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Anne Applebaum: uma luz crepuscular das democracias

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Anne Applebaum - Crédito da imagem: Massimiliano Donatti / Getty Images
Anne Applebaum - Crédito da imagem: Massimiliano Donatti / Getty Images

Por Eduardo Wolf

Na noite do ano novo de 1999, a jornalista e historiadora americana Anne Applebaum e seu marido deram uma festa no interior da Polônia para celebrar a virada do milênio. Além de muitos poloneses – o marido da escritora é um político atuante no país –, amigos de Londres, Moscou e Nova York também estavam presentes. Pessoas de variadas convicções políticas – alguns mais à esquerda, outros mais à direita; alguns mais envolvidos com a política, outros mais dedicados às artes ou à pesquisa acadêmica – celebravam juntas, a despeito de quaisquer divergências, não apenas o histórico réveillon que marcava o início de um novo milênio: comemoravam, também, com esperançoso otimismo os feitos da democracia e da liberdade nos últimos anos do século que se encerrava, e olhavam com entusiasmo para o que essa convicção compartilhada – a convicção em instituições democráticas devidamente estabelecidas, nas liberdades individuais e coletivas asseguradas, no desenvolvimento econômico e na justiça social – parecia reservar ao mundo do século XXI.

Menos de duas décadas depois, Anne e seu marido constatavam tristemente que não apenas aquelas esperanças haviam em boa medida desmoronado, como também que muitas daquelas pessoas que celebraram juntas a chegada do ano 2000 agora nem mesmo se cumprimentariam. O que aconteceu?

Esta é a questão que o livro Crepúsculo da Democracia – como o autoritarismo seduz e as amizades são desfeitas em nome da política (Editora Record, 2020) de Applebaum busca responder. Sem as pretensões de um estudo acadêmico e fortemente ancorado na experiência profissional e pessoal, o livro oferece mais um importante olhar para diagnosticar um tema que vem mobilizando a atenção de pesquisadores, pensadores e ensaístas há aproximadamente 15 anos: a crise da democracia liberal, essa particular forma de organização política que, no fim do século passado, parecia ter triunfado de maneira avassaladora.

>> Leia com exclusividade um excerto do livro de Anne Applebaum, O Crepúsculo da Democracia - como o autoritarismo e as amizades são desfeitas em nome da política, publicado no Brasil pela Editora Record.

Ao contrário dos estudos mais técnicos de autores como Larry Diamond, James Fishkin (ambos da Stanford University) e Robert Putnam (Harvard), publicados ao longo da última década, o livro de Applebaum não busca uma definição conceitual precisa da natureza da moderna democracia liberal, nem investiga com uma profusão de dados e de estatísticas a natureza da crise da democracia, desde há muito chamada por esses autores também de “recessão democrática”. Em certo sentido, seu relato dos impactantes acontecimentos recentes e seu entendimento acerca da crise da democracia se aproxima daquele feito pelos artigos e ensaios de outro grande historiador, o professor de Yale Timothy Snyder, em Na Contramão da Liberdade (Companhia das Letras, 2019). O público do Fronteiras do Pensamento conhece-o bem, pois Snyder foi um dos conferencistas da temporada de 2020, e seu diagnóstico acerca das ameaças vividas pelas democracias – mesmo aquelas que podiam ser consideradas as mais consolidadas – foi amplamente confirmado pela escalada de violência e desarranjo institucional que marcaram o fim do mandato de Donald Trump nos Estados Unidos.

>> Sobre o historiador Timothy Snyder, assista também: A realidade humana supera a ficção?


É claro que a autora mobiliza algumas importantes hipóteses para entender o que estamos vivendo. Do clássico estudo de Julien Benda, La trahison des clercs, A traição dos intelectuais, de 1927, aos estudos da economista comportamental Karen Stenner sobre a “disposição autoritária” difundida em meio às populações, a interpretação oferecida por Applebaum não peca por falta de estofo intelectual. O grande diferencial de O Crepúsculo da Democracia, no entanto, está em falar mais diretamente à experiência de todos nós, leitores minimamente atentos a esse esfacelamento de instituições que acreditávamos sólidas, a esse retrocesso em questões políticas e sociais que julgávamos consolidadas, precisamente por relatar o que significa ser testemunha pessoal, efetivamente viver a espiral de degradação da vida em sociedade tal como ela objetivamente afeta nossas vidas. Anne Applebaum nos sensibiliza como leitores e como cidadãos, porque sentimos com ela o espanto de ver alguém deixar de falar conosco porque se radicalizou ideologicamente; experimentamos com ela o choque de ver pessoas conhecidas subitamente convertidas em trolls de internet espalhando fake news ou defendendo ferozmente teorias conspiratórias; nos aterrorizamos com a conversão de políticos outrora comprometidos com os mais fundamentais acordos e procedimentos democráticos tornados demagogos violentos, populistas radicais aliados de autoritários de vários tipos. Seu livro está cheio de exemplos assim – homens e mulheres, aliás, com que Applebaum e seu marido conviveram por anos.

Ganhadora do prestigiado prêmio Pulitzer em 2004 com seu livro Gulag: a History (“Gulag: Uma História”), uma profunda e minuciosa investigação dos campos de concentração da antiga União Soviética; autora de Cortina de Ferro: o esfacelamento do Leste Europeu (2012), no qual detalha a imposição do totalitarismo comunista no período de 1944 a 1956 e, mais recentemente, de Fome Vermelha: A Guerra de Stálin na Ucrânia (2017), um corajoso relato histórico sobre o genocídio stalinista conhecido como “Holodomor”, Anne Applebaum tem todas as credenciais intelectuais para afirmar algo que, apesar de óbvio, precisa ser dito em nossos tempos de grande confusão das ideias: as ameaças que a democracia enfrenta no século XXI não são as mesmas que enfrentou ao longo do século XX, ainda que os paralelos e semelhanças sejam reais e devam nos servir de lição. Igualmente, como historiadora premiada por seu trabalho de investigação sobre os morticínios comunistas ao longo do século passado – outra característica que compartilha com Timothy Snyder, que também é referência para o livro de Applebaum –, não lhe falta autoridade intelectual para afirmar que a propensão ao autoritarismo, ao fanatismo político, à crença em grandes mentiras e em teorias conspiratórias, pode vir de qualquer lado do espectro político, esquerda ou direita, especialmente entre os “intelectuais” que aderem a sistemas de crenças ideológicas fixas. Contudo, os fatos são incontestáveis:

(...) embora o poder cultural da esquerda autoritária esteja crescendo, os únicos clercs [intelectuais] modernos que obtiveram real poder político nas democracias ocidentais — os únicos operando no interior de governos, participando de coalizões no poder, dirigindo partidos importantes — são membros de movimentos que estamos acostumados a chamar de “direita”. É verdade que compõem uma forma específica de direita que tem pouco em comum com a maioria dos movimentos políticos assim descritos desde a Segunda Guerra Mundial. Os tories britânicos, os republicanos americanos, os anticomunistas do leste europeu e os gaullistas franceses vêm de tradições diferentes, mas, como grupo, são — ou eram, até recentemente — dedicados não somente à democracia representativa, mas também à tolerância religiosa, a Judiciários independentes, liberdade de imprensa e de expressão, integração econômica, instituições interna- cionais, à aliança transatlântica e à ideia política de “Ocidente”. 

Em contraste, a nova direita não quer conservar ou preservar nada. Na Europa continental, ela despreza a democracia cristã, que usou sua base política na Igreja para fundar e criar a UE após o pesadelo da Segunda Guerra Mundial. Nos Estados Unidos e no Reino Unido, ela rompeu com o conservadorismo tradicional, burkeano e com “c” minúsculo, que suspeita da mudança rápida em todas as suas formas. Embora odeie essa expressão, a nova direita é mais bolchevique que burkeana: homens e mulheres que querem aniquilar, contornar ou minar as instituições atuais para destruir tudo que existe. (p.22)


O leitor brasileiro poderá concordar ou discordar de muita coisa no livro dessa brilhante jornalista com mais de 15 anos de experiência no Washington Post, atualmente escrevendo para a Atlantic, e com passagens pelas consagradas Economist e Spectator britânicas. Não poderá, contudo, deixar de reconhecer a dramática imagem de polarização e radicalismo que caracteriza a crise das democracias em nosso tempo. Tampouco poderá terminar a leitura de O Crepúsculo da Democracia sem fortalecer suas crenças na democracia, na civilidade e no respeito mútuo que deve servir de ideal regulador para nossa vida política.

>> Assista a entrevista exclusiva de Timothy Snyder à Braskem: