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Crítico dos valores contemporâneos da civilização ocidental

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Pascal Bruckner é um filósofo francês, representante da corrente conhecida como “Nouveaux Philosophes" – os “Novos Filósofos". Bruckner nasceu em Paris – onde vive atualmente – em 15 de dezembro de 1948. Passou a infância e a adolescência na Áustria e na Suíça. Estudou em uma escola jesuíta, tendo desenvolvido seus estudos superiores nas Universidades de Paris I e Paris VII (Denis Diderot) e, posteriormente, na École Pratique des Hautes Études de Paris. Após concluir o Doutorado em Letras, desempenhou a docência nas universidades norte-americanas de San Diego e Nova York. Após esse período, também foi maître de conférences no Institut d'Études Politiques de Paris e colaborador na revista Le Nouvel Observateur.

Tendo-se ligado já no início de sua carreira ao grupo conhecido como os “Novos Filósofos" nos anos 1970, Bruckner tem se destacado como romancista e ensaísta por suas críticas ácidas à sociedade francesa e europeia de maneira geral, e mesmo aos valores contemporâneos da civilização ocidental, com temas que vão da religião ao amor e o casamento; do divórcio à prostituição; do multiculturalismo à imposição de uma cultura da felicidade permanente, tema abordado em seu livro A euforia perpétua – Ensaio sobre o dever de felicidade, lançado no Brasil em 2002.

Pascal Bruckner e os “Novos Filósofos"
A corrente de pensamento definida como sendo os “Novos Filósofos" tem esta identificação única, mas trata-se de um grupo extremamente heterogêneo. O termo, em linhas gerais, refere-se ao grupo de cerca de dez intelectuais de uma geração que rompeu com a tradição marxista então vigente no início dos anos 1970, justamente no período imediatamente posterior ao Maio de 1968. O grupo incluía também, além de Pascal Bruckner, André Glucksmann, Bernard-Henri Lévy, Jean-Marie Benoist, 21 Christian Jambet, Guy Lardreau, Claude Gandelman, Jean-Paul Dollé e Gilles Susong.

Entre as críticas desenvolvidas pelos “Novos Filósofos" estão aquelas dirigidas ao pensamento original de Jean-Paul Sartre e também aos filósofos mais contemporâneos, do chamado “pós-estruturalismo", como Jacques Derrida, Jean-François Lyotard, Jacques Lacan, Jean Baudrillard, Michel Foucault, Julia Kristeva, Gilles Deleuze e Judith Butler, entre outros; além de se insurgir contra a filosofia fundadora e anterior de Friedrich Nietzsche e de Martin Heidegger, intensificando ainda mais a crítica aos fundamentos apresentados por Georg Wilhelm Friedrich Hegel e Karl Marx no século XIX.

Segundo os “Novos Filósofos", que tiveram esta alcunha proposta por Bernard-Henri Lévy, em 1976, os “pais fundadores" da filosofia e da sociologia – como Hegel, Marx e Max Weber – teriam criado, em seus escritos, as bases para sistemas extremamente opressores, como o maoismo, corrente contemporânea às críticas e ao qual se seguiram todas as outras formas derivadas dos “marxismos". É importante destacar que os “Novos Filósofos" têm origem em um movimento com formação marxista, contra o qual se insurgiram no pós-1968.

Eles foram e têm sido duramente criticados por intelectuais relevantes no cenário contemporâneo internacional, por sua suposta superficialidade e mesmo ausência de ideologia ou uma ideologia considerada moderada ou mais à direita.

Cobra-se dos “Novos Filósofos" maior comprometimento com as questões sociais desde um prisma como o observado pelos intelectuais tradicionalmente identificados com movimentos de esquerda, dito totalizante, entendido por aqueles como “totalitário". Entre os críticos às posições políticas, ideológicas e intelectuais dos “Novos Filósofos" estão pensadores do quilate de Pierre Bourdieu, Gilles Deleuze, Pierre Vidal-Naquet, Jean-François Lyotard, Alain Badiou, Gayatri Spivak – um dos grandes nomes do multiculturalismo – e Cornelius Castoriadis, entre os que estão em atividade ou já morreram.

Os “Novos Filósofos" chegaram mesmo a ser chamados de “bufões da TV" por Gilles Deleuze, por sua ampla inserção na mídia e por desenvolverem um discurso muitas vezes mais acessível ao grande público, não especialista ou acadêmico. Muitas dessas críticas aproximam os temas tratados como se estivessem no gênero da autoajuda.

Pascal Bruckner em livros
Seu primeiro romance, Lua de fel, de 1981, publicado pela editora Seuil, foi adaptado para o cinema com direção de Roman Polanski e causou sensação quando de seu lançamento, em 1992. Com um elenco internacional em ascensão, com nomes como Peter Coyote, Hugh Grant e Kristin Scott-Thomas, e com premières internacionais, o filme, que levava a trama de Bruckner para a grande tela, falava de redes de intrigas em relacionamentos conjugais e extraconjugais, temas que Bruckner seguiria abordando em escritos posteriores.

Parias, seu romance seguinte, data de 1985 e trata da dificuldade de compreensão entre culturas distintas, passando-se em uma Índia mítica e exótica que se choca com a Índia real.

Les voleurs de beauté – “Ladrões da beleza" –, também um romance, foi publicado em 1997 e recebeu o Prêmio Renaudot do mesmo ano. Trata-se de um romance policial, misto a um conto fantástico, em que o suspense se inicia com a confissão que um interno em um manicômio faz a uma enfermeira.

Le divin enfant – “A criança divina" – é um romance, publicado em 1992. Uma mãe, grávida de gêmeos, começa a ensinar valores morais aos filhos, Louis e Céline, enquanto ainda estão no ventre. Será suficiente para que saibam enfrentar a vida no pós-parto? É possível não nascer?

La tentation de l'innocence – “A tentação da inocência" –, de 1995, recebeu o Prêmio Médicis de Ensaio. Trata-se de um libelo a favor da verdadeira liberdade: a responsabilidade. Bruckner revolta-se com aquilo que ele considera um mundo infantilizado e vitimizado. Diz o autor: “Eu chamo de inocência esta doença do individualismo que consiste em querer escapar às consequências de seus atos, esta tentativa de aproveitar os benefícios da liberdade sem sofrer nenhum de seus inconvenientes".

Le sanglot de l'homme blanc – “As lágrimas do homem branco" –, 1983, é um ensaio sobre o que o autor chama de “terceiro-mundismo" e a incapacidade de diálogo entre o mundo Ocidental e povos já descolonizados que não conseguem encontrar uma história desvinculada da precariedade dessa influência primeira. Subtitulado, na edição francesa “Terceiro mundo, culpabilidade e autodepreciação", é uma obra muito controversa. O autor descreve o que ele vê como um sentimentalismo antiocidental e pró-terceiromundista, em pessoas que assumem uma posição política de esquerda no Ocidente. O ensaio teve influência em uma tendência inteira de pensamento, especialmente em Maurice Dantec e Michel Houellebecq. O título é uma variação do texto de Rudyard Kipling “White man's burden" – “O fardo do homem branco", de 1899.

Em La tyrannie de la pénitence – “A tirania da penitência" –, de 2006, traz a possibilidade do fim do mundo pela proximidade de um meteorito com a Terra. Metáfora sobre a reflexão religiosa, questiona, de fato, o que o autor considera o “fim da autocrítica" no Ocidente.

Em A euforia perpétua, publicado em 2000, o autor critica a “nova droga ocidental: a felicidade". Segundo ele, a ideologia da felicidade, com saúde perfeita e sem dor, esconde outros valores fundamentais, como a liberdade e a fraternidade.

Atuação na esfera pública
De 1992 a 1999, ele foi um defensor ativo das causas da Croácia, da Bósnia e do Kosovo contra a Sérvia, chegando, inclusive, a defender os bombardeios da Otan em 1999. Em 2003, Pascal Bruckner apoiou a perseguição e a prisão de Saddam Hussein pelos Estados Unidos, lamentando e criticando posteriormente a atuação das Forças Armadas norte-americanas e o uso da tortura nas prisões de Abu Ghraib e em Guantánamo.

Uma das polêmicas mais recentes de que Pascal Bruckner participou diz respeito à sua posição contrária ao multiculturalismo. No artigo “Fundamentalismo iluminista ou racismo dos antirracistas?" ele defende em particular a somali Ayaan Hirsi Ali através da crítica a outros artigos de Ian Buruma e de Timothy Garton Ash. De acordo com Bruckner, os filósofos modernos de Heidegger a Gadamer, Derrida, Horkheimer e Adorno fizeram um amplo ataque ao Iluminismo, clamando que “todos os males de nossa época foram criados por esse episódio filosófico e literário: capitalismo, colonialismo, totalitarismo". Bruckner concorda que a história do século XX atesta o fanatismo da modernidade, mas argumenta que o pensamento moderno editado desde o Iluminismo provou ser capaz de criticar seus próprios erros.

Mais recentemente, em outro episódio controverso com a imprensa, Pascal Bruckner tomou partido na questão envolvendo a lei francesa, aprovada no início deste ano, que criminaliza a prostituição. Bruckner saiu em defesa da profissão, que para ele, desempenha um serviço público, e, comparando o atraso da França, em sua opinião, em relação à Holanda, por exemplo, em que os profissionais do sexo não apenas pagam impostos pelos seus ganhos (como na França), mas usufruem dos benefícios autorizados pelos mesmos impostos.

Em temas muito polêmicos ou menos controversos, Pascal Bruckner com certeza virá ao Brasil com o desafio de manter a discussão acesa: seja ela sobre o amor, a beleza, o apocalipse ou o Outro.