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Entre Ocidente e Oriente, mora o romance de Orhan Pamuk

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A oposição entre Ocidente e Oriente tem diferentes sentidos ao longo da História. A Idade Moderna tem início com a tomada de Constantinopla, em 1453, pelos turcos otomanos. Desde então, até a independência turca, pouco após a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), a passagem para o Oriente era realizada por território turco. Próximos, também estavam os mundos fenício, judaico, egípcio, babilônico, persa, indiano e chinês, que animaram a imaginação europeia por muitos séculos, produzindo diferentes imagens e estereótipos do Oriente. O Oriente servia, nestes casos, como um contraponto cultural diante da hegemonia do cristianismo e da cultura grega, e oferecia uma imagem muito tentadora para a cultura europeia. Esta inspiração surgiu muito forte na literatura, nas artes visuais, na música, na arquitetura e na filosofia do Ocidente, fenômeno conhecido como “orientalismo", com apogeu no século XVIII; pensadores iluministas franceses, como Voltaire e Montesquieu, serviam-se de
imagens da sabedoria oriental para criticar a tradição cristã europeia.

Em 1978, Edward Said, intelectual palestino e professor na Universidade de Columbia (EUA) publicou o livro Orientalismo, no qual denuncia esta atitude como uma expressão do imperialismo europeu dos séculos XVIII e XIX, com consequências nos séculos XX e XXI. Para Said, estas visões do Oriente foram feitas de preconceitos e equívocos, e ajudaram a depreciar o Oriente e a ampliar as distâncias.

Depois que as torres gêmeas do World Trade Center foram destruídas em atentado terrorista de fundamentalistas islâmicos, em 11 de setembro de 2001, voltou-se a discutir as relações entre Ocidente e Oriente, falou-se muito no “choque de civilizações".

O presidente dos Estados Unidos em 2001, George W. Bush, chegou a falar em uma nova cruzada – invasão do oriente por cristãos – e, em resposta à derrubada das duas torres, terminou por invadir o Iraque e o Afeganistão, provocando uma nova crise entre cristãos e muçulmanos.O escritor Orhan Pamuk é uma das vozes a denunciar diferenças e mesmo contrariedades entre os povos orientais. Mesclando realidade e fantasia, amor e mistério a reflexões filosóficas, Pamuk recria sua cidade natal – Istambul – desde o final da Idade Média até os dias de hoje. Autor de livros como Neve e Meu nome é vermelho, quando agraciado pelo Nobel, esse escritor, que reconstroi em sua obra encontros e desencontros entre os mundos oriental e ocidental, recebeu a seguinte avaliação da Academia Sueca, outorgante do prêmio: “Em busca da alma melancólica da sua cidade natal, Pamuk encontrou novos símbolos para retratar o choque e o cruzamento de culturas".

Paradoxalmente, chegou a ser processado por fazer a defesa dos povos curdos, minoria muçulmana massacrada ao longo da História em seu país. O engajamento literário e político de Pamuk demonstra como muitas vezes a tentativa de compreensão desse outro, do oriental ou do ocidental, pode ser difícil e cheia de percalços.

Entre Oriente e Ocidente, há milênios, as relações são muito complexas, de identidade, alteridade, conhecimento, preconceito, admiração, desprezo, convívio e guerra, as quais dizem respeito não apenas à vida cultural, mas se refletem em atitudes violentas, como atentados e guerras. Eis, portanto, um desafio: para compreender o Oriente, compreender o que o Ocidente imaginou e o que fizemos com esta imagem, para então restabelecer os termos de uma relação cultural que pode enriquecer a ambos.

No Fronteiras do Pensamento, Orhan Pamuk falou sobre os romances, obras que investigam as questões centrais da vida e que transcendem os sentidos nacionais e identitários: “Somos mais do que passado e tradição, somos cidadãos livres do mundo. Não deveríamos ser escravos da nossa história, da nossa identidade, mas sim seguirmos nossa imaginação." No vídeo, Orhan Pamuk reflete sobre as noções de identidade e conclui: uma vez que tomamos consciência da nossa identidade, perdemos nossa autenticidade.