ressaltou como “o livro que o leitor cria enquanto lê é o produto da troca entre as palavras que estão na página e a sua experiência íntima”. Tomando a obra de Dante como exemplo, ele explica: “A Comédia que eu leio não é a Comédia que você lê, não é a Comédia que Borges leu nem a que Croce leu. A Comédia que eu leio responde a dúvidas secretas, desejos ocultos, paixões não confessadas que estão diante de mim.” A transformação ocasionada pela leitura só é possível, portanto, quando encontramos nos elementos do texto a matéria adequada para estimular esse processo. 

Manguel dá outro exemplo dessa relação sempre única com os livros a partir de uma figura ilustre. Na obra Com Borges, lançada em 2018 no Brasil pela editora Âyiné, ele narra que o autor de Ficções e O Aleph “nunca se sentia obrigado a ler um livro até a última página. Sua biblioteca (que, como a de todos os outros leitores, também era sua autobiografia) refletia sua crença no acaso e nas regras da anarquia”. Como bom discípulo, ao doar seu espólio para Lisboa, Manguel manifestou o desejo de que o novo espaço seja, no bom sentido, um “centro de subversão intelectual”.



* Júlia Corrêa é jornalista e mestranda em Teoria Literária e Literatura Comparada na Universidade de São Paulo (USP)