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"Com Borges", um livro de Alberto Manguel

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Leia, a seguir, um excerto do livro Com Borges, de Alberto Manguel, editado pela Âyinè:

Abro caminho com os ombros no meio da multidão na Calle Florida, entro na recém-construída Galería del Este, saio pelo outro lado, atravesso a Calle Maipú e, encostando-me na fachada de mármore vermelho do número 994, pressiono o botão do 6B. Entro no hall frio do prédio e subo os seis andares de escada. Toco a campainha e a empregada abre a porta, mas, antes que ela me deixe entrar, Borges sai de trás de uma cortina, com a postura bastante ereta, terno cinza abotoado, camisa branca e gravata amarela listrada levemente torta, arrastando-se um pouco ao se aproximar. Cego desde antes dos sessenta anos, ele se move hesitante mesmo num espaço que conhece tão bem quanto o seu. Estende a mão direita e me dá as boas-vindas com um aperto distraído e fraco. Não há mais formalidades. Ele se vira e me guia até a sala de estar, sentando-se ereto no sofá virado para entrada.

Eu me acomodo na poltrona à sua direita e ele pergunta (mas as suas perguntas são quase sempre retóricas): «Bem, que tal lermos Kipling esta noite?». Por vários anos, de 1964 a 1968, tive a sorte de estar entre os muitos que leram para Jorge Luis Borges. Depois do colégio, eu trabalhava na Pygmalion, uma livraria anglo-germânica em Buenos Aires, da qual Borges era cliente assíduo. A Pygmalion era um dos pontos de encontro dos interessados em literatura na cidade. A proprietária, a srta. Lili Lebach, uma alemã que escapara dos horrores nazistas, adorava oferecer aos clientes as mais novas publicações europeias e norte-americanas. Era uma ávida leitora de suplementos literários, não apenas de catálogos de editoras, e tinha o dom de combinar suas descobertas com o gosto dos clientes. Ela me ensinou que um livreiro precisa conhecer as mercadorias que está vendendo, e insistia para que eu lesse muitos dos novos títulos que chegavam à loja. Não era necessário muito tempo para me convencer.

Borges frequentava a Pygmalion no fim da tarde, quando saía da Biblioteca Nacional, onde trabalhava como diretor. Um dia, após escolher alguns títulos, me convidou para visitá-lo e ler para ele à noite, caso eu não tivesse mais nada para fazer, pois sua mãe, já na casa dos noventa anos, se cansava facilmente. Borges podia convidar qualquer pessoa: estudantes, jornalistas que iam entrevistá-lo, outros escritores. Há um vasto grupo de pessoas que leram em voz alta para ele, pequenos Boswell que raramente sabem a identidade um do outro, mas que coletivamente guardam a memória de um dos grandes leitores do mundo. Eu não sabia a respeito deles na época. Tinha dezesseis anos. Aceitei, e três ou quatro vezes por semana visitava Borges no pequeno apartamento que dividia com a mãe e com Fany, a empregada.

Naquela época, eu certamente não me dava conta do privilégio. Minha tia, que o admirava bastante, ficava ligeiramente escandalizada com minha indiferença e me incentivava a tomar notas, a fazer um diário dos meus encontros. Porém, para mim, aquelas noites com Borges realmente não eram (na arrogância da adolescência) algo extraordinário, nem estranho ao mundo dos livros, que eu sempre presumira ser meu. Na verdade, era a maioria das outras conversas que me pareciam estranhas, desinteressantes — conversas com meus professores sobre química e sobre a geografia do Atlântico sul, com meus colegas de escola sobre futebol, com meus parentes sobre o resultado das minhas provas e minha saúde, com vizinhos sobre os outros vizinhos. As conversas com Borges eram, ao contrário, o que, na minha mente, toda conversa deveria ser: sobre livros e seu funcionamento, sobre escritores que eu ainda não tinha lido, sobre ideias que não tinham me ocorrido ou  que eu vislumbrara de maneira hesitante, meio que por intuição, e que na voz de Borges reluziam e deslumbravam com todo o seu intenso esplendor, de certa maneira óbvio. Eu não tomava notas porque durante aquelas noites me sentia feliz demais. 

Desde as minhas primeiras visitas, o apartamento de Borges me parecia existir fora do tempo, ou em um tempo criado a partir das experiências literárias de Borges, composto das eras cadenciadas da Inglaterra vitoriana ou eduardiana, do início da Idade Média nórdica, da Buenos Aires das décadas de 1920 e 1930, de sua amada Genebra, da época do Expressionismo Alemão, dos anos odiados de Perón, dos verões em Madri e Mallorca, dos meses passados na Universidade de Austin, no Texas, onde foi generosamente admirado pela primeira vez nos Estados Unidos. Esses eram seus pontos de referência, sua história e sua geografia: o presente raramente se intrometia. Para um homem que amava viajar, mas que não conseguia enxergar os lugares que visitava (universidades e fundações passaram a convidá-lo regularmente apenas em meados da década de 1960), Borges tinha particular desinteresse pelo mundo físico, exceto como representações de suas leituras. A areia do Saara ou a água do Nilo, o litoral da Islândia, as ruínas da Grécia e de Roma, todos os quais ele tocara com prazer e admiração, simplesmente confirmavam a memória de uma página de As mil e uma noites ou da Bíblia, da Saga de Njáll, ou de Homero ou Virgílio. Ele trazia todas essas «confirmações» para seu apartamento.

Lembro do apartamento como um lugar abafado, morno, de cheiro adocicado (devido à insistência da empregada em manter o aquecedor numa temperatura alta e de borrifar eau de cologne no lenço de Borges antes de colocá-lo, com as pontas visíveis, no bolso do peito do seu paletó). Também era razoavelmente escuro, e todas essas características pareciam se harmonizar com a cegueira do velho senhor, criando uma sensação de isolamento feliz. 

Sua cegueira era de um tipo particular. Foi aumentando pouco a pouco desde os trinta anos e se firmou de vez depois do 58o aniversário. Era uma cegueira esperada desde o nascimento, pois ele sempre soubera que herdara a visão fraca do seu bisavô inglês e da sua avó, tendo ambos morrido cegos; e também do seu pai, que ficou cego com mais ou menos a mesma idade de Borges, mas recuperou a visão após ser operado alguns anos antes de falecer, ao contrário do filho. Com frequência, Borges discutia sua própria cegueira, principalmente com um interesse literário: em um famoso poema, ela lhe aparece como demonstração da «ironia de Deus» que lhe dera «livros e a noite»; mas também sob o aspecto histórico, como quando lembrava de poetas cegos renomados, como Homero e Milton; ou supersticiosamente, pois foi o terceiro diretor  da Biblioteca Nacional a ser acometido pela cegueira, depois de José Mármol e Paul Groussac; com um interesse quase científico, lamentando não poder mais enxergar a cor preta na névoa acinzentada que o cercava e se alegrando com o amarelo, a única cor que lhe restava, a cor dos seus amados tigres e das rosas que preferia, um gosto que levava seus amigos a lhe comprarem gravatas de um amarelo berrante em todos os seus aniversários, e Borges a citar Oscar Wilde: «Apenas um surdo usaria uma gravata como essas»; com um humor elegíaco, dizendo que a cegueira e a velhice eram maneiras diferentes de ficar sozinho. A cegueira o obrigava a ficar dentro da cela solitária em que compôs seus últimos trabalhos, construindo frases na cabeça até que estivessem prontas para serem ditadas a quem quer que estivesse à disposição. 

«Pode anotar isso?» Ele está se referindo às palavras que acabou de compor e decorar. Dita uma por uma, entoando as cadências que ama e indicando os sinais de pontuação. Recita o novo poema verso a verso, sem seguir o sentido até a estrofe seguinte, mas parando no fim de cada verso. Então pede que leiam para ele, uma, duas, cinco vezes. Desculpa-se pelo pedido, mas depois pede outra vez, escutando as palavras, visivelmente revirando-as na cabeça. Em seguida acrescenta outra frase, e mais outra. O poema ou parágrafo (pois às vezes ele se arrisca a escrever prosa novamente) toma forma no papel, assim como aconteceu na sua imaginação. É estranho pensar que a composição recém-nascida aparece pela primeira vez numa letra que não é a do autor. O poema é concluído (um texto em prosa requer vários dias). Borges pega o pedaço de papel, dobra-o, guarda-o na carteira ou dentro de um livro.Curiosamente, faz o mesmo com o dinheiro: pega uma nota, dobra e coloca dentro de um dos volumes da sua biblioteca. Depois, quando precisa pagar alguma coisa, tira um livro e (às vezes) encontra o tesouro. 

No seu apartamento (assim como no escritório que ocupou por tantos anos na Biblioteca Nacional), Borges buscava o conforto da rotina, e nada parecia mudar nos espaços que ocupava. Toda noite, na hora em que eu atravessava a cortina da entrada, a disposição do apartamento se revelava de uma vez só. À direita, uma mesa escura coberta com um tecido rendado e quatro cadeiras de encosto reto constituíam a sala de jantar; à esquerda, debaixo de uma janela, havia um sofá gasto e duas ou três poltronas. Borges se sentava no sofá e eu ocupava uma das poltronas, virado para ele. Seus olhos cegos (eles sempre tinham um olhar melancólico, mesmo quando se enrugavam com uma risada) fixavam um ponto do espaço enquanto ele falava e meus próprios olhos perambulavam pelo cômodo, reabituando-se aos objetos familiares de uma caneca prateada e um mate que pertencera ao seu avô, uma escrivaninha em miniatura que datava da primeira comunhão de sua mãe, duas prateleiras brancas com enciclopédias na parede e duas estantes baixas de livros, de madeira escura. Na parede, havia uma pintura feita por sua irmã, Norah, retratando a Anunciação, e uma gravura de Piranesi mostrando misteriosas ruínas circulares. Mais à esquerda, um corredor curto levava aos quartos: o da mãe, cheio de fotografias antigas, e o dele, simples como a cela de um monge. Às vezes, quando estávamos prestes a sair para uma caminhada noturna ou para jantar no Hotel Dora do outro lado da rua, a voz incorpórea de Doña Leonor nos alcançava: «Georgie, não esqueça seu suéter, pode fazer frio!». Doña Leonor e Beppo, o grande gato branco, eram duas presenças fantasmagóricas naquele lugar.