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Campos de Sangue: Karen Armstrong discute as origens da violência e os caminhos para superá-la

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Batalha entre cruzados e muçulmanos (Roman de Godefroi de Bouillon et de Saladin, Paris, 1337)
Batalha entre cruzados e muçulmanos (Roman de Godefroi de Bouillon et de Saladin, Paris, 1337)

Na obra Fields of Blood [Campos de Sangue, ainda sem tradução no Brasil], a escritora Karen Armstrong investiga a origem da violência e argumenta que a religião não deve ser crucificada pelas guerras e conflitos que o mundo vive hoje. O livro, que começou a ser esboçado desde o ataque às Torres Gêmeas, em 2001, busca avaliar a influência da fé em um passado quando religião e Estado eram inseparáveis, algo que mudou no Ocidente moderno e que ainda é estranho a determinadas culturas do outro hemisfério.

“As vidas religiosa e secular se tornaram oficialmente distintas no século XVIII, primeiramente nos Estados Unidos e então na França revolucionária. No mundo islâmico, onde a secularidade era um produto importado, isso foi imposto nos séculos XIX e XX tão rapidamente, e normalmente com tanta crueldade, que em muitos locais foi descreditada", explicou a historiadora das religiões em entrevista ao The New York Times. Ao Fronteiras do Pensamento, Armstrong falou tanto sobre a origem da violência quanto sobre os caminhos e os desafios para a superarmos. Leia abaixo:

Escrevi um livro sobre religiões e violência e creio que seja importante perceber que até o período moderno não havia distinção entre religião e política. Todas as ideologias políticas do mundo eram imbuídas de religião e, portanto, a religião estava envolvida na violência do Estado, do Império.

É igualmente importante reconhecer que qualquer religião que tenha se tornado mundial, que tenha se espalhado por todo o planeta, tornou-se tal não por suas lindas ideias ou ideologias, mas porque foram adotadas pelo Estado, um Estado dinâmico e em expansão ou um Império.

Até o cristianismo, no qual temos Jesus falando com convicção contra o Império Romano, foi adotado por Constantino e, então, por outros impérios: aqui, pelo Império Português, e portanto, o cristianismo está envolvido na violência e na exploração do Império.

Mas, pense na religião como fazemos no mundo moderno, como algo separado, que não deve ser misturado com política. Isso é uma ideia muito nova e é uma ideia ocidental, algo que criamos para nossos próprios interesses políticos nos séculos XVII e XVIII.

Isso não se aplica ao resto do mundo. Portanto, é muito difícil afirmar o que é religião, mas motivos políticos, ganância, o desejo de possuir recursos escassos, poder político, invadir outros Estados para ganhar poder, isso é política. E isso é de fato a raiz da maior parte da violência que vemos no mundo hoje.

Também deve ser dito que as religiões, em seu melhor aspecto, têm oferecido uma crítica, uma alternativa ao Estado. E creio que seja bom para o Estado se a religião se mantiver afastada da política. Mas, as religiões começaram, seja o Islã, o cristianismo, o budismo, como um afastamento da violência do Estado, apresentando uma alternativa, outra forma de convívio para os seres humanos, não por exploração e agressão, mas por justiça, igualdade, gentileza, bondade e compaixão.

Cheguei ao meu entendimento de compaixão através do estudo da religião. Mas, o fato de que cada uma das maiores tradições mundiais tenha independentemente colocado a compaixão no centro de seus ensinamentos mostra que também há um componente humano.

É algo que foi construído na estrutura da nossa humanidade. E as pessoas reconhecem a compaixão independentemente da sua fé. Sentimo-nos atraídos à compaixão, porque percebemos, creio, que ela é a nossa melhor parte.

Os filósofos que formularam a Regra de Ouro, “nunca trate os outros de uma forma que você não gostaria de ser tratado", não o fizeram porque foram orientados por um deus, ou porque simplesmente queriam atingir a iluminação. Eles todos viviam em sociedades como a nossa, onde havia grandes mudanças e inquietação social e política, e onde a violência havia chegado a um crescimento inédito.

E quando eles olharam para suas sociedades, pessoas como Confúcio, Buda, Jesus, Hillel, eles todos disseram: “Caso a gente continue neste rumo, vamos destruir uns aos outros". E isso nunca foi tão verdadeiro como é hoje.

Nossas vidas estão em um dilema: os Estados em que vivemos e nos quais a paz é imposta são essencialmente preparados para a violência. Nenhum Estado pode se dar ao luxo de abrir mão de seu exército. E a criação de um Estado é sempre coerciva e violenta. Ainda assim, vemos que nossas lindas cidades e tudo aquilo que amamos, a nossa cultura,tudo isso foi fundamentado na violência institucionalizada.

Somos todos cúmplices disso. E especialmente quando você está vivendo em um contexto de violência, tal como estamos em nosso mundo hoje, a não violência pode também, paradoxalmente, levar a um ato violento. Tudo se contamina com alguma forma de agressão.

Isso é fato no mundo religioso, onde o primeiro movimento de não violência, até onde eu sei, foi o Zoroastro, em 1200 a.C., que partiu de um clamor contra a violência que percebia para uma não violência ortodoxa, mas produziu um cenário apocalíptico que é, em si, violento.

Portanto, somos seres humanos agressivos. O que temos que nos perguntar, entretanto, é se há também o perigo de a violência gerar violência. Quando agimos violentamente para salvar uma criança, isso provavelmente vai gerar mais violência e talvez outras coisas piores ocorram. Não há resposta fácil para essas dificuldades.


Assista aos vídeos com Karen Armstrong no Fronteiras.com