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Fernando Savater: carta à minha amiga professora

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Fernando Savater (foto: Europa Press)
Fernando Savater (foto: Europa Press)

Conferencista do Fronteiras do Pensamento 2015, o filósofo espanhol Fernando Savater reflete* sobre aquela que considera a principal característica do professor e o que seria a atual crise da educação. Leia abaixo:

Você mesma, amiga professora, e eu, que também sou professor, e qualquer outro docente podemos ser ideológica ou metafisicamente muito pessimistas. Podemos estar convencidos da maldade onipotente ou da triste estupidez do sistema, da diabólica microfísica do poder, da esterilidade a médio ou longo prazo de todo esforço humano e de que “nossas vidas são rios que vão dar no mar, que é o morrer". Enfim: seja o que for, que seja sempre desacorçoador.

Como indivíduos e como cidadãos, temos perfeito direito de ver tudo da cor característica da maior parte das formigas e de grande número de telefones antigos, ou seja, muito preto. Como educadores, porém, não nos resta outro remédio senão sermos otimistas, infelizmente!

É que o ensino pressupõe o otimismo, tal como a natação exige um meio líquido para ser exercitada. Quem não quer se molhar, que abandone a natação; quem sente repugnância diante do otimismo, que deixe o ensino e que não pretenda pensar em que consiste a educação.

Pois educar é crer na perfectibilidade humana, na capacidade inata de aprender e no desejo de saber o que anima, é crer que há coisas (símbolos, técnicas, valores, memórias, fatos...) que podem ser aprendidas e que merecem sê-lo, que nós homens, podemos melhorar uns aos outros por meio do conhecimento.

De todas essas crenças otimistas, podemos muito bem descrer privadamente, mas, se pretendemos educar ou entender em que consiste a educação, não há outro remédio senão aceitá-las. Com verdadeiro pessimismo, pode-se escrever contra a educação, mas o otimismo é imprescindível para estudá-la e para exercê-la. Os pessimistas podem ser bons domadores, mas não são bons professores.

A educação é valiosa e válida, mas também é um ato de coragem, um passo à frente da valentia humana. Covardes ou receosos, abstenham-se. O mal é que todos nós temos medos e receios, sentimos desânimo e impotência, e por isso a profissão de professor – no sentido mais amplo e nobre do termo, no mais humilde também – é a tarefa mais sujeita a quebras psicológicas, a depressões, a cansaço desalentado acompanhado pela sensação de sofrer abandono numa sociedade exigente, mas desorientada. Daí, novamente minha admiração por você, minha amiga professora. E minha preocupação por aquilo que a – nos – debilita e desconcerta (...).

Em qualquer educação, por pior que seja, há suficientes aspectos positivos para despertar, em quem a recebeu o desejo de fazer melhor por aqueles pelos quais depois será responsável. A educação não é uma fatalidade irreversível, e qualquer um pode recuperar do que havia de ruim na sua, mas isso não implica que se torne indiferente à de seus filhos, muito pelo contrário. Talvez, de uma boa educação nem sempre derivem bons resultados, tal como um amor correspondido nem sempre implica uma vida feliz; ninguém me convencerá, contudo, de que por isso uma e outro não sejam preferíveis à domesticação obscurantista ou à privação de carinho.

É certo, no entanto, que a educação parece ter estado perpetuamente em crise em nosso século, pelo menos se levarmos em conta as insistentes vozes de alarme que há muito nos previnem a esse respeito. No entanto, quando eu confessar, minha amiga professora, minha preocupação com a crise atual da educação, é provável que muitos encolham os ombros: essa triste história já ouvimos tantas vezes...

Mesmo assim, creio que seja possível assinalar peculiaridades inquietantes na fase crítica que atravessamos hoje. Para dizê-lo com as palavras Juan Carlos Tedesco, a crise da educação já não é a mesma de antes: “Não provém da forma deficiente com que a educação cumpre os objetivos sociais que lhe são designados, mas do fato, mais grave ainda, de não sabermos que finalidades deve cumprir e em que direção, efetivamente, orientar suas ações".

Com efeito, o problema da educação já não pode ser reduzido simplesmente ao fracasso de um punhado de alunos, por mais números que sejam, nem ao fato de a escola não cumprir devidamente as missões claras que a comunidade lhe encomenda, mas tem um perfil anterior e mais abominável: a imprecisão ou a contradição dessas demandas.

A educação deve preparar gente apta a competir no mercado de trabalho ou formar homens completos? Deve dar ênfase à autonomia de cada indivíduo, com frequência crítica e dissidente, ou à coesão social? Deve desenvolver a originalidade inovadora ou manter a identidade tradicional do grupo? Atenderá à eficácia prática ou apostará no risco criador? Reproduzirá a ordem existente ou instruirá os rebeldes que possam derrubá-la? Manterá uma neutralidade escrupulosa diante da pluralidade de opções ideológicas, religiosas, sexuais, e outras formas diferentes de vida (drogas, televisão, polimorfismo estético) ou se inclinará por discorrer sobre o preferível e propor modelos de excelência? Esses modelos podem ser adotados simultaneamente ou alguns são incompatíveis? Neste último caso, como e quem deve decidir por quais optar?

E outras perguntas se abrem, inclusive sob as anteriores, até chegar a seus fundamentos: é obrigatório educar todo mundo da mesma maneira ou deve haver tipos diferentes conforme a clientela a que sejam dirigidos? A obrigação de educar é assunto público ou questão privada de cada um? Por acaso existe obrigação ou, pelo menos, possibilidade de educar qualquer pessoa, o que supõe que a capacidade de aprender seja universal? Mas, vejamos: por que há de ser obrigatório educar? Etc.

Quando o número de perguntas e sua radicalidade atropelam evidentemente a fragilidade temerosa das respostas disponíveis, talvez seja hora de recorrer à filosofia. Não tanto por afã dogmático de remediar prontamente o desconcerto, mas para utilizá-lo em favor do pensamento: tornar-nos intelectualmente dignos de nossas perplexidades é o único caminho para começar a superá-las.

(*Excertos da obra O valor de educar)