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Carl Hart e a equivocada política da guerra às drogas

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Carl Hart nasceu em 30 de outubro de 1966 e é professor na Universidade de Columbia desde 1998. Seus trabalhos de pesquisa são sobre o comportamento e os efeitos neurofarmacológicos de drogas psicoativas em humanos. Psicólogo em Maryland, doutor em neurociências em Wyoming, e estágio de pós-doutorado na Califórnia e Yale. Sua formação científica denota um percurso de excelência acadêmica. Publicou numerosos artigos com vários grupos de investigação sobre os efeitos de diferentes substâncias psicoativas, como maconha, cocaína, metanfetamina, álcool etc, nas experiências cognitivas e nos comportamentos sociais. Suas pesquisas provam que o consumo compulsivo de psicoativos está vinculado à impossibilidade de acesso a opções diversas, o que implica que a pobreza e a marginalização social contribuem significativamente com o problema.

Assim, adverte que em vez de se fazer uma “guerra contra as drogas” deveria se fazer uma política pública de inclusão social e econômica. Em 2012, participou do documentário “The House I Live In”, que questiona a estratégia da guerra às drogas. Em 2013, publicou “Um Preço Muito Alto”, livro que articula histórias da própria experiência de Hart com as drogas e a pobreza e sua formação de cientista. Entre os exemplos da vida real e os dados cientificamente comprovados, Hart oferece um conjunto de informações que permitem ao leitor derrubar mitos e falácias, bem como identificar afirmações sobre o consumo de drogas e as políticas de combate que se sustentam mais na disputa do poder político do que na tentativa de resolução na sociedade.

Leia mais sobre o cientista em artigo do psicanalista Christian Ingo Lez Dunker "Carl Hart: mais ciência e liberdade" publicado com exclusividade pelo Fronteiras do Pensamento.

O doutor Hart trabalha na pesquisa desde 1999. Recruta “consumidores de crack experientes e contumazes [que] gastavam nisso entre US$ 100 e US$ 500 por semana” ¹. No entanto, com todos com quem trabalhou, “nenhum deles rastejava pelo chão, raspando partículas brancas para tentar cheirá-las. Ninguém falava descontroladamente nem se mostrava muito agitado. Nenhum deles tampouco implorava por mais – e absolutamente nenhum dos usuários de cocaína que estudei tornou-se alguma vez violento. Os resultados eram semelhantes para os usuários de metanfetamina. Eles desmentem os estereótipos” ².

Capazes de escolhas, os consumidores dos experimentos do doutor Hart optam por mais uma dose ou por uma nota de US$ 5. A escolha é possível quando ela se apresenta como oportunidade. Quando não acontece, então se continua pelo mesmo caminho. “Enquanto acompanhava os participantes do estudo, comecei a pensar no que leva cada um de nós a lugares diferentes. Por que era eu que estava de jaleco branco, e não o consumidor de crack no cubículo?” ³. “Um Preço Muito Alto” é a tentativa de responder a essa pergunta. Carl Hart narra as lembranças da sua vida desde a infância em Miami, a violência doméstica vivida no seio familiar, e ao mesmo tempo reflete sobre o racismo institucionalizado e os fatores culturais e ambientais. Sua vida em bairros pobres, a relação com as irmãs, o irmão menor, seus pais e a Big Mama, a cultura do rap e os esportes, sua época na Força Aérea e a entrada na universidade contam uma história que é analisada à luz de dados de pesquisas laboratoriais e sociais com consequências políticas.

Hart revela como parte do próprio funcionamento do uso das pesquisas científicas justifica e reforça o racismo institucionalizado nos Estados Unidos. Na medida em que toma conhecimento intelectual e existencial da situação, Hart confessa que começou “a lamentar ter perdido a militância e o movimento de conscientização da década de 1960 e do início da seguinte. Ironicamente, no momento em que começava a lamentar ter nascido tarde demais para entrar no movimento dos Panteras Negras ou protestar contra a Guerra do Vietnã, eu não sabia que uma nova investida contra os negros era lançada em meu país. Era a guerra contra as drogas promovida por Ronald Reagan” ⁴.


Hart sustenta e procura provar que a guerra às drogas é um recurso utilizado para manter a população pobre e negra marginalizada. E que foi aplicada independentemente do partido político no poder. “Não importa, nesse ponto da história dos Estados Unidos, se é um democrata ou um republicano. A política de drogas foi igualmente horrível sob Obama, sob Reagan, sob Clinton, sob Biden” ⁵. Em entrevista publicada pela BBC Brasil em 6 de maio de 2014, Hart afirma: “Na maioria do mundo, as políticas de drogas são baseadas em premissas falsas como, por exemplo, que as drogas são muito viciantes, perigosas e imprevisíveis. (...) Dirigir é estatisticamente perigoso, mas não dizemos que um motorista certamente sofrerá um acidente ou que passará por uma situação perigosa sempre que entrar no carro. Fazemos isso com as drogas. Ao basear uma política em mentiras, as leis em torno dela não refletem a realidade”.

Carl Hart não é apenas – e nada menos que – um excelente cientista especializado nos efeitos dos psicoativos em humanos. Ele nos oferece uma aula acerca de como as tomadas de decisões da gestão política, tanto no Estado quanto nas instituições privadas, se quiserem ser razoáveis e não meramente dogmáticas, devem estar baseadas em dados científicos comprovados, a partir dos quais se possa refletir sobre os modos de resolução de problemas. Hart finaliza seu livro “Um Preço Muito Alto” com um capítulo intitulado “Uma política de drogas baseada em fatos, não em ficção”. E a última frase é: “Espero sinceramente que meu empenho ajude a impedir muitos dos erros de políticas cometidos no passado” ⁶.

Daniel Omar Perez é psicanalista e professor de filosofia da Unicamp

[1] Hart, C. (2014) “Um Preço Muito Alto”. Rio de Janeiro: Zahar, p. 13.

[2] Hart, C. (2014) “Um Preço Muito Alto”. Rio de Janeiro: Zahar, p. 13.

[3] Hart, C. (2014) “Um Preço Muito Alto”. Rio de Janeiro: Zahar, p. 15.

[4] Hart, C. (2014) “Um Preço Muito Alto”. Rio de Janeiro: Zahar, p. 171-172.

[5] Hart, C. em entrevista à DW, publicada por Larissa Linder em 26/07/2021.

[6] Hart, C. (2014) “Um Preço Muito Alto”. Rio de Janeiro: Zahar, p. 316.