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Falando de marionetes

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John Gray (foto: The Guardian)
John Gray (foto: The Guardian)

Em artigo para a Folha de S.Paulo, o escritor português João Pereira Coutinho, colunista do Correio da Manhã, maior diário de Portugal, fala sobre as ideias do filósofo britânico John Gray apresentadas na obra The soul of the marionette: "A ausência de conhecimento pode tornar-nos livres no sentido 'bestial' do termo. Mas, ao mesmo tempo, torna-nos prisioneiros da mais básica instintividade." Leia abaixo:

Leio com prazer o último livro de John Gray, The soul of the marionette. É um ensaio sobre a liberdade humana — ou, dito de outra forma, uma explicação erudita sobre a limitada liberdade que temos quando comparados com as bestas.

Tese de Gray: uma besta cumpre os seus instintos. Não agoniza entre opções e não tem o fardo insuportável do pensamento reflexivo.

Nós, humanos, somos menos livres que as bestas. Julgamos que a nossa "autonomia" (para usar uma palavra erudita) é a forma suprema de sermos livres. Estamos dramaticamente equivocados: não passamos de almas torturadas entre a experiência do passado e as expectativas do futuro. O fato de estarmos condenados a escolher não deixa de ser uma condenação.

Concordar ou discordar de Gray é assunto secundário. Embora, aqui entre nós, a minha admiração pelo texto seja proporcional à discórdia perante ele. Sou um típico produto da modernidade (a exata modernidade que Gray rejeita enfaticamente). Só consigo pensar a liberdade com um mínimo de conhecimento.

A ausência de conhecimento pode tornar-nos livres no sentido "bestial" do termo. Mas, ao mesmo tempo, torna-nos prisioneiros da mais básica instintividade. Pena Gray não refletir sobre a servidão que existe nessa instintividade.

Mas repito: concordar ou discordar é assunto secundário. Até porque o primeiro pensamento que tive quando terminei o livro não lidava com o argumento propriamente dito. Lidava com Gray "lui-même": "Esse homem já não está na universidade".

Fui confirmar. Confirmei. Gray ensinou em Oxford, Harvard e Yale. Ainda passou uns anos na London School of Economics. Hoje, dedica-se exclusivamente à escrita.

Não é caso único. Quase por coincidência, leio na revista "The Spectator" uma entrevista com Roger Scruton. Não vale a pena apresentar Scruton ao auditório letrado: uma vez mais, concordar ou discordar do autor é assunto secundário.

O que ninguém pode contestar é a inteligência e a consistência de sua obra –uma inteligência e consistência que o afastaram da academia há, pelo menos, três décadas.

O próprio Scruton, na entrevista, reflete sobre isso. Para dizer, com serena naturalidade, que ser um filósofo por conta própria é a única forma de poder escrever a verdade.

Seria bom olhar para os casos de Gray ou Scruton como exceções da regra. Infelizmente, não são. E um conhecimento do debate universitário inglês ensina uma triste lição: muitos dos pensadores, presentes ou passados, que construíram obra legível e admirável, já não teriam espaço no sistema de agora.

Razões diversas. Para começar, o sentimento de inferioridade das "ciências humanas" em relação às "ciências naturais" (uma inferioridade que, segundo Isaiah Berlin, radica no século 18) obrigou as "humanidades" a uma produção insana, e por isso estéril, de ensaios que ninguém lê.

Desde logo porque os ensaios não são para serem lidos; são para serem publicados em revistas da especialidade que, em troca, concedem ao autor algumas medalhas para progressão na carreira.

Um ensaio filosófico de qualidade, como o de John Gray, demora anos a ser pensado e escrito. Um filósofo "acadêmico" que demore anos a escrever algo de relevante é devorado em pouco tempo por uma manada de nulidades que reciclam e publicam o mesmo pedaço de lixo vezes sem conta só para pontuarem no autódromo da academia.

Mas existe uma segunda razão: Gray ou Scruton, para ficarmos em autores contemporâneos, não escrevem o que as inquisições acadêmicas exigem. Pelo contrário: enfrentam algumas vacas sagradas – o apelo do multiculturalismo, a soberba do racionalismo humano, a superioridade moral do pensamento revolucionário e utópico– que acabaram por ocupar toda a paisagem das "humanidades".

Moral da história?

O debate está mais pobre, sim, mas convém não generalizar: ele está mais pobre no interior da universidade inglesa, que foi excluindo da arena as vozes dissonantes ou mesmo excêntricas que deveriam ser a alma de qualquer ensino verdadeiro.

Mas essas vozes existem e persistem "cá fora". O que permite concluir que a universidade será cada vez mais um laboratório de propaganda e uma repartição burocrática: depois da lavagem cerebral, haverá um carimbo no diploma que prepara o infeliz para rigorosamente nada.