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Depressão e solidão: uma luz por Andrew Solomon

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Crédito da imagem: Stefano Pollio / Unsplash
Crédito da imagem: Stefano Pollio / Unsplash

“Nus e sozinhos entramos no exílio”, escreveu o romancista estadunidense Thomas Wolfe em seu livro Look Homeward, Angel, de 1929. “No útero escuro, não conhecíamos o rosto de nossa mãe; da prisão de sua carne, viemos à prisão indizível e incomunicável desta terra[...] Quem de nós não é para sempre solitário, um desconhecido?”

Um estudo publicado pela instituição de caridade Relate, dedicada a questões de relacionamento, sugere que Wolfe tinha lá sua razão. Uma em cada dez pessoas no Reino Unido afirmou não ter nenhum amigo, e uma em cada cinco relatou não ter se sentido amada na quinzena anterior à pesquisa.

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Pessoas que têm amigos costumam levar suas vidas sem tomarem conhecimento de que essa não é uma regra universal, porque aqueles que não os têm vivem isolados e acabam se tornando socialmente invisíveis. Como escrevi sobre depressão, algumas dessas pessoas me procuraram para receber conselhos, descrevendo seu desconsolo geral e a realidade ainda mais desconsoladora de seu sofrimento na falta do amparo do amor. “Eu era extremamente infeliz e não sentia que pudesse dizer isso a alguém”, contou-me uma mulher chamada Claudia Weaver. “Eu evitava o mundo.”

Em uma era na qual o Facebook transformou “amigo” em um número entre parênteses, é comum confundirmos a intimidade do âmbito virtual com a intimidade autêntica de compartilharmos os desafios de nossas vidas com pessoas que se importam – e ficarão tristes quando estivermos triste, felizes quando estivermos alegres, preocupadas se não estivermos bem, ou irão nos consolar em momentos de desespero. Mesmo em cidades apinhadas de gente ou em festas barulhentas, sentimos que estamos trancafiados em uma cela.


O professor Simon Wessely, novo presidente do Royal College of Psychiatrists [Faculdade Real de Psiquiatria], apontou que apenas um terço das pessoas com enfermidades mentais no Reino Unido recebe algum tipo de tratamento, sugerindo que o número de pessoas com tratamento apropriado deve ser muito menor. Existe um argumento segundo o qual tratar pessoas com enfermidades mentais é caro, e no atual cenário econômico não é possível investir recursos nesse tipo de tratamento. 

No entanto, privar os deprimidos de tratamento acaba tendo um custo ainda maior: pessoas disfuncionais acabam recorrendo ao seguro-desemprego; pais e mães podem não ser capazes de cuidar bem de seus filhos; homens e mulheres deprimidos demais para cuidar de sua saúde física podem desenvolver condições graves, que custam caro para o sistema público de saúde. Essa negligência jamais seria tolerada se estivéssemos falando de alguma doença física.

A depressão é uma doença solitária. Muitas pessoas deprimidas sem tratamento acabam não tendo amigos porque carecem da vitalidade que uma amizade requer. Assim, as vítimas acabam enclausuradas em uma cápsula impenetrável, onde é difícil para elas escutar ou proferir palavras reconfortantes. 

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O sucesso mundano não tem muita capacidade para amenizar essa angústia, como deixa claro o suicídio de Robin Williams, ocorrido esta semana. O amor, seja dado ou recebido, ajuda – não porque alivie os sintomas da depressão (não alivia), mas porque prova às pessoas que a vida pode valer a pena, contanto que elas melhorem. Ele propicia um espaço para admitir a doença, e admiti-la é o primeiro passo para solucioná-la.

Seria arrogante da parte das pessoas com amigos sentir pena das que não têm. Alguns indivíduos sem amigos podem ser próximos de seus pais ou filhos, ao invés de nutrirem amizades fora das famílias, ou quem sabe estejam mais interessadas em coisas ou ideias do que em outras pessoas. 

A pesquisa da Relate sugere que as pessoas casadas são, em média, mais feliz que as não casadas, mas o casamento não funciona para todos. É improvável que a criação de um sistema social que induza relacionamentos e amizades indesejados (como por vezes tentaram fazer os vitorianos, em nome da boa camaradagem; ou os soviéticos, em nome do comunismo) resolva nossa crescente crise de depressão. Insistir na ideia de que pessoas que não querem companhia seriam mais felizes se fossem menos solitárias não é uma boa forma de intervir.

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Muitas pessoas, contudo, buscam desesperadamente por amor sem saber o que fazer para encontrá-lo por estarem incapacitadas, tragadas para uma vida solitária pela maré da depressão. 

Não é possível consertar a solidão com medicamentos, embora os comprimidos possam trazer a estabilidade de que uma pessoa precisa para se abrir aos compromissos da amizade: possível rejeição, exigências exaustivas e necessidade de sacrifício.

Para alguns, a amizade se tornou uma língua tão obscura quanto o sânscrito. A falta de fluência emocional pode causar depressão; pode exacerbá-la; pode pairar feito uma sombra sobre o processo de recuperação. Mas sempre há formas de ajudar as pessoas que desejam fazer amigos a aprender a linguagem do afeto. Pais e escolas podem ensinar formas produtivas de relacionamento para as crianças.

Literatura, filmes, poesia, música e arte podem mostrar como é ter laços. Para aqueles que já ultrapassaram o ponto em que esse tipo de modelo seria eficaz, a psicoterapia pode ajudar a traduzir os métodos da língua intimidante e desvanecida da amizade. 

Perdi a conta de quantas vezes testemunhei a perplexidade daqueles que viam relações sociais sendo construídas – um processo que, muitas vezes, começa com um terapeuta. Muitos de nós somos mais solitários do que precisamos ser; vivemos em um exílio sem propósito. 

A amizade é um impulso escondido no âmago de nosso ser, mas também é uma habilidade, e habilidades podem ser aprendidas e ensinadas.

(Via The Guardian)

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