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Confira o resumo e os principais trechos da Maratona Fronteiras

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Na Maratona FronteirasAndrew SolomonMarina Abramović e André Comte-Sponville falam sobre isolamento, a forma como vivem suas profissões e importantes influências em suas vidas.




Confira o resumo e os principais trechos de cada conferência:

Marina Abramovic reflete que a covid-19 chega para desacelerar o mundo e as pessoas, o isolamento social gerado pela pandemia e seu impacto na criação artística. Descreve suas origens familiares, na antiga Iugoslávia, disserta sobre sua relação com a morte, a arte e “a sorte de ter tido uma infância difícil”. Marina também conta como ganhou o Leão de Ouro na Bienal de Veneza e sua longa relação com o Brasil.

André Comte-Sponville fala sobre o alcance e o papel do pensamento filosófico, disserta sobre o papel das esquerdas no mundo contemporâneo. Sponville reflete sobre religião e definição do ateísmo; política, sua relação com o partido comunista e as mudanças da esquerda e as virtudes universais.

Andrew Solomon iniciou sua fala mencionando o resultado das eleições nos Estados Unidos, em outubro de 2020, celebrando o que pode ser uma esperança para a humanidade. A pandemia e as consequências do isolamento social marcaram o debate. Família, parentalidade e relações humanas foram pautas recorrentes no decorrer do encontro. Solomon enfatizou a necessidade de as pessoas não se isolarem totalmente enquanto perdurarem as restrições em função da covid-19, e destacou que estamos todos em processo de transformação neste experimento.

Marina Abramovic 

PANDEMIA

É interessante como a Covid-19 afeta tantas pessoas nesse planeta, e tantas de forma tão negativa. As pessoas ficam deprimidas, clastrofóbicas, não conseguem lidar com este tipo de isolamento e também por não terem planos pro futuro. Acho que é um aviso para que nós parássemos. Até a pandemia eu estava andando pelo mundo como louca, pegando um avião atrás do outro, trabalhando em diversos projetos ao mesmo tempo. E aí a Covid-19 chegou. E então tudo ficou como que em câmara lenta. Não se podia viajar, não se podia ver amigos… E a forma de comunicação se tornou o Zoom… No isolamento é preciso criar algo. Mas quando se cria algo, e no meu caso, é uma performance, não uma pintura, escultura, então eu gosto de mostrá-la à plateia, mas para ter plateia é preciso ter vida, é preciso que eles participem da obra. Porque na performance a plateia e o artista completam a obra.  Eu detesto Zoom. Acho que devemos esperar por tempos melhores. Na Idade Média, a peste negra varreu o mundo por 15 anos, centenas de milhões morreram. Agora estamos falando de dois anos, que não é muito tempo na história humana. E com a maioria das pessoas vacinadas, teremos nos próximos anos uma situação normal, as performances retornarão. 

ORIGEM E BÁLCÃS

Quando me perguntam de onde vim, eu sempre digo que vim da Iugoslávia. E esse país não existe mais. Eu não digo que vim da Sérvia, não digo de Montenegro. Mas quando escrevem matérias sobre mim colocam o que querem. Mas nunca respeitam minha declaração de que eu vim da ex-Iugoslávia. Quando começou a Guerra dos Bálcãs, foi uma época perturbadora para mim, a época do genocídio, me pediram para fazer imediatamente uma obra de arte, que eu não podia fazer imediatamente. Eu tinha que pensar, era muito próximo de mim, muito íntimo, sentimental. Me chamaram para Bienal de Veneza, no pavilhão de Montenegro, na época, eu propus o Balkan Baroque, sobre paz e lavar ossos, tratando de guerra e genocídio, tratando-se do fato que quando o sangue é derramado, não se consegue tirá-lo das próprias mãos. E o Ministro da Cultura da época rejeitou o projeto. Disse que era terrível, que eu não era uma artista e que cheiraria muito mal. E aí, Germano Celant, diretor da bienal na época, me disse que tinha um espaço no pavilhão principal se eu quisesse. E que era em um porão. Perfeito! Fui para o porão no meio de junho, a 35°C sem ar condicionado, lavar 2.500 ossos sujos de sangue, oito horas por dia, por cinco dias, com vermes saindo e um cheiro insuportável por todos os lados. E, por essa obra, ganhei o Leão de Ouro. Esta foi a minha forma, como artista, de lidar com aquilo. E houve uma matéria muito importante que foi citada nessa obra, que era sobre como nós Bálcãs criamos o raticínio, criamos ratos que matavam suas próprias famílias – o que ratos normalmente não fazem. Esta foi minha resposta, e acho que a única forma de responder isso não era através da política, era através da minha arte.

ARTE 

A arte tem que surpreender, tem que fazer perguntas, tem que dar respostas, ser espiritual, tem que ser perigosa, encara os limites do corpo e da mente humana. A boa arte tem camadas de significados. Se a arte é somente política, ela tem uma vida muito curta, porque é como o jornal, todo dia há novas notícias. Então, a arte se torna obsoleta muito rápido. Mas se há só um elemento político na união de todos os outros elementos, a boa arte tem mais vidas. Só me interesso por ideias difíceis. Eu gosto do papel em branco, é uma coisa muito boa, tudo começa de um papel em branco, porque eu desenho a ideia, penso a respeito dela. E aí leva muito tempo desse momento até a realização de fato. E, em sua maioria, a realização se dá na frente do público. 

A SORTE DA INFÂNCIA DIFÍCIL

Sempre acreditei que, quanto pior a infância, melhor a artista se torna. Quando se tem uma boa infância e é feliz, não se tem muita coisa para fazer arte, porque a felicidade não se traz nada.  A felicidade é um estado que não se quer mudar. Mas se houver obstáculos, há muito o que se trabalhar. Eu tive uma infância difícil, eu tive sorte. 

TRÊS MARINAS 

As três Marinas: a que gosta de comer muitos doces, adora filmes ruins, é autoindulgente. Tem a preguiçosa e tem a cheia de bobagem. Todas vivem de forma muito harmoniosa dentro de mim. Uma é heroica, sem limites, simplesmente vai atrás das coisas. Uma é bem espiritual, de solidão, contemplação da natureza. No início da minha vida, eu tinha vergonha, só me interessava por uma, a heroica. Porque ambos meus pais eram heróis nacionais. Ao longo da minha vida nas performances eu entendi: a coisa mais difícil de se fazer em performance é fazer e mostrar à plateia coisas das quais se tem vergonha. Mas essas são duas obras, porque te torna vulnerável e quando se torna vulnerável, cria-se confiança com o público.

MORTE

Eu penso na morte desde os 17 anos, no meu aniversário, que me dei conta que eu só tinha 17, mas um dia iria morrer. Foi uma experiência tão profunda que nunca me abandonou. Penso na morte todo os dias, porque quando se pensa na morte todo santo dia, se consegue aproveitar a vida completamente, o presente, o aqui e agora.

BRASIL

Eu vim ao Brasil procurar minerais, fui a Minas Gerais, claro, Amazonas, Santa Catarina, fui a todo canto, do Oiapoque ao Chuí, fui às minas pesquisar para a obra. Quando falamos de Brasil, não dá para generalizá-lo, há tantas partes diferentes, tantas culturas diferentes, e elas se misturam. O Brasil foi uma jornada contínua, eu não fui só uma vez. Poderia ir diversas vezes e cada vez seria uma jornada diferente. Uma das primeiras foi procurando minerais, criando objetos nas três posições básicas: sentado, em pé, deitado. Mais tarde, fui ao Brasil procurar pessoas com poderes especiais. Fui ver o pessoal do Candomblé, xamãs, pessoal que usa Ayahuasca. E também os lugares especiais onde há naturalmente uma certa energia. E aprender com essas pessoas e ir a esses lugares especiais, isso influenciou muito a minha obra. Podemos ver em cada obra como o Brasil faz parte dela.

André Comte-Sponville


FILOSOFIA

Filosofar é pensar sobre a própria vida e viver seu o pensamento. Mas primeiro é preciso viver. Quando vemos que há pessoas defendendo o terraplanismo, que o homem nunca foi à lua, teorias da conspiração, pessoas dizendo que 11 de setembro é uma invenção ou encomendada pela CIA, diante desse mar de asneiras, meu primeiro reflexo é não participar das redes. Por outro lado, a filosofia requer tempo, por isso que recuso mais entrevistas para a televisão do que aceito. As aceito quando lanço um livro, para divulgação. Mas quando me chama para dar opinião, respondo educadamente que não é meu trabalho, eu não sou jornalista, sou filósofo. E, ao mesmo tempo, não posso negar meu papel de cidadão e me fechar numa torre de marfim intelectual, por isso escrevo com frequência na imprensa.

POLÍTICA

Passei dos meus 18 aos 29 anos no Partido Comunista Francês, não me arrependo. Me filiei por temas como justiça social, realismo político. Sou muito menos radical e menos extremista hoje que na minha juventude.  É mais difícil ser moderado aos 20 que aos 69. Percebi com o passar dos anos que os extremos, seja de direita ou esquerda, mais prejudicaram que trouxeram benefícios. Se tivesse que assumir uma posição política, diria que eu sou um social-democrata, ou um liberal de esquerda, expressão mais recente. Me parece que os moderados prejudicaram menos a humanidade que os diferentes extremistas.

RELIGIÃO

Desde os meus 18 anos, sou ateu. Atualmente, resumo minha posição em três palavras: sou ateu, não dogmático fiel. Reconheço que meu ateísmo não é um saber. Simplesmente porque ninguém sabe verdadeiramente se Deus existe ou não. Se alguém diz que Deus não existe não é um ateu, é um imbecil. E se diz com certeza que Deus existe, é simplesmente um imbecil com fé, que confunde de forma estúpida a fé com o saber. Ateu não dogmático porque meu ateísmo não é uma convicção. Então, ateu não dogmático fiel. Sou um ateu fiel porque sigo apegado até os ossos a diversos valores morais, culturais e espirituais, que com frequência tem sua origem na religião, especialmente nas monoteístas. Não é preciso acreditar em Deus para acreditar que o amor é melhor que o ódio, a bondade e a compaixão são melhores que a violência. 

Por ser ateu não dogmático fiel não milito contra as religiões, não me incomoda que as pessoas acreditem em Deus. A disputa não é entre crentes e não crentes. É entre mentes livres, abertas e tolerantes, que acreditam ou não em Deus, e as mentes fanáticas, dogmáticas e sectárias.

O que me preocupa é que as pessoas parecem acreditar cada vez menos no progresso, a luta dos homossexuais e das mulheres são legitimas, mas atuam como máscaras para uma luta universal. Recordemos que os direitos humanos não se sobrepõem aos direitos das minorias, esses fazem parte da luta dos direitos humanos. Se abandonarmos o universal em prol de pautas identitárias, acredito que todos sairemos perdendo. O que me preocupa é que na minha juventude, na França, definíamos ser progressista de outra forma, antigamente queria dizer ser de esquerda. Mas vejo muitas pessoas de esquerda com discurso nada progressistas.

VIRTUDES UNIVERSAIS 

O amor, a justiça e a tolerância não são virtudes novas, mas ainda as necessitamos hoje. A única virtude que adicionei às virtudes tradicionais foi o humor. A humanidade continua fundamentalmente a mesma. Os jornalistas gostariam que inventássemos novos valores, aconteceu especialmente na virada do milênio. É claro que não é sempre que mudamos de século, menos ainda de milênio. Os jornalistas achavam incrível cobririam a virada do milênio, então ligavam para mim e outros filósofos e diziam: “precisamos de novos valores, é a virada do milênio”. Eu respondi: “que valores vocês querem que eu tire do chapéu?”

ISOLAMENTO E INTERNET

A solidão e o isolamento não são invenções recentes e em vários aspectos nunca nos comunicamos tanto. Esse é o lado bom da internet, as pessoas se encontram e namoram graças às redes sociais. No fim das contas, é melhor que não encontrar ninguém. Por algumas centenas de ano, as pessoas só podiam namorar se se encontrassem. As escolhas amorosas e sexuais eram bastante limitadas. Graças à bicicleta, as pessoas podiam namorar quem morasse a 40 quilômetros de distância, já era uma enorme liberdade. Com o carro, o trem e agora a internet, você pode se casar com alguém que vive em outro continente. Isso sem falar da liberação do divórcio. Se hoje somos mais livres é porque somos livres para casar, durante séculos os pais decidiam o casamento. Vivemos uma época que não é de forma alguma sem conexão. E, inversamente, a solidão é uma dimensão da condição humana.

Andrew Solomon (conferência exibida no Fronteiras do Pensamento, em outubro de 2020)   


ESPERANÇA

Nós acabamos de eleger um novo presidente nos Estados Unidos. Eu sinto que um peso enorme saiu do meu peito. Acho que isso aconteceu comigo e com muitas outras pessoas em meu país, depois de quatro anos de terror e incompetência. Talvez, esse momento dos autocratas e o momento da opressão estejam começando a chegar ao fim. Eu espero que chegue ao fim no Brasil também, da mesma forma que eu acredito que está chegando ao fim nos Estados Unidos. Espero que tenhamos melhores dias por vir. 

Nunca acredite em ninguém que diga que os seus desejos de aniversário não se tornarão realidade. Meu aniversário aconteceu há pouco e o meu sonho se tornou realidade. Também, há pouco recebemos notícias de uma vacina que tem uma taxa de propensão potencial de 90%. Ainda não está claro se essa taxa de fato se manterá tão alta conforme as pesquisas avançam. Também não estará claro quando ou para quem a vacina estará disponível. 

No entanto, falo com os senhores e senhoras hoje em uma semana de esperança. A esperança da eleição de Joe Biden, e a esperança de que essa pandemia e suas expressões terríveis cheguem ao fim, pelo menos isso é algo que agora nós podemos imaginar. As pessoas têm tentado criar coisas positivas nestes tempos difíceis. Ao ouvir essas pessoas, eu penso em uma famosa expressão que diz que há luz no fim do túnel. Mas eu também penso em uma famosa resposta dada a essa expressão, quando o poeta americano Robert Lowell disse que a luz no fim do túnel, na verdade é um trem vindo em nossa direção. 

Eu espero que tenhamos parado esse trem, espero que essa luz seja real. Espero que nessa semana possamos vivenciar uma sensação de entusiasmo, uma sensação de alegria. Não muito pelo que está por vir, porque não sabemos o que virá, mas pela finalização do que talvez já tenha passado.

SAÚDE MENTAL 

Há uma crise de saúde física por conta da covid-19. Há pessoas doentes, sendo internadas, falecendo. Há uma crise de saúde social que coincidiu com essa primeira crise. Essa crise tem a ver com a covid-19, com as mudanças sociais atreladas ao movimento black lives matter, ou vidas negras importam, e com a incompetência de líderes nos Estados Unidos e no Brasil, no sentido de que todos estamos desprotegidos. 

Temos medo de nos contagiarmos e morrermos, temos medo da tragédia pessoal. Para muitas pessoas, a possibilidade de perder a moradia, para outras, a perda de todas suas economias. Temos o medo da intolerância, do racismo, que vem sendo tão vorazes, principalmente nos Estados Unidos, onde vemos episódios de brutalidade policial que não são incomuns, mas que agora estão sendo documentados e despertaram a população a um problema que sempre nos assombrou. 

Vivemos com medo de a democracia estar morrendo. Medo de a vida como a conhecemos antes ter acabado. Estamos negociando esse estresse do isolamento por meio de medidas como o lockdown, o confinamento, que agora fazem parte de nossas vidas. O estresse do isolamento pode ser tão intenso quanto o medo da própria morte. As taxas de depressão dobraram nos Estados Unidos durante a pandemia. Mais da metade dos americanos agora mostram sintomas de depressão clínica. O número talvez seja ainda maior quando falamos de ansiedade clínica. O aumento foi maior entre pessoas em situação de pobreza e pessoas que fazem parte de grupos de minorias raciais. 

Uma pesquisa mostra que, se de um lado as informações sobre desastres médicos estão cada vez mais disponíveis, há menos diretrizes para instituições de saúde sobre como fazer a gestão dos aspectos psicológicos de desastres em grande escala, que podem implicar em um surto de mortes psicológicas. Morte psicológica: preste atenção neste termo. Há muitas pessoas cuja saúde física está bem, mas há pessoas que entraram em um estado de saúde mental abalado, um estado que talvez não seja recuperado com uma vacina ou com o resultado de uma eleição. 

PARENTALIDADE

Se de um lado queremos negar a depressão para protegê-lo (filho), eu me conscientizei de uma vitalidade que vem dele e que inunda o resto da família, mesmo em tempos de dificuldades. Ser forçado a negar sua depressão pode ser um fato terrível, mas ser forçado a disfarçá-la por conta de alguém que é mais vulnerável que nós mesmos, pode ser uma experiência profunda, significativa e importante. Foi isso que tentei fazer, superar a depressão por ele. 

E, às vezes, ele falava “você nunca passou por nada como isso”, “você não tem ideia de como isso é difícil”. E é verdade, eu nunca passei por uma situação como a da covid-19. Eu nunca tive essa experiência estranha de ver meus professores e meus amigos todos os dias online, mas sem de fato ver essas pessoas pessoalmente. Eu nunca havia ficado preso por meses com meus pais, mês após mês, implacavelmente, e com medo o tempo todo. Eu tinha meus medos, mas nunca foi assim. E eu não soube o que falar para ele. 

Eu sempre havia suposto que a angústia crônica e mesmo as melhores relações familiares fossem dadas pela morte, pela perda, pela partida. Na depressão há deficiência, e mesmo outras formas de impotência, mas ali, com George, no local onde nós morávamos, eu pude finalmente entender que a dor de ser pai tem a ver com a impotência que nos consome. O isolamento ratificava o bloqueio que nós sentíamos. A angústia de não conseguir fazer o mundo ser um local mais seguro para os nossos filhos. Foi difícil continuar sendo um coral que resiste às ondas ameaçadoras da realidade continuamente, até que se tornassem suaves ondulações em nossa percepção. A nossa função com George era fazer com que não se sentisse sozinho, que é a função de qualquer pai ou mãe em todo o mundo, mas não é fácil. 

George um dia me disse um dia em abril, “pai, estou com saudades de casa”. Ele disse que estava com saudades do seu quarto em Nova York. Dos vizinhos e mesmo do atendente do mercadinho local. Era a sensação de perda de outra familiaridade, a limitação de ser somente de uma maneira, para uma pessoa que sempre foi de muitas maneiras, sempre teve múltiplas formas de ser, a separação do seu local de infância. E nós tivemos de recordá-lo constantemente, assim como nós recordávamos a nós mesmos. Nós tivemos sorte. Não perdemos o emprego, não nos preocupávamos se conseguiríamos comprar comida, não estávamos doentes, não tínhamos covid-19, não tínhamos perdido ninguém próximo de nós, apesar de termos perdido conhecidos para a doença. Mas como eu disse, nós tivemos sorte, e eu falava para o George: mesmo as pessoas que têm sorte começam a se cansar depois de um tempo. Ele ficou bem por alguns meses e depois, como nós prevíamos, ele cansou de ouvir o que eu falava.

FUTURO

Acima de tudo, espero que seja uma época de verdades, porque a verdade em si foi aniquilada por Trump, por Bolsonaro, por Erdogan, na Turquia, por todos os autocratas que estão dominando o mundo e que tentaram manipular as coisas para dizer que são alternativas. Não existem fatos alternativos, só o que existe é a verdade. Eu contei para vocês a verdade sobre o que nós ganhamos e perdemos na pandemia. Tentei contar para os senhores e senhoras o que eu entendo que as pessoas ganharam e perderam. E eu posso dizer que se a verdade for de fato reconhecida, a verdade nos libertará. A verdade abrirá as portas para a esperança, que é o que nós precisamos e queremos atualmente.