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Ayaan Hirsi Ali e Salman Rushdie: vozes unidas contra o fundamentalismo

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"Sem a liberdade de ofender, não existe liberdade de expressão." É o que diz o escritor indo-britânico Salman Rushdie, que viveu mais de uma década sob o medo das ameaças de morte por ter escrito uma obra que teria ofendido o Profeta Maomé, Os versos satânicos.

Em entrevista ao filósofo e neurocientista norte-americano Sam Harris, ouvimos de outra grande ativista pela liberdade de expressão uma sentença similar: "Não podemos ter tanto medo da ofensa verbal ao ponto de perdemos nossa habilidade de debatermos abertamente – pois o debate ainda ocorrerá, mas por meios menos pacíficos". A fala vem de Ayaan Hirsi Ali, escritora somali, conferencista do Fronteiras do Pensamento 2008, cuja obra mais recente é Heretic: why Islam needs a reformation now, em que Hirsi Ali propõe uma reforma do Islã ao argumentar que a violência dos grupos extremistas está contida na raiz da religião islâmica.

Em 1989, quando o aiatolá Khomeini lançou a fatwa contra Rushdie, Ayaan tinha 20 anos e estudava na escola secundária para garotas muçulmanas, em Nairóbi. Ayaan usava, há quatro anos, a hijab completa – a vestimenta feminina considerada "o véu que separa o homem de Deus". Quando as notícias sobre Rushdie chegaram à escola, as meninas apoiaram Khomeini, mesmo não sendo xiitas. "Ficamos sabendo que havia um livro", disse Ayaan, "e que o autor tinha dito algo horrível sobre o Profeta, uma extrema blasfêmia. A primeira coisa que surgiu em minha cabeça é que ele deveria ser morto".

Anos se passaram. Em 2002, Ayaan trabalhava no Partido dos Trabalhadores Holandês, quando declarou publicamente que o Profeta era "pervertido" e "tirano". Suas críticas ao Islã foram se ampliando e as ameaças à sua vida também. Em setembro do mesmo ano, ela já vivia sob escolta policial. As ameaças se tornaram concretas com o lançamento do filme Submissão (2004), escrito por Hirsi Ali, que critica a situação da mulher na religião muçulmana. Por causa da obra, o diretor de Submissão, Theo van Gogh foi assassinado com oito tiros. A questão do multiculturalismo na Holanda, que já era dramática, tornou-se insustentável. A comunidade islâmica no país, que chega a quase um milhão de pessoas, viu 12 de suas mesquitas atacadas e duas de suas escolas infantis incendiadas.

Ayaan se posicionou de forma que sofreria críticas não apenas do Islã, mas de filósofos, antropólogos e cientistas sociais de ambos os hemisférios: oposição radical ao multiculturalismo: "No mundo real, o respeito por todas as culturas não se traduz em um rico e colorido mosaico de pessoas orgulhosas interagindo pacificamente enquanto mantêm uma encantadora diversidade na alimentação e na arte. Traduz-se em grades de opressão, ignorância e abuso".

A jovem que desejou a morte de Salman Rushdie em sua escola, em Nairóbi, uniu-se ao escritor, em 2006, para assinar o Manifesto: juntos enfrentando o novo totalitarismo. Rushdie, Hirsi Ali, Bernard-Henri Lévy, Philippe Val e outros nomes declararam na carta:

"Após termos enfrentado o nazismo e o stalinismo, o mundo agora enfrenta uma nova ameaça totalitarista: o islamismo. Nós, escritores, jornalistas, intelectuais, pedimos por resistência ao totalitarismo religioso pela promoção da liberdade, oportunidades e valores seculares a todos."

As trajetórias de ambos, Rushdie e Ayaan, se cruzaram e nunca mais se separaram. Ayaan encontrou naquele que considerava um inimigo de sua fé um companheiro a favor de sua vida e de milhares de outras pessoas. Artigos, entrevistas e declarações defendendo um ao outro culminaram em entrevista conjunta, em que Ayaan lamenta, mas expõe as consequências de um posicionamento que nunca mais mudaria: "estou aqui sentada com Salman Rushdie e membros da minha família dirão que eu também mereço morrer por isso".

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