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Arte e Civilização por Simon Schama

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Série épica viaja por 31 países e mais de 500 obras de arte para explorar o desejo humano de criar.
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Por Eduardo WolfNeste ano de 2018, completaremos uma década desde que Simon Schama proferiu sua eletrizante palestra sobre o poder da arte e das imagens no palco do Fronteiras do Pensamento. O historiador britânico, autor de estudos clássicos como Cidadãos (Companhia das Letras, como seus demais livros publicados entre nós), sobre a Revolução Francesa, é um dos críticos de arte mais instigantes e abrangentes de nosso tempo. Com sua voz marcante e suave, seu ritmo narrativo cativante, algo encantatório, o autor de O Futuro da América e A História dos Judeus se tornou um dos rostos mais conhecidos do mundo da cultura na televisão britânica. Apresentando documentários como o magistral O Poder da Arte na rede BBC, Schama emocionou milhões de espectadores narrando a trágica vida de artistas como Caravaggio e Van Gogh, examinando a grandeza da escultura de Bernini e da pintura de Turner, ou revelando os mistérios da genialidade de Mark Rothko.

Neste vídeo especialmente produzido para o Fronteiras, descontraído enquanto o bairro Moinhos de Vento, em Porto Alegre, segue sua rotina, o professor da Universidade de Columbia nos presenteia com uma verdadeira aula sobre o conceito de cultura, analisando suas transformações desde o século XIX, quando alguns historiadores e críticos de arte ajudaram a fundar toda uma visão a respeito de nossa própria civilização: Matthew Arnold, John Ruskin e Jacob Burckhardt, cada qual a seu modo, moldaram o modo de se pensar algumas das principais noções de arte, cultura e civilização até meados do século – uma abordagem muito em voga já com o século XX bem avançado.


 

A cultura entendida como “os objetos da arte”: pinturas, esculturas, construções, livros; a cultura entendida como certa imagem mais abstrata que traduz uma estrutura muito mais profunda do modo de funcionar das sociedades. Veremos uma coisa na outra? Quando apreciamos uma tela de Leonardo da Vinci, não vemos também o mundo florentino, a Itália do Renascimento – a imagem do homem e de seu mundo como algo abstrato não se faz, agora, imagem concreta por meio da arte?

Esse é um questionamento que nos leva a refletir sobre nossa ideia de civilização, conceito que tão bem debatemos ao longo de 2017 no Fronteiras. É um tema que não sai de cena jamais, pois envolve muito mais do que arte e manifestações culturais: nossa identidade, nossas estruturas sociais, a religião e o poder, nosso senso de permanência e de ruptura, de continuidade e de mudança – a ideia de civilização é abrangente, abarca todas essas dimensões.

Confesso que sempre que via esse vídeo de Schama, ficava pensando: “Não seria incrível vê-lo expandir seu raciocínio, levar essa reflexão mais longe? Como seria o seu entendimento de nossa civilização?” Pois bem. Graças à BBC, finalmente saberemos todos.

Há quase 50 anos, quando a BBC 2 estava se preparando para ser a primeira rede de televisão britânica a operar em cores, um dos maiores historiadores da arte em atividade então, Kenneth Clark, foi convidado para apresentar um programa que mudaria o modo como o grande público veria a arte. Civilização – uma visão pessoal, foi ao ar em 13 episódios em 1969, e o foco de Clark era a civilização europeia, desde o fim da antiguidade até o começo da I Guerra Mundial.

bbc civilizations

Agora, a partir de março de 2018, será a vez de Simon Schama. Acompanhado de outros dois historiadores de peso – Mary Beard, classicista da Universidade de Cambridge e uma das grandes personalidades do meio intelectual anglo-saxão, e David Olusoga, historiador e apresentador da BBC –, a jornada agora é muito maior. Não Civilização, mas Civilizações, no plural. Não uma visão pessoal, mas três. Assim o novo programa da BBC – que será transformado em livro e dvd’s em seguida – nos conduzirá das cavernas paleolíticas às glórias gregas; das cidades Maias ao Japão de Houkasi; da Europa cristã e renascentista à África de tantas maravilhas.

Acompanhei tudo o que seus autores divulgaram nesses dois anos de produção. Desde 2015, viajando pelo mundo, vendo e revendo todas essas grandes obras, Schama e seus colegas não poderiam produzir senão uma obra-prima. Não tenho dúvidas de que será assim. Recentemente, escrevendo ao Financial Times sobre sua experiência de epifanias mesmo com as obras que julgava conhecer bem, não penso que foi por acaso que ele destacou a figura de uma senhora de idade indefinida atravessando uma ponte em “Caçadores na Neve”, de Bruegel. Ali, diz ele, encontrou um emblema para a condição humana.

Acredito. No trailer da nova série, vemos Schama diante deste quadro anunciando que “tudo se encaixa – a inteira condição humana, e o lugarzinho particular, pequeno e especial que ocupamos nela”. Não era essa questão mesma que o professor Schama nos ensinava em uma tarde de 2008, gravando ao Fronteiras, buscando entender a função da arte?

EDUARDO WOLF | Doutor em Filosofia pela USP, curador-assistente do Fronteiras do Pensamento