Voltar para Artigos

Contardo Calligaris: A sanha missionária

As ideias que movem o mundo em um único lugar. Cadastre-se e receba mensalmente o melhor do Fronteiras

Cadastrado com sucesso
Luciano Salles/Folhapress
Luciano Salles/Folhapress

Fanatismo. Radicalismo. Messianismo. Missionarismo. A necessidade de mudar (ou de "salvar") o outro tem sido um tema recorrente em nosso site - e não é proposital, garantimos.

Enquanto Amós Oz aponta que "mudar o outro para o seu próprio bem" é a raiz do radicalismo que dizemos querer combater, David Grossman defende que esta autoatribuída missão de tornar o mundo igual a nós é, infelizmente, inerente ao ser humano.

Salvar as pessoas de si mesmas também foi tema da conferência de Tzvetan Todorov no Fronteiras, que analisou o que chama de messianismo em diversas instâncias da vida humana. O messianismo, explicou o filósofo, não é apenas criticar o mundo com o objetivo de melhorá-lo, isso é natural à espécie humana. No messianismo, todos os aspectos da vida do povo estão envolvidos.

A utopia pode até nascer direcionada à vida social, mas logo surgirá o grave pensamento: "para criar uma sociedade nova é preciso criar um homem novo". “Não contente em modificar as instituições, ele pretende transformar o ser humano e, para fazê-lo, não se hesita a recorrer às armas. É o controle integral da sociedade".

O que Todorov chama de "messianismo", surge como "missionarismo" nas palavras de Contardo Calligaris. Em seu mais recente artigo, o psicanalista mergulha no âmago da nossa cultura até encontrar a origem da intolerância atual.

Não deixe de conferir os conteúdos acima indicados (grifados em azul) para compreender a complexidade da questão. E não deixe, é claro, de comentar a sua opinião em nossa página no Facebook.

Siga nossa página para acompanhar as novidades


Contardo Calligaris está confirmado no Fronteiras do Pensamento 2019. Garanta sua presença na conferência com o psicanalista e com os outros grandes nomes que passarão pelo projeto, em Porto Alegre e São Paulo: Graça Machel, Paul Auster, Roger Scruton, Denis Mukwege, Janna Levin, Werner Herzog, Contardo Calligaris e Luc Ferry.

>> Adquira seu pacote para o Fronteiras Porto Alegre
>> Adquira seu pacote para o Fronteiras São Paulo


Contardo Calligaris | A sanha missionária

Em 1960, assistimos em família a um filme tchecoslovaco, em italiano Il Principio Superior, de J. Krejcik. No fim do filme, um professor fala para seus alunos, alguns dos quais, resistentes contra a ocupação nazista, estão sendo fuzilados: "Em nome de um princípio moral superior, o homicídio de um tirano não deve ser considerado como um assassinato". A frase foi o tema de uma conversa de mesa que durou dias e incluiu uma leitura de "Júlio César" de Shakespeare. Qualquer posição, se for argumentada, era aceita e respeitada (naquele caso, eu defendi Bruto).

A única coisa que não era respeitada era a intolerância —pelas opiniões discordantes e por tudo o que fosse diferente da gente. Bastava uma piada sobre judeus, mulheres ao volante, "afeminados", chineses etc. para que baixasse a punição. Nada físico: quase sempre, ler um artigo de Norberto Bobbio e resumi-lo no almoço seguinte (aos 12 ou 13 anos, era dureza).

Justamente, Bobbio se definiu sempre como "um homem da dúvida e do diálogo". Na mesa de casa, a incerteza era a virtude moral, enquanto a certeza era um vício reservado aos loucos, aos cretinos e, naturalmente, aos inimigos.

Enfim, cheguei à idade adulta convencido de que o respeito pela diversidade estava na matriz do espírito moderno, desde seus primórdios cristãos, 20 séculos atrás.

O cristianismo promoveu a ideia de que somos todos filhos de Deus e iguais perante a ele e perante a lei —sejam quais forem as diferenças de credo, língua, etnia, orientação sexual etc. Por isso eu imaginava que o respeito pelas diferenças fosse uma virtude cristã —implícita, aliás, no famoso "ama teu próximo como a ti mesmo".

Pois é, ledo engano. Estou estudando os três primeiros séculos do cristianismo, de Paulo ao Concílio de Niceia. Primeira descoberta: minha visão do cristianismo como uma religião tolerante e precursora do caminho das Luzes era totalmente errada.

Muitos historiadores tentam entender como, em três séculos, o cristianismo primitivo (25 pessoas, em Jerusalém) conquistou a metade do Império Romano. Discute-se sobre os fatores decisivos para essa expansão, mas a tolerância nunca é um deles.

O Deus cristão, como o Deus dos judeus, é exclusivista: "Não terá outro deus fora de mim". Isso era bizarro para os pagãos, acostumados com a coexistência de muitos deuses, inclusive na sua própria devoção.

Agora, à diferença do Deus dos judeus, nunca missionários, o Deus cristão fazia da conversão do próximo uma missão: se Cristo deu a sua vida para nos redimir, como a gente não seguiria seu exemplo? Ou seja, precisamos levar o outro (ou forçá-lo —tudo pela sua salvação, claro) a aceitar Cristo.

O cristianismo nasce e se afirma como uma religião essencialmente missionária —exatamente como o Islã, 600 anos depois. A "guerra santa" de conquista, assim como a vontade de reduzir a escombros o espírito e as terras conquistadas, tudo isso não é mais islâmico do que cristão.

Você se indignou quando os Talibãs ("selvagens") destruíram os Budas de Bamiyan, no Afeganistão, em 2001. Pois bem, você acha que as estátuas gregas e romanas que estão nos nossos museus perderam seu nariz por alguma rinite do mármore? Ou porque o nariz é a coisa mais fácil de quebrar com um martelo (cristão)?

Conclusão, sem a qual não vamos entender os dias de hoje: a intolerância, na cultura ocidental, não é uma exceção nem uma volta às trevas. Ela está desde o começo no âmago de nossa cultura porque é um vício (apenas oculto) propriamente cristão.

(Via Folha)

Garanta sua presença nas conferências do Fronteiras do Pensamento 2019

>> Adquira seu pacote para o Fronteiras Porto Alegre
>> Adquira seu pacote para o Fronteiras São Paulo