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Alejandro Zambra: Tragam Cortázar de volta

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Nas últimas décadas, o Chile nos presenteou com grandes e originais obras da literatura contemporânea.

Das angustiantes histórias de Isabel Allende e Roberto Bolaño à poesia de Pablo Neruda, o país deixou sua marca na literatura mundial.

Alejandro Zambra não apenas prossegue esta tradição, mas como encabeça uma nova geração.

Nascido em Santiago, em 1975, Zambra é um dos líderes desta geração de escritores que encontraram sucesso comercial e elogios da crítica, e cujo trabalho explora o espaço traumático gerado pela ditadura de Augusto Pinochet (1973-1990).

Conhecido por suas narrativas delgadas, mas construídas de forma ornamentada, a primeira obra de Zambra, Bonsai, foi lançada em 2006, merecendo diversos prêmios. Adaptada para o cinema pelo diretor chileno Cristián Jiménez, o filme foi apresentado no Festival de Cannes em 2011.  

Logo depois, veio A vida privada das árvores, originalmente lançada em 2007. Formas de voltar para casa foi uma profunda reflexão sobre a infância do autor, publicada em 2011. Em 2013, veio o livro Meus documentos, título extraído da pasta em sua área de trabalho no computador, onde guardava grande parte dos textos que ficaram por anos sendo desenvolvidos.

Para aumentar a lista de sucessos, Zambra publicou coleções de poesias e seu livro mais recente, Múltipla escolha (Tusquets), romance que reflete sobre memória, educação, relacionamentos, política e desigualdade, utilizando o formato da Prova de Aptidão Verbal, aplicada no Chile de 1966 a 2002 para avaliar as universidades no país.

Recém-lançado nos EUA e para chegar no Brasil em um futuro breve é a coleção de breves ensaios Não Ler, publicada no Chile em 2010. Os temas são os mais variados e dois destes ensaios podem ser lidos no The Paris Review:

Leituras Obrigatórias, sobre seu primeiro encontro com o livro Madame Bovary (e uma reflexão sobre como professores podem acabar com o prazer da leitura nos adolescentes).

Tragam Cortázar de Volta, cuja tradução você confere logo abaixo.

Alejandro Zambra | Tragam Cortázar de volta

Às vezes, penso que a única coisa que fazíamos na escola era ler Julio Cortázar. Lembro-me de fazer três provas sobre A Noite de Barriga para Cima em cada um dos meus três últimos anos de escola, e incontáveis foram as vezes em que lemos Axolotl e Continuidade dos Parques, dois contos curtos que os professores consideravam ideais para preencher uma hora e meia de aula. Isso não é uma reclamação, já que estávamos felizes lendo Cortázar: recitávamos as características do gênero com prazer instantâneo e repetíamos em coro que, em relação a Cortázar, os contos venciam de nocaute e os romances por pontuação.

As preferências da minha geração foram moldadas pelas histórias de Cortázar e nem mesmo os textos fotocopiados conseguiam remover sua literatura daquela atmosfera de contemporaneidade permanente. Lembro-me como, aos 16 anos, convenci meu pai a me dar seis mil pesos para pagar O Jogo da Amarelinha, explicando que o livro era, na realidade, vários livros, e dois em particular. Então, comprar a obra era como comprar duas por três mil pesos cada ou até mesmo quatro livros por 500 pesos cada. Também lembro do funcionário da livraria que, quando eu estava procurando por "A volta aos dias em 80 mundos", me explicou com paciência que o livro era chamado A volta ao mundo em 80 dias e que o autor era Júlio Verne e não Julio Cortázar.

Mais tarde, na universidade, Cortázar foi o único autor indiscutível. Dúzias de pessoas queriam ser Oliveiras e Magas e se moviam pela grama da Faculdade de Filosofia na Universidade do Chile, enquanto alguns professores tentavam adotar a distância especulativa de Morelli em suas aulas. Quase todas as tentativas começavam com uma rendição digna de pena do capítulo sete de O Jogo da Amarelinha (“Toco a sua boca com um dedo, toco o contorno da sua boca...”), que, naquela época, era considerado um texto estupendo. Havia tantas pessoas falando glíglico* (“apenas él le amalaba el noema”, como dizem), que era difícil conseguir uma palavra em espanhol.

Nunca gostei de Histórias de Cronópios e de Famas, tampouco de Um tal Lucas: a prosa lúdica e fugaz estava faltando, acreditava eu. Mas, por outro lado, não creio que alguém podia negar a grandeza de obras como Casa Tomada ou Queremos tanto a Glenda, O perseguidor e mais vinte ou trinta de suas histórias.

O Jogo da Amarelinha, enquanto isso, ainda é um livro surpreendente, mesmo que seja verdade que, algumas vezes, ficamos surpresos por termos nos surpreendido, já que a obra pode parecer ultrapassada ou exagerada. Mas mesmo assim, ainda hoje, o livro é repleto de passagens verdadeiramente lindas.

Em um ensaio recente, o escritor argentino Fabián Casas recorda sua primeira leitura de O Jogo da Amarelinha (“era tudo enigmático, promissor e maravilhoso”) e sua frustração final (“o livro começou a parecer ingênuo, esnobe e insuportável”). Esta é a experiência da minha geração: acabamos matando o pai, mesmo que ele fosse liberal e permissivo. E parece que, agora, sentimos falta dele, como Casas fala no final de seu ensaio, em uma reviravolta feliz e emotiva: “Eu quero que ele volte. Quero que tenhamos escritores como ele novamente: francos, comprometidos, belos, jovens, cultos, generosos e faladores.”

Concordo: tragam Cortázar de volta. É um mecanismo misterioso, que faz um escritor admirado se tornar, de repente, uma lenda dispensável. Mas, as modas literárias quase nunca são baseadas em leituras reais ou até mesmo em releituras. Talvez, enquanto todos jogam sua memória na lama, nos arrependamos de termos negado sua obra. Talvez, estejamos prontos para ler Cortázar apenas hoje - para verdadeiramente ler Cortázar.

*língua em que Horácio Oliveira e La Maga se comunicam secretamente na obra.


Alejandro Zambra

Alejandro Zambra é considerado um dos mais relevantes autores da literatura latino-americana contemporânea.

Aclamado pela crítica e pelo público, foi eleito pela revista britânica Granta como um dos 22 melhores jovens escritores hispano-americanos.

Licenciado em Literatura Hispânica na Universidade do Chile e com doutorado em Literatura pela Universidade Católica do Chile, atua como poeta, romancista e ensaísta.

Clique aqui para fazer o download do libreto gratuito sobre Alejandro Zambra.