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Como as fronteiras lhe constroem [os 05 filmes que formaram Wim Wenders]

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Wim Wenders durante as filmagens do documentário Pina (2011).
Wim Wenders durante as filmagens do documentário Pina (2011).

O cinema está morto. Vida longa ao cinema. Foi com este forte título que o Fronteiras do Pensamento apresentou sua primeira conferência sobre a sétima arte. Em 2007, o polêmico tema foi levantado pelo britânico Peter Greenaway, que clamou por inovação e criatividade no cinema contemporâneo, argumentando que a grande tela estaria, hoje, escrava da narrativa, esquecendo-se do seu compromisso primordial, com a imagem.

Já no ano seguinte, o Fronteiras do Pensamento trouxe ao público cineastas como os brasileiros José Padilha e Beto Brant, além de nomes que iluminaram a plateia com uma visão profunda e simbólica sobre a arte, como foi o caso de David Lynch e Wim Wenders.

Hoje, focaremos em Wim Wenders, que contará os cinco filmes que formaram sua visão de mundo e provocará uma importante reflexão. Ao desconstruir a ideia de "fronteira", Wenders lhe mostrará como a limitação do olhar nem sempre reduz seu conhecimento sobre o mundo; pelo contrário, as fronteiras podem lhe abrir para um sentido de lugar, de pertencimento e até mesmo de reconhecimento reverente à diferença.

O sentido de lugar surgirá de duas maneiras: você pode estar explorando o seu próprio local, como fizeram Fellini, Ozu e Glauber Rocha, ou você pode estar se aventurando em um novo espaço, com o olhar da descoberta, como o conterrâneo de Wenders, o alemão Werner Herzog.

Não importa qual a sua posição atual. Wim Wenders lhe relembrará a beleza de algo esquecido na arte fadada ao chroma key e no mundo da informação globalizada: você não forma o lugar; ele lhe forma. Conhecer os diferentes lugares é compreender aquilo que lhe constitui e aquilo que não lhe constitui. Conhecer as fronteiras é um exercício de compreensão do mundo.

Siga nossa página para acompanhar esta discussão:


“Vários lugares do planeta começam a se parecer cada vez mais uns com os outros; de alguma forma, estão se tornando a mesma coisa. A menos que nós os mantenhamos diferentes. E nosso sentido de lugar é que nos permitirá fazer isso." - Wim Wenders

Wim Wenders durante gravação de "O sal da terra" (2015)


Confira abaixo a fala exclusiva de Wim Wenders ao Fronteiras do Pensamento.

Wim Wenders | Como as fronteiras lhe constroem

Meu nome é Wim Wenders. Nasci na Alemanha, pouco tempo depois de terminada a Segunda Guerra Mundial. Cresci num país devastado e bastante triste. Os alemães acumulavam pilhas de vergonha e culpa sobre seus ombros. Então, desde que me entendo por gente, queria deixar meu país para trás.

Tornei-me um viajante. Esse foi o meu primeiro "chamado", minha profissão principal. Sou também cineasta, escritor e fotógrafo, mas somente como viajante, quando vim a conhecer muitos lugares pelo mundo (atravessando muitas fronteiras), fiquei em paz com minha alma alemã e me reconciliei com o passado do meu país.

Às vezes, temos de ir para bem longe para poder descobrir, e aceitar, aquilo que está mais próximo de nós. Não sou intelectual, nem filósofo. Tudo o que sei, aprendi fazendo, mais do que estudando. Aprendi observando e escutando e, claro, também com as viagens.

Não gostaria que ficassem tentando acompanhar um discurso; preferiria que se sentissem convidados a pensar junto comigo. Quero conversar e pensar com vocês sobre "cinema" e "fronteiras", o que, evidentemente, abre um milhão de diferentes possibilidades. Mas, hoje, só posso levá-los por um caminho, não teremos tempo para explorar os outros. Mais precisamente, é a noção de "cinema além-fronteiras" que tentaremos explorar juntos hoje.

O cinema contemporâneo não parece se preocupar muito com a questão das fronteiras. Quando cheguei a São Paulo no outro dia, chequei a programação de cinema. Não era muito diferente do que outras cidades ofereciam ou do que tenho visto nas últimas semanas em Los Angeles, Tóquio, Seul ou Berlim.

Estamos então falando de "cinema mundial". Contudo, existem dois tipos de cinema mundial. Um que é distribuído mundialmente quase ao mesmo tempo e de maneira muito poderosa, e outro tipo, bastante diferente, mais frágil, que está sendo feito hoje mundo afora, mas não necessariamente viaja tão bem pelos países.

Com certeza já assisti aos filmes do meu amigo Walter Salles na Europa, da mesma forma que ele pode assistir aos meus no Brasil. Se olharem com atenção, vão nos ver, e a muitos outros. Mas, nem sempre é tão fácil. É preciso procurar. Não quero começar reclamando nem batendo no cinema americano — isso seria perda de tempo. E, na verdade, gosto de muitos filmes americanos. Para mim, não é isso que está oculto por trás do termo "cinema além-fronteiras".

Os filmes são, há bastante tempo, um produto internacional, precursor da globalização. De qualquer forma, todos estamos acostumados a tudo que é internacional e, portanto, sem fronteiras.

Quando cheguei ao Brasil, vi um cartaz que dizia: "Viver sem fronteiras!" Então, na verdade, "fronteira" se tornou uma noção negativa. Onde existe fronteira, há luta, há guerra. Fronteiras significam limitação da liberdade. Supressão. Muros. Cercas... A queda do Muro de Berlim foi uma espécie de manifestação internacional contra muros e fronteiras em geral.

Mas, de alguma maneira, sigo em direção oposta a essa corrente em meu pensamento hoje. Meu convite aos que estão discutindo as fronteiras do pensamento é para que as analisem de uma perspectiva diferente e mais amigável; pensem os limites e as fronteiras como algo positivo.

Vamos considerar por um instante o "cinema dentro das fronteiras", por assim dizer. Talvez, eu consiga provar no final desse processo de pensar juntos que esse tipo de cinema é o que de fato transcende as fronteiras e verdadeiramente vai além.

Ainda não tinha viajado pelo mundo, estava na escola secundária, morando em Oberhausen, uma pequena cidade industrial na Alemanha, quando aconteceu um festival de filmes documentários. Teria de matar aula para ir ao festival por três dias, o que obviamente fiz, mas correndo grandes riscos. Lá pude assistir, num dia, meu primeiro filme cubano, Memórias do subdesenvolvimento1, de Tomás Gutiérrez Alea. Noutro dia foi a vez de La hora de los hornos2, do argentino Fernando Solanas.

Aqueles dias mudaram a minha vida. Até então, eu não sabia nada sobre a América Central ou do Sul; mal conseguia indicar onde ficavam no mapa-múndi. E um pouco mais tarde, acho que no mesmo tributo à América Latina, vi o incrível O dragão da maldade contra o santo guerreiro3, de Glauber Rocha.

Depois, descobri seu Terra em transe4, que ficaria profundamente gravado em meu cérebro e finalmente colocaria o Brasil no meu mapa mental. Depois de assistir a esse filme, soube, como numa revelação, que eu queria, não, eu precisava ir lá! Até então, o Brasil era para mim uma espécie de lugar metafórico. Quando garoto, queria ser arquiteto e era um fã ardoroso de Oscar Niemeyer. Nas paredes do meu quarto, pregava todas as imagens e todos os documentos que encontrava sobre a fantástica cidade de Brasília, que Niemeyer ia construir no meio da selva. Então, o Brasil para mim não era um país de verdade, mas uma espécie de invenção, um estado mental alterado.

O mesmo tipo de revelação iria acontecer algumas outras vezes em minha vida. Quando assisti a Era uma vez em Tóquio5, de Yasujiro Ozu, compreendi que existia um paraíso perdido para a cinematografia e eu precisava procurá-lo no Japão. Houve também, mais cedo, aquela sensação de movie-going, quando vi os faroestes de John Ford e Anthony Mann e descobri, ainda garoto, por mim mesmo, o mítico país chamado "América", que teria enorme influência na minha vida.

Os filmes foram as primeiras mensagens que recebi desses territórios desconhecidos. Mas esses não eram típicos world blockbusters com que se defrontam garotos e jovens hoje em dia. Aqueles filmes foram verdadeiros mensageiros. Aquele cinema que me fez desejar ir conhecer lugares remotos e distantes havia sido criado no interior de suas fronteiras.

Aqueles filmes eram caracterizados por um forte "sentido de lugar". Eram conduzidos por uma história local, surgindo da cultura local e de sua própria linguagem, muitas vezes falada com um sotaque bastante peculiar. Eles exploravam as "cores locais", pertenciam necessariamente a uma paisagem, ou cidade, ou país, e eram específicos desses lugares! Sim, mesmo os faroestes americanos!

Esses foram os filmes que fizeram a minha cabeça quando comecei a gostar de cinema. Aquele "sentido de lugar" foi viciante!

Na minha própria filmografia e na minha avaliação de outros filmes, aquele "sentido de lugar" iria se tornar, ao longo dos anos, meu principal norteador, intimamente conectado à noção de "fronteiras".

Na verdade, posso hoje dizer que já não tenho tanto interesse por histórias ou filmes que poderiam acontecer em qualquer lugar, que não sejam impulsionados e definidos por suas próprias fronteiras.

Quando assisto a um filme que me faz pensar: "Isso poderia ter acontecido da mesma forma em qualquer outro lugar" ou "Essa história não precisa necessariamente ter acontecido no Brasil, na Itália ou em qualquer outro país", perco o interesse.

Muitos filmes do cinema contemporâneo são feitos em verdadeiras terras de ninguém, diante de uma tela azul. Os atores não vão a parte alguma e jamais conhecem alguém. Esse tipo de produto internacional, anônimo, me aborrece completamente. Tenho uma expectativa de que o cinema possa me contar e me mostrar como as pessoas vivem num determinado lugar. Quero conhecer histórias que surgem da experiência.

Tive de descobrir isso por mim mesmo aos poucos. Meus primeiros filmes ainda não tinham aquele sentido de lugar. Como um jovem e estreante cineasta, estava preocupado com todo tipo de coisas, impressionado com as ferramentas – câmeras, dolly-tracks gruas, som – com os atores e, sim, com aquele estranho poder que se passa a ter como diretor.

Mas, tudo isso acabou de maneira abrupta com meu terceiro filme: A letra escarlate, baseado em um romance lindo e muito americano escrito por Nathaniel Hawthorne, no qual ele descreve os Estados Unidos do século XVII.

O filme estava previsto originalmente para ser rodado na Nova Inglaterra, no lugar ao qual pertencia e para o qual tinha sido escrito: Salem, Massachusetts. Perdemos metade do nosso financiamento na fase de pré-produção, de forma que ficou praticamente impossível filmá-lo. Mas, o futuro da nossa companhia dependia de eu conseguir terminá-lo. (Essa companhia pertencia a 15 escritores e diretores que haviam criado uma empresa de fundo mútuo.)

Quando finalmente comecei o filme com o que havia sobrado do pequeno orçamento, tive de rodar em várias locações na Espanha, todos os puritanos foram interpretados por católicos protestantes e meu índio americano era um toureiro aposentado.

Mesmo assim, poderia ter funcionado. Atores podem superar muitas deficiências. O que não deu certo foi que tivemos de rodar o filme numa pequena cidade de faroeste, próxima a Madri, que tinha servido de locação para os chamados faroeste-espaguete, que muita gente achava que tinham sido realizados na Itália. Mas eu sabia bem que aqueles filmes, na verdade, tinham sido feitos na Espanha.

Rodar uma história que tinha a ver com a costa leste dos Estados Unidos numa cidade de faroeste no meio da Espanha foi o que acabou com a gente.

A história não resistiu ao ser transplantada para outro lugar; ela se despedaçou. E eu, como diretor, também fiquei despedaçado; não tinha nem mais certeza se ainda iria fazer outro filme.

Pensei: só vou continuar a fazer isso se puder provar a mim mesmo que posso fazer um filme que ninguém mais poderia fazer ou faria, que seja como a minha caligrafia, que só pertença a mim e não deva nada a ninguém... E vai ter de acontecer exatamente no lugar onde precisa acontecer!

Esse filme, que seria o meu quarto, foi Alice nas cidades. Um homem perdido nos espaços infinitos da América precisava ir para casa para se reencontrar e acabou na cidadezinha onde eu tinha crescido e onde tinha descoberto o cinema mundial: Oberhausen...

Wim Wenders, Alice nas Cidades (1974)


Desse momento em diante tive certeza: seria cineasta conquanto pudesse continuar fazendo filmes com base em duas coisas: na experiência e no sentido de lugar.

Viajar, viver com o pé na estrada, tornou-se a principal experiência com que podia contar e filmei em muitos lugares ao redor do mundo, mas sempre tentando ser verdadeiro com cada lugar, deixando o lugar contar sua própria história, que não poderia acontecer em nenhum outro lugar.

O sentido de lugar pode ter duas expressões diferentes. Para os que ficam em casa, pode ser um sentido de pertencimento. Existem cineastas que só exploraram seus próprios lugares, como Fellini, Ozu e muitos outros.

Há os que viajam e exploram países estrangeiros onde o sentido de lugar se confunde com o sentido da descoberta. Como cineasta, eu me encaixo mais na segunda categoria, mas, nos dois casos, o sentido de lugar é fundamental.

E o que é isso exatamente? É a convicção de que os lugares têm suas próprias histórias para contar. É verdade, acredito que podemos ouvir os lugares. Quem acha que não consegue, no mínimo pode aprender, pode desenvolver o respeito pela autonomia dos lugares, porque, no fim, não somos nós que formamos nosso mundo e nossos lugares, eles é que nos formam.

Lugares onde passamos nossas vidas. Lugares que visitamos em algum momento. Lugares que descobrimos por acaso. Lugares que nos atraíram por seu nome num mapa. Lugares que jamais voltaremos a ver novamente. Lugares de que nunca poderemos esquecer. Lugares para onde ansiamos retornar. Lugares que nos assustam. Lugares que nos reconfortam. Lugares onde nos sentimos em casa. Lugares que achamos repulsivos. Lugares que nos enchem de admiração. Lugares com os quais sonhamos antes de conhecê-los. Lugares em que nos perdemos e lugares que perdemos. Lugares que nos condicionam. Lugares que nos protegem. Lugares que nos destroem.

Por mais metafóricos que possam parecer, lugares são sempre reais. Você pode passear por eles ou deitar-se no chão. Pode levar uma pedra ou um punhado de areia. Mas não dá para levar o lugar com você.

Não se pode nunca possuir de fato um lugar. Nem a câmera pode. Quando tiramos uma foto, estamos apenas pegando emprestada por um instante a aparência do lugar, sua pele, sua superfície.

Alguns dos lugares que fotografei ou filmei estão a ponto de desaparecer ou podem já ter sido varridos da face da terra. Vão sobreviver apenas nas fotografias ou nos filmes. A memória desses lugares estará atrelada às imagens que temos deles. Já outros sobreviverão a nós, ou mais, sobreviverão a qualquer rastro de nossa existência.

Daqui a milhões de anos, quando ninguém mais estiver por aqui, ninguém que tenha a mais pálida semelhança conosco, alguns desses lugares ainda existirão.

Os lugares têm memória. Eles se lembram de tudo. Tudo está entalhado na pedra. Mais profundamente do que as águas mais profundas. As memórias dos lugares são como dunas de areia que se movem de um lado para outro. Acho que é por isto que tenho o mais profundo respeito pelos lugares e dou tanto valor a eles.

Na verdade, na maior parte das vezes, os lugares estão entre os protagonistas principais de meus filmes, muitos dos quais começaram com o desejo de explorar uma determinada cidade, uma paisagem, um deserto, uma cultura local. Poderia examiná-los todos, se houvesse tempo, mas vou mencionar apenas alguns exemplos.

Quando retornei a Berlim, depois de sete anos na América, tive uma vontade enorme de fazer um filme sobre a cidade. Finalmente! Através de Berlim, eu tentaria descobrir, redescobrir meu país natal.

Mas não conseguia encontrar uma história que desse conta de compreender a cidade, ou que pudesse, ao menos, narrar a sua história. Não conseguia encontrar personagens que me permitissem realmente mostrar a cidade e sua história em toda sua complexidade, verticalmente, através dos tempos. Pensava em bombeiros, médicos, carteiros, mas todas essas ideias pareciam inúteis, não me ofereciam o que eu precisava.

Então, perambulando pelas ruas em busca de uma história ou de possíveis personagens, a cidade os sugeriu para mim. Enquanto vagava, meu olhar cruzou com figuras de anjos flutuando em toda parte. Como monumentos, decorações arquitetônicas, nomes de ruas. Estavam presentes em toda parte. Então, aceitei aquela dica. Berlim fato me sugeriu os protagonistas: anjos da guarda.

Assim, filmei Asas do desejo. Sem roteiro, apenas com um conhecimento íntimo dos lugares onde queria rodá-lo. "A cidade" realmente evocou o filme.

No caso de Sob o céu de Lisboa, o título fala por si. O filme nasceu a partir de uma paisagem sonora – uma soundscape – singular, a partir de sua música peculiar, o fado, interpretado pelo Madredeus [ouça a trilha do filme abaixo].


Em Paris, Texas, de novo o nome do lugar define o verdadeiro conflito que sofre o herói. Esse filme também escreveu a si mesmo (mesmo que tivéssemos um escritor envolvido, Sam Shepard) a partir da grande afinidade com a paisagem do oeste americano. Foi só depois que Sam e eu visualizamos o lado ocidental do Texas e o deserto de Big Bend, que faz a fronteira dos Estados Unidos com o México, que chegamos à caracterização de Travis.

Buena Vista Social Club é sobre Havana e a música que nasceu e sobreviveu somente naquele lugar... Nem preciso dizer como esse lugar deixou sua marca nessa aventura.

Até o fim do mundo teve início no encontro com os aborígenes australianos e sua cultura. Seu dreamtime tornou-se o meu argumento na narrativa e o filme termina no deserto australiano, o lugar dos aborígenes. Eles foram meus verdadeiros heróis no que diz respeito ao "sentido de lugar".

De acordo com suas convicções, crenças e religiões, pedras, lagos, poços, montanhas são entidades míticas, remanescentes dos grandes deuses que um dia perambularam pela Terra. Eles precisam conservar o conhecimento daquele trecho de terra pelo qual são responsáveis e passá-lo adiante, através dos "cânticos".

Tornam-se responsáveis por esse conhecimento com suas vidas. Se pararem de cantar, seu país, sua terra desaparece e eles morrem junto com ela. Aquelas pessoas não podiam sequer conceber a ideia de possuir "a terra". É, ao contrário, a terra que os possui.

Essa é a atitude que todos esquecemos e que precisamos reaprender: estabelecer uma relação diferente com nossa terra, com nosso território, com nossas fronteiras.

Nosso "sentido de lugar" é apenas um de nossos sentidos, como cheirar, tocar, escutar etc, mas é o primeiro que estamos prestes e perder nos tempos da globalização. Vários lugares do planeta começam a se parecer cada vez mais uns com os outros; de alguma forma, estão se tornando a mesma coisa. A menos que nós os mantenhamos diferentes. E nosso sentido de lugar é que nos permitirá fazer isso.

As pessoas viajam para países estrangeiros, experimentam a comida, bebem a cerveja, visitam as atrações, dirigem por roteiros previamente traçados, indo aos lugares que têm de ser vistos, tiram fotos onde devem tirá-las, para depois ficar olhando para elas quando chegarem em casa, para acreditarem que de fato estiveram lá.

Essa é a diferença entre um turista e um viajante. Enquanto o viajante chega, vê, escuta e respeita, o turista continua se sentindo como se ainda estivesse em casa. Mas nem tudo está perdido. Podemos aprender a preservar e a cultivar nosso sentido de lugar.

Existe um tipo de cinema que nos ajuda e nos ensina a respeitar e aceitar as fronteiras. E certamente não é no "cinemão" mundial que vamos encontrar isso. É num outro tipo de cinema que precisamos procurar.

Wim Wenders, Fronteiras do Pensamento 2008.

Conheça os filmes que marcaram a juventude de Wenders abaixo:

1 Memorias del Subdesarrollo [Trailer] (Tomás Gutiérrez Alea. Cuba, 1968)


2 La hora de los hornos [Trilogia completa] (Octavio Getino e Fernando Solanas. Argentina, 1968)


3 O dragão da maldade contra o santo guerreiro [Filme completo] (Glauber Rocha. Brasil, 1969)


4 Terra em transe [Filme completo] (Glauber Rocha. Brasil, 1967)


5 Era uma vez em Tóquio [Filme completo] (Yasujiro Ozu. Japão, 1953)