Voltar para Artigos

Arte como alquimia

Ferreira Gullar (foto: Renato Cobucci/Imprensa MG)
Ferreira Gullar (foto: Renato Cobucci/Imprensa MG)

Em coluna para a Folha, o poeta e crítico de arte Ferreira Gullar reflete sobre o que considera a "verdadeira arte", aquela que transcende a dor e transfigura o sofrimento em beleza. Leia abaixo Arte como alquimia, texto do imortal da Academia Brasileira de Letras:

Outro dia, me deparei com uma senhora que veio a meu encontro para dizer-me: "Fiquei muito feliz ao ouvi-lo dizer que a arte transforma o sofrimento em alegria". Falou isso e me abraçou.

E aí quem ficou feliz fui eu, de ver que aquela minha opinião tinha alcançado seu objetivo. É que já estou cansado de ver e ouvir coisas que visam exatamente o contrário, ou seja, fazer da arte veículo da feiura e da banalidade.

Essa não é uma opinião unânime, uma vez que os museus e as mostras internacionais de arte, em muitos casos, expõem coisas – ditas obras de arte – que ninguém poria em sua sala, nem mesmo os que as exibem.

É verdade que isso não surgiu gratuitamente, mesmo porque a verdadeira arte não é apenas bom gosto e boniteza. Quando digo que o artista transforma sofrimento em alegria, estou me referindo à complexa alquimia que está na essência de toda arte verdadeira.

Transformar sofrimento em alegria só consegue quem efetivamente conhece o sofrimento e o sente na carne. É como Picasso quando pinta a Guernica, tocado pela tragédia daquela pequena cidade esmagada pela fúria nazista.

Esse é um caso extremo, mas, por isso mesmo, serve de exemplo do que pode realizar a alquimia da dor em alegria estética, se bem entendido, uma vez que a crueldade presente naquele episódio bestial não se apaga como fato real.

Pelo contrário, a sua transformação em linguagem simbólica, ao mesmo tempo que o transfigura, o perpetua como expressão de bestialidade e sofrimento. E daí mesmo a significação especial que aquela obra guarda em si.

Não pretendo afirmar que toda arte nasce do sofrimento ou da tragédia, porque, se o fizesse, estaria desconhecendo, por exemplo, a beleza das telas de Henri Matisse ou das naturezas mortas de Giorgio Morandi.

Essas obras não nasceram do sofrimento e, sim, da alegria de criar a beleza – do espanto, como costumo dizer – que é em suma a necessidade de acrescentar ao mundo, que já tem tanta beleza, mais uma coisa bela. Isso porque a vida, com tudo o que nos oferece, não basta.

Não só necessitamos mudar o sofrimento em alegria, como também criar mais e mais alegrias. Por isso, escrevi, certa vez, a propósito da tela A noite estrelada, de Van Gogh, que aos milhões de noites expandidas universo afora (ou a dentro?), ele acrescentou mais uma, que só existe em sua tela.

Não encontraremos nela tantas estrelas quanto encontramos no céu mas, em compensação, pôde o artista impregnar aqueles poucos centímetros de pano com uma magia que os torna mais rico que os espaços infinitos da noite cósmica.

É que a noite do pintor é invenção humana, coisa nossa.

Sim, porque a noite pintada, a obra de arte, não é a realidade – que, por si só, já guarda um mistério insondável. A noite estrelada de Van Gogh não é a que se vê da janela do apartamento; é outra noite, inventada por sua maestria.

Por isso, quando digo que pintar é transformar o sofrimento em alegria, refiro-me à alegria que nasce da linguagem pictórica, do mesmo modo que a alegria dos poemas de Carlos Drummond de Andrade, que surge do espanto diante da vida e da magia das palavras.

Essa é a razão minha de acreditar que o mundo humano é inventado, mas não no sentido de que seja mera fantasia. Nada disso.

Existe o mundo material, que independe de nós – o chão, o mar, as montanhas – cuja origem desconhecemos, e existe o mundo humano, da tecnologia, da religião, da arte – o qual inventamos para tornar a vida melhor.

Sei muito bem que, se a realidade não é simples, tampouco o é o mundo imaginário da arte.

Quando Picasso pintou Guernica, foi movido pela revolta que nele provocou o bombardeio daquela pequena cidade por aviões alemães mas, ao pintá-lo, não pretendeu obviamente repetir o sofrimento que o massacre provocara e, sim, pela dramaticidade das figuras que inventou, denunciar a barbárie dos genocidas e exaltar a grandeza da vida humana.

Por isso, cabe afirmar que, quando a obra de arte não consegue transcender a barbárie ou a dor, não cumpre sua função.


Veja também:
Mario Vargas Llosa | A civilização do espetáculo
Simon Schama | A energia e a banalização da pintura abstrata
Camille Paglia | No século XXI, buscamos o significado da cultura, não a sua subversão

Ferreira Gullar escreve regularmente para a Folha de S.Paulo. Leia as colunas do poeta e ensaísta.