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Evolução: genes, memes e universalidade

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Richard Dawkins (foto extraída da capa da obra
Richard Dawkins (foto extraída da capa da obra "An appetite for wonder")

Em artigo para a Revista Fronteiras do Pensamento, Cristina Bonorino, Professora titular de lmunologia da PUCRS e pesquisadora 1C do CNPq, analisa a importância do trabalho de Richard Dawkins para a compreensão da evolução natural das espécies:

"Dentre as leis da natureza, nenhuma foi tão comentada – e tão malcompreendida – como a evolução. E nenhuma pessoa conseguiu explicar de maneira tão clara essa lei como o biólogo Richard Dawkins." Leia abaixo:

Ainda é comum se ouvir ou ler que Charles Darwin teria sugerido que o homem descende do macaco. Ou que a evolução natural dita que o mais forte sempre sobrevive. Darwin viajou por anos coletando minúcias sobre modificações anatômicas hereditárias em certas espécies, formatos de bicos e membros. Seu gênio foi associar tais modificações com as alterações no ambiente de cada ser. Expandindo essa ideia, postulou que seres semelhantes originavam-se de um mesmo ancestral. E, a partir de características variáveis transmissíveis aos descendentes, evoluíram as espécies, respondendo a mudanças no ambiente. Absolutamente tudo nesse conceito era revolucionário em relação ao status quo do século 19, quando foi publicado o livro A origem das espécies. Algumas questões são ainda hoje extremamente perturbadoras para muitos de nós. A ideia de mudança constante. O fato de não termos controle sobre as condições que selecionam o mais adaptado. E o mais imperdoável: que nossas semelhanças com macacos não são material de anedotas, mas características herdadas de um ancestral comum.

Richard Dawkins, trabalhando na Oxford vizinha e rival da Cambridge que nos deu Darwin e o DNA, fez para o mundo a melhor tradução da evolução. Dawkins, originário já de um mundo molecular, clarificou o quão crucial para a vida era a capacidade de replicação. Esqueça bicos e asas. Se um gene, uma sequência de DNA que codifica para uma informação, consegue se replicar, esta é a unidade sobre a qual atua a seleção natural. No início da vida, moléculas replicadoras tiveram vantagem sobre as que não se replicavam. A replicação às vezes continha erros, o que gerava uma variabilidade. Gradualmente, algumas replicadoras se agregaram a outras que conferiam vantagem, como as que produziam uma “capa" que as protegia da degradação. Assim surgiram as “máquinas de sobrevivência" projetadas por genes. Os genes, egoisticamente, produzem o que for necessário para continuar se replicando. Sejam flagelos para melhorar a locomoção, odores que permitam que animais reconheçam parentes, ou um cérebro que gere comportamentos complexos. Somos todos, diz Dawkins, de bactérias a humanos, máquinas de sobrevivência de genes.

Essa noção perturba, pois pensamos nos seres humanos como imagens de seres divinos, melhores que os demais seres do planeta. O topo da evolução. Na verdade, não existem seres mais evoluídos que outros. Cada ser que existe hoje no planeta resulta de repetidos ciclos de seleção sobre descendentes levemente modificados. Não existe melhor ou pior - existe o mais eficiente em deixar descendentes. E não existe, portanto, direção, ou finalidade implícita, ou moral, na evolução. Quem deixa mais descendentes não é o mais forte, ou o mais bonito, mas aquele cujos genes trazem maior vantagem reprodutiva em determinado momento. Descendemos de seres aquáticos, que traziam em seu DNA o potencial de adaptação ao ambiente terrestre. Se amanhã o planeta for novamente coberto por oceanos, os mais capacitados a viver nas águas deixarão mais descendentes. Mudarão as máquinas para que o gene sobreviva.

Dawkins propõe também exemplos da universalidade da evolução. A cultura, diz ele, também evolui. As línguas faladas por homens e as canções de pássaros, entre outros comportamentos, são aprendidas - replicam-se entre indivíduos. Durante essa replicação, também ocorrem erros. Assim, a cultura evolui, numa velocidade muito maior que os genes e suas máquinas.

A unidade de replicação cultural foi por ele nomeada de meme: o fragmento cultural, ou ideia, que pula de cérebro em cérebro, como o gene pula de um indivíduo para outro. A "sopa" primordial molecular originou os genes que originaram os cérebros. E os cérebros são a nova sopa onde os memes se propagam, se modificam e evoluem.

Esses conceitos foram popularizados por Dawkins no livro O gene egoísta, lançado em 1976. O livro reverberou intensamente na comunidade científica, e, em 1982, Dawkins complementou sua visão da seleção natural com O fenótipo estendido, em que discutia o comportamento animal sob a luz de sua proposta evolutiva centrada no gene.

Mas foi a partir da obra O relojoeiro cego, de 1986, que Dawkins iniciou sua fase mais conhecida de ateu militante e crítico do chamado "design inteligente". O título alude ao uso, por adeptos do criacionismo, do argumento da necessidade do “relojoeiro", um ser sobrenatural que idealizaria todos os seres vivos, segundo eles, impossíveis de originarem-se ao acaso. Dawkins responde em seu livro com muitos exemplos, mostrando que a evolução seria então como um relojoeiro cego. Desde então, Dawkins dedicou-se a vários outros livros e palestras discutindo a evolução e refutando o criacionismo, culminando com o recente Deus: um delírio (2006).

Ali, ele discute a provável inexistência de Deus, definindo como delírio a persistência de crença mesmo após o confronto com forte evidência do contrário. A Fundação Richard Dawkins para Razão e Ciência foi estabelecida no mesmo ano para promover o estudo da evolução.

Compreender a evolução nos dá perspectiva. Em vez de nos considerarmos superiores a todos os seres, possibilita entender que pertencemos a um mundo profundamente conectado, onde tudo o que fazemos impacta sobre outras espécies. Somos máquinas cuja inteligência não só permite essa consciência, mas nos habilita a produzir tecnologia que preserve este mundo. Mais recentemente, físicos que propõem a existência de universos paralelos – o multiverso – sugerem que a evolução pode ocorrer também entre universos: aqueles em que as leis e constantes fossem mais estáveis sobreviveriam por mais tempo. Darwin provavelmente descobriu a mais fundamental das leis da natureza, e Dawkins influenciou gerações de pensadores ao encontrar, com simplicidade e elegância, o meme mais eficiente para transmiti-la.

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