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Fernando Savater: a filosofia entre a academia e o mundo

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Professor de filosofia na Universidade de Madri e diretor da revista cultural Claves de Razón Prática, o filósofo espanhol Fernando Savater é um escritor multifacetado. 

Em seu currículo, constam diversas atuações e atividades como escritor de premiados livros, ensaios, narrativas e teatro, além de ativista nas áreas da ética, da religião e da luta contra o terrorismo.

Mas, duas outras “profissões" colaboraram para que ele se tornasse referência aos interessados na formação de indivíduos nos mais amplos aspectos: Savater é pai e educador.

Ambas as tarefas se unem com maestria em duas de suas obras mais conhecidas, Ética para meu filho e Política para meu filho. Os títulos originais, Ética para Amador e Política para Amador, já trazem pistas do que virão nas páginas das obras: uma conversa entre pai e filho, transmitindo os conceitos mais importantes da ética, da política e da moral.

Siga nossa página para acompanhar esta discussão:


É nesse tom de conversa que se desenrolam as mais valiosas lições de Fernando Savater. Diálogos com professores, pais, governantes e educadores – todos aqueles com a missão de criar indivíduos plenos das capacidades cívicas nas áreas política e social.

Para tanto, Savater defende uma formação laboral e humanística, e uma educação que transmita conhecimento e capacidades, mas que também estimule a descoberta da dimensão social, esta dimensão simbólica que nos une aos demais:

"A criança está acostumada a viver em um mundo familiar, em um mundo um pouco privado, separado dos outros. Por meio da educação, ela conhecerá os vínculos capazes de uni-la aos outros cidadãos, aos outros países, ao mundo. E esse mundo simbólico no qual os homens vivem se descobre por meio da educação."

Em sua conferência ao Fronteiras do Pensamento 2015, o filósofo espanhol abordou o tema A educação do cidadão no século XXI, relacionando três temas em sua fala: educação, ética e a sociedade democrática contemporânea.

Ele foi categórico sobre o que define a sociedade democrática: criar cidadãos aptos para transformar a própria democracia.

Estes cidadãos são caracterizados por uma grande virtude, a capacidade de persuadir e de ser persuadido. “Numa democracia, o ignorante é aquele incapaz de persuadir e de ser persuadido. Democracia é um sistema de persuasão mútua, afirmou o convidado.

Assista logo abaixo à conferência com o filósofo espanhol. Prossiga sua leitura com o artigo do o professor Silvio Gallo, duas vezes contemplado com o Prêmio Jabuti, que nos fala sobre a vida e a obra de Fernando Savater.


Silvio Gallo | Savater: a filosofia entre a academia e o mundo

Há pelo menos duas tendências na Filosofia, que ficam razoavelmente evidentes quando estudamos sua história. De um lado, temos a Filosofia pensada e praticada como um saber, preocupada com a verdade, que estabelece protocolos e métodos para melhor conhecer o mundo; de outro lado, ela é pensada e praticada como uma forma de viver, de constituir-se a si mesmo na relação com os outros. Não raro, vemos conflitos entre essas duas tendências.

No mundo moderno, com a consolidação das universidades, aquela primeira tendência da Filosofia ali encontrou seu lugar: consolidou-se como uma Filosofia acadêmica, especializada, como um conhecimento muito arrojado e refinado, mas, muitas vezes, totalmente afastado das “pessoas comuns” e dos problemas do dia a dia.

Essa Filosofia acadêmica, cuja melhor expressão talvez encontremos em Kant e em Hegel, por exemplo, que de dentro do espaço acadêmico produziram conhecimentos filosóficos que ajudaram a moldar o mundo moderno, também recebeu duras críticas, de pensadores do calibre de um Schopenhauer e de um Nietzsche.

Se não são raros os conflitos entre essas duas formas de compreender e praticar a Filosofia, raríssimos são os exemplos de filósofos que consigam articulá-las com sucesso, sendo capazes de produzir uma Filosofia como saber especializado, pesquisado e ensinado na universidade, com uma maneira de viver, com uma preocupação com os problemas cotidianos, dedicando-se a pensar e a interferir crítica e ativamente nos debates contemporâneos. Em nossos dias, o espanhol de origem basca Fernando Savater é um desses raros exemplos.


Nascido em 1947, Fernando Fernández-Savater Martín ensinou em várias universidades espanholas, tendo sido professor de Ética na Universidade do País Basco. Atualmente, é docente da Universidade de Madri. Para expressar a Filosofia, tem se valido especialmente da forma do ensaio, buscando uma escrita que, ainda que especializada, possa ser lida por um público mais amplo. Mas, para além do ensaio, foi cada vez mais se aproximando da literatura, vindo a escrever também novelas e obras para teatro, bem como textos para jornal.

Como pensador da Ética, uma de suas principais obras é Ética como amor-próprio, na qual apresenta seu pensamento, fortemente marcado por filósofos como Espinosa e Nietzsche. Outra forte influência que ele admite em seu pensamento é a de Cioran. Nesse livro, Savater apresenta uma ideia de ética centrada no indivíduo, uma Ética do querer, na esteira de Espinosa, mais do que uma Ética do dever, que, a partir de Kant, marca o mundo moderno.

Para o autor, o fundamento ético é o amor-próprio, é ele que opera como fundamentação dos valores que regem o campo ético. Se a Ética está marcada pela busca da felicidade, o pensador espanhol procura recolocar em seu eixo o indivíduo, que havia se perdido em meio às normas gerais e aos valores universais. Cada um é a medida das coisas na perspectiva da Ética, pois, no fundo, seu sentido é “dar-se a si mesmo uma vida boa”, como ele destaca em Ética para meu filho.

Porém, a afirmação do amor-próprio não nos coloca no âmbito de um individualismo e de um egoísmo que esqueça o meio, os outros seres humanos. Assumindo o tom polêmico ao defender um “egoísmo ilustrado”, Savater afirma que é através do individualismo tomado como virtude que se deve pensar temas como a democracia e os direitos humanos. Nenhuma perspectiva social pode ser colocada acima do indivíduo; ao contrário, ele é a base de qualquer agrupamento, e tal reunião só faz sentido se for para realizar o indivíduo.

Professor de Ética e de Filosofia Política na universidade, no início dos anos 1990 Savater resolveu enfrentar o desafio de explicar a seu filho Amador, então adolescente, o que o pai fazia na academia. Surgiram dois livros que se tornaram best-seller sem divulgação da Filosofia: Ética para Amador (1991) e Política para Amador (1992), no Brasil publicados com os títulos respectivos de Ética para meu filho e Política para meu filho.

Muito provavelmente, a razão do sucesso desses livros deve-se ao fato de se conseguir trabalhar numa linguagem clara, simples, fluente, compreensível a um adolescente e ao público em geral, os temas complexos e desafiadores da Ética e da Política.

Este empreendimento marca a posição do filósofo espanhol em relação à Filosofia: não faz sentido que ela fique encastelada na universidade; como na antiga Atenas, em que filósofos como Sócrates praticavam-na na praça do mercado, ela precisa permear o cotidiano dos “homens comuns", ou perde completamente sua razão de ser.

Frente a isso, não é de se estranhar que ele se preocupe com o ensino da Filosofia e com a Filosofia da Educação, tema e campo que, de modo geral, não são levados em conta pelos filósofos.



No contexto de um mundo e de uma escola excessivamente voltados para a informação, Savater afirma que a Filosofia não teria, talvez, nada a oferecer. No livro As perguntas da vida, direcionado a estudantes do ensino médio espanhol, comenta que podemos falar em três níveis de compreensão: a informação, o conhecimento e a sabedoria; enquanto que a ciência transita entre a informação e o conhecimento, a Filosofia move-se entre conhecimento e sabedoria. E arremata: “de modo que não há informação propriamente filosófica, mas pode haver conhecimento filosófico, e gostaríamos de chegar a que houvesse também sabedoria filosófica. É possível conseguir tal coisa? Sobretudo: é possível ensinar tal coisa?”

O autor não titubeia em responder positivamente; apresenta uma extensa argumentação em torno da Filosofia como atividade, processo, e não apenas como conjunto de conhecimentos historicamente produzidos, para concluir que é possível ensinar a filosofar, como busca de respostas cada vez melhores para os problemas com os quais nos defrontamos. E, mais do que isso: se a educação pretende-se humanizadora, ela não pode prescindir da Filosofia. A questão que se coloca então passa a ser: como ensinar os jovens a filosofar?

A perspectiva de Savater é a de que o ensino do processo de filosofar aos jovens deve ser feito através de grandes temas, como a morte, a liberdade, o tempo, a beleza, a convivência, para citar apenas alguns, que devem ser tratados problematicamente. Para dizer de outra forma, esses temas devem ser tratados como problemas filosóficos, que enfrentamos em nosso cotidiano, e que vêm recebendo diferentes equacionamentos ao longo da história.

Assim, na mesma medida em que os jovens são levados a pensar sobre esses problemas, que em maior ou menor medida todos experimentamos, em diferentes momentos de nossas vidas, também tomam contato com diferentes filósofos que, nas mais diversas épocas, incomodaram-se com esses mesmos problemas e procuraram construir formas de equacioná-los que, se não nos dão uma resposta definitiva, ajudam-nos a compreendê-los melhor, assim como nosso mundo e a nós mesmos.

Afirmar a importância do ato do filosofar para o ensino de Filosofia não nos autoriza a prescindir do conteúdo filosófico, daquilo que foi produzido nesses quase três milênios de pensamento, uma vez que a atividade filosófica é uma espécie de prolongamento daquilo que já foi feito e pensado. Mais que isso: o que torna legítimo o ato de filosofar, hoje, é justamente a recordação e a recuperação daquilo que foi pensado ao longo da história, atualizado e transformado pelos nossos problemas de hoje.



Se, ao ensinarmos Filosofia, nos limitarmos a expor figuras e momentos da sua história, estaremos contribuindo para afirmar a Filosofia como peça de museu, como algo que se contempla, se admira, mas se vê a distância, como algo intangível para nós.

Por outro lado, se nos dedicarmos ao ensino da Filosofia buscando o processo do filosofar nos esquecendo do historicamente produzido, perderemos a legitimidade para tal ato. A recusa da tradição (História da Filosofia), que é a única maneira de manter viva a história, continuamente criando e produzindo, só é possível a partir dessa mesma tradição: nada criaremos, se não a tomarmos como ponto de partida.

As reflexões de Savater em torno do ensino da Filosofia na educação média são especialmente importantes para o Brasil. Motivado pela redemocratização da Espanha após décadas de ditadura franquista, para ele o contato dos jovens com a Filosofia é importante no processo de construção da cidadania, na sustentação de uma sociedade que possa ser, de fato, democrática. Ora, é também em um contexto de redemocratização que tal problemática se insere na recente história brasileira, e suas ideias podem ser inspiradoras para nossas próprias reflexões e debates.

Savater é uma espécie de “filósofo engajado”, que se põe a pensar os temas contemporâneos e, por essa razão, direciona-se para a problemática educativa. Para além da questão mais específica do ensinar Filosofia aos jovens nas escolas, além de torná-la acessível ao público geral, em obras como O valor de educar dedica-se a pensar filosoficamente questões centrais dos processos educativos, como a relação entre disciplina e liberdade, o papel da família na educação das crianças, bem como o enfrentamento pelas instituições escolares de problemas como a violência, as drogas, o racismo e a intolerância.

Desde a publicação de seu primeiro livro, em 1970 (Nihilismo y acción), Savater já publicou mais de 80 obras, entre ensaios, novelas, compilações de artigos, textos para teatro, tendo obras traduzidas para mais de 20 idiomas. Recebeu a distinção de Doutor Honoris Causa de universidades espanholas e latino-americanas e foi premiado várias vezes por suas obras, como o Premio Nacional de Ensayo, em 1982, e o Premio de la Cultura de la Comunidad de Madrid, em 2013.

Vê-se, então, que Fernando Savater realiza de forma apaixonada a tarefa do filósofo: problematizar o mundo e a si mesmo, articulando a ação acadêmica com a ação social mais ampla, sem se deixar encastelar na universidade. Como ativista, não se recusa a propor e a enfrentar polêmicas e o faz com suas armas próprias: aquelas do pensamento.

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