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Direitos humanos e a ditadura da percepção

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Catherine Millet no Fronteiras do Pensamento São Paulo 2018
Catherine Millet no Fronteiras do Pensamento São Paulo 2018

Como a justiça tem lidado com casos em que o crime não está descrito na lei, quando a violência é uma percepção da vítima? Como a legislação deve ser aplicada nestes casos? Será que isso abre margem para o que Catherine Millet chama de “ditadura da percepção”, uma sociedade em que as pessoas condenam réus a partir da opinião pública?

Catherine Millet esteve no Fronteiras do Pensamento 2018 no mês de julho. A escritora, conhecida por seu best-seller A Vida Sexual de Catherine M., foi coautora do Manifesto das Mulheres Francesas, criado em oposição ao movimento #MeToo.

Para Millet, estes movimentos ativistas podem ser um risco para a democracia, já que algumas subjetividades identitárias têm pautado cada vez mais o comportamento geral: “não estamos mais em uma situação de Direito, que garante boas relações em uma sociedade impondo as mesmas leis a todos os indivíduos, mas em uma situação inversa, em que, a partir do que é percebido por alguns indivíduos, deseja-se regulamentar o comportamento de todos”.

Millet defende que é preciso muita cautela para julgar a partir da percepção das vítimas e aponta um caso real para ilustrar seu argumento. Leia e assista abaixo a fala da conferencista.

CATHERINE MILLET | Direitos humanos e a ditadura da percepção

Eu gostaria de falar mais sobre essa noção de impacto psicológico, pois, para mim, ela impõe o que eu chamaria de “ditadura da percepção”. Essa palavra “ressenti”, não sei como minha excelente intérprete a traduziu, é amplamente utilizada na França atualmente.

Todos e todas gostariam que regulamentássemos a sociedade em função de sua percepção subjetiva das coisas. De certo modo, os fatos objetivos são apagados pela prioridade dada à percepção daquelas que, no caso da campanha #MeToo, por exemplo, se dizem vítimas. E para retomar o argumento de Elisabeth Badinter, essa percepção é muito difícil de ser analisada do ponto de vista do Direito.

Eu vou dar um exemplo tragicômico. Diferentes veículos da imprensa, dentre os quais o Newsweek, um jornal importante, publicaram o depoimento de uma mulher que acusava Elie Weisel, trinta anos após os fatos. O que significa que Elie Wiesel já estava morto quando ela fez a acusação, ou seja, não denunciamos apenas os vivos, denunciamos também os mortos. Ela conta, então, que, trinta anos atrás, ele estava ao seu lado em uma cerimônia oficial e que Elie Wiesel teria colocado a mão sobre seu ombro e deixado escorregar a mão pelas suas costas até a sua bunda. E essa mulher contou que isso havia provocado nela um trauma vivenciado ao longo de muitos anos, que teria desnaturalizado suas relações com homens e a teria conduzido a uma depressão suicida.

Bem, eu vou admitir que uma jovem mulher especialmente ingênua e pudica possa ter tal reação, mas então, em contrapartida, eu peço que se aceite que muitas outras pessoas, inclusive eu, e sem dúvida outras jovens mulheres, acham essa história completamente ridícula. É a percepção delas e a minha percepção também. Era mesmo necessário que jornais dessem importância a esse depoimento? Eu não tenho tanta certeza.

É claro que eu escolhi compartilhar, ou talvez de lembrá-los se vocês já tinham ouvido falar disso, um exemplo extremo no limite do absurdo, mas muitas vezes é a partir de exemplos quase caricatos que alguns gostariam de, no melhor dos casos, endurecer as leis sobre o abuso sexual e, no pior dos casos, passar por cima da justiça que eles estimam ser ineficiente quando se trata desse tipo de problema. Escolhem então fazer justiça com as próprias mãos, utilizando as redes sociais e a imprensa.

Destaco novamente, frequentemente nessas questões a imprensa pega carona no que se diz nas redes sociais, o que hoje em dia constitui um grave problema no que diz respeito à democracia. Infelizmente, sem se passar pela justiça, os hábitos se transformam e se instalam sob efeito de intimidações deste movimento iniciado nas redes sociais e replicado pela imprensa. Para não magoar uma ou outra suscetibilidade, um dia são as mulheres, ou podem ser minorias étnicas, é claro, ou pessoas com deficiência etc., censuramos e nos autocensuramos cada vez mais.

Conclusão: não estamos mais em uma situação de Direito, que garante boas relações em uma sociedade impondo as mesmas leis a todos os indivíduos, mas em uma situação inversa, em que, a partir do que é percebido por alguns indivíduos, deseja-se regulamentar o comportamento de todos.

Nós pudemos ver isso quando nosso editorial foi publicado. Falava-se muito da liberdade de opinião das mulheres. Nós também tínhamos uma opinião, mas era uma opinião diferente, que dizia algo diferente do #MeToo, e nos pediram para ficarmos caladas. Nós não tivemos o direito de dizer, de um jeito ou de outro, #NotMe.

A minha convicção é de que existe certamente o mesmo número de mulheres do nosso lado, ou talvez até mais, que concordam com as nossas críticas relacionadas ao movimento #MeToo e à campanha de acusações aleatórias de violências masculinas, porém elas simplesmente não estão superexpostas na mídia.

Assista à fala de Catherine Millet no Fronteiras do Pensamento.
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catherine millet

Clique aqui para baixar gratuitamente o PDF do libreto sobre Catherine Millet. O libreto inclui biografia, links indicados e informações de destaque sobre a conferencista.

Conferencista do Fronteiras 2018, Catherine Millet é autora de A Vida Sexual de Catherine M., o “livro mais explícito sobre sexo jamais escrito por uma mulher”, segundo o crítico americano Edmund White. Crítica de arte respeitada na França e na Europa, é fundadora e diretora da Art Press, publicação criada em 1972, uma das grandes referências editoriais no cenário artístico francês e internacional.