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Cidade, pessoas e redes

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Ilustração de Giovani Domingos
Ilustração de Giovani Domingos

“O papel da academia deve ser o de contribuir para ações que favoreçam projetos para a cidade real, ampliando a interação entre as pessoas e entre as diferentes áreas de conhecimento". - Cibele Vieira Figueira

As cidades, sobretudo as grandes e médias, há bastante tempo, colocam uma série de interrogações aos saberes das mais diferentes áreas; interrogações e desafios que, mesmo de forma diferenciada, interessam e dizem respeito a todos, independentemente da nossa vontade, pois fazem parte do nosso cotidiano enquanto cidadãos, de maneira compulsória. E não se trata de matéria fácil, porque, ao falarmos da cidade, não estamos nos referindo apenas a algo constituído de espaços e construções, mas também a uma realidade social e econômica de grande complexidade, no interior da qual se desenrola o nosso cotidiano.

O foco do trabalho que Geoffrey West vem desenvolvendo está voltado para a cidade. Como ele mesmo explicita, o faz buscando conhecê-la através de um enfoque diferente, empregando instrumentos de análises distintos dos usuais, vislumbrando a cidade como um organismo vivo, do qual é possível conhecer a sua estrutura, interpretar seu estado e estabelecer um diagnóstico. Faz uma leitura do seu funcionamento, utilizando-se, para tanto, de indicadores quantitativos, de natureza semelhante aos encontrados nas investigações feitas no âmbito da física e da biologia. Seu método utiliza preceitos matemáticos descritivos, baseados em parâmetros estatísticos, abordando diferentes aspectos, tais como evolução, organização, produtividade, etc., relacionando-os à população e às dimensões das cidades. E, por esse caminho, chega à construção de gráficos que, como aqueles utilizados em estudos biológicos, nos revelariam princípios genéricos universais que, segundo ele, ajudam a entender os diferentes processos de formação da cidade.

Conforme West, os organismos vivos, assim como todos os sistemas, dependem de redes básicas de funcionamento, e o que nos seres vivos se compõe do sistema nervoso, venoso, etc., na cidade se estabelece de duas maneiras: o sistema físico, constituído pelas redes de infraestrutura (vias, iluminação, gás, etc.); e o sistema constituído pelas relações entre as pessoas, organizadas em distintos grupos de interesses. Relações que seriam os grandes geradores de inovação, matéria-prima básica para a criação de sistemas que não deixariam colapsar o ciclo de crescimento das cidades, visto que, diferentes dos organismos vivos, as cidades não podem morrer. Por isso, afirma com muita convicção que as grandes cidades são melhores ecossistemas, pois oportunizam o intercâmbio necessário para novas criações.

O Movimento Moderno ensinou a nós arquitetos, especialmente no que se refere ao urbanismo, os riscos de interpretar a cidade como matéria científica, pois tendemos a transformá-la em algo desumano. Entendê-la como fenômeno, decompondo-a em componentes mais simples para encontrar valores universais nos distancia da complexidade e, portanto, da cidade real. Como dito por Sérgio Magalhães, “a certeza da modernidade deu lugar à incerteza". Também cabe perguntar para onde nos leva analisar a cidade dessa forma objetiva? E que valor pode haver estabelecendo leis gerais para resolver os problemas específicos atuais das cidades?

Porém, no que se refere às redes constituídas por pessoas, como matéria-prima para incentivar mudanças, essa é uma ideia que vem sendo impulsionada também pelas novas tecnologias que permitem, além de um maior acesso à informação, uma maior interação entre diferentes grupos. Em Porto Alegre, essa cultura de redes de intercâmbio tem ajudado a gerar debates, encontros, caminhadas e outros eventos interessantes sobre nossa cidade. Desde o início de 2013, a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da PUCRS (FAU) está envolvida diretamente com grupos focados na requalificação da região do 4º Distrito da cidade de Porto Alegre, entendendo que essa passará por um rápido processo de transformação, do qual é muito importante fazer parte, para que não seja guiado somente por regras de especulação imobiliária. Com esse objetivo, a FAU vem promovendo reuniões com estudantes, sociedade civil, representantes da prefeitura, empresários e associações, além de consultores externos. Isso enriquece tanto os projetos de pesquisa como as disciplinas do curso que, em formato de Ateliê Vertical de Ideias, estão envolvidas de forma integral com esse desafio.

Se as cidades oportunizam o intercâmbio, como diz Geoffrey West, o papel da academia deve ser o de contribuir para o estímulo de ações que possam favorecer projetos para a cidade real, ampliando, assim, a interação não somente entre as pessoas, mas também entre as diferentes áreas de conhecimento. O desafio do presente é buscar promover cidades vibrantes desde o ponto de vista social, cidades capazes de ter uma economia autossuficiente, inovadora e que, aliadas a uma boa arquitetura, criem um ambiente muito mais humano.


REFERÊNCIAS

ARANTES, Otília. A cidade do pensamento único. Desmanchando consensos. Petrópolis: Vozes, 2000.

CORSINI, José Maria. Diseño urbano y pensamiento contemporáneo. México: Oceano, 2004.

GEHL, Jan. Cidade para pessoas. São Paulo: Perspectiva, 2013.

MAGALHÃES, Sérgio. A cidade na incerteza: ruptura e contiguidade em urbanismo. Rio de Janeiro: Viana & Mosley, 2007.

WEST, Geoffrey. The surprising math of cities and corporations. TED Talk: julho de 2011.


SOBRE A AUTORA

Cibele Vieira Figueira graduou-se em Arquitetura e Urbanismo em 1994. Concluiu seu doutorado na Universidade Politécnica de Barcelona em 2006. Desde 2012 é professora do curso de graduação da FAU-PUCRS e, em 2013, começou a atuar como pesquisadora do Núcleo de Estudos da Cidade.


Este texto integra a revista Leituras PUCRS/Fronteiras do Pensamento, com artigos de professores da Universidade sobre a carreira e a obra dos convidados da temporada 2014 do curso de altos estudos Fronteiras do Pensamento, do qual a PUCRS é parceira cultural. A versão PDF está disponível download em www.pucrs.br/leituras-pucrs.