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'Gene egoísta' também é cooperação

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Capa de "O gene egoísta" (Companhia das Letras)

Em artigo para o Caderno especial Fronteiras do Pensamento na Folha, Reinaldo José Lopes fala sobre a obra O gene egoísta, de Richard Dawkins. Veja abaixo:

Os mais afoitos talvez achem um despropósito que o cientista célebre por um livro chamado O gene egoísta seja um dos nomes de um evento sobre cooperação. É difícil reduzir o pensamento de Richard Dawkins a estereótipos, no entanto - ao menos na maior parte do tempo.

Longe de defender a competição desalmada que às vezes predomina na natureza, O gene egoísta pode ser lido como antídoto a essa tendência. Tanto que, como afirma o zoólogo britânico, um título igualmente apropriado seria O gene cooperativo.

A metáfora central da obra-prima de Dawkins, na verdade, tem menos a ver com egoísmo ou cooperação e mais com permanência.

O autor parte do princípio de que os genes, unidades mínimas de DNA que contêm a "receita" para determinada característica, viajam de forma relativamente independente de uma geração para outra por meio do sexo.

Em média, nossos filhos têm 50% de nossos genes, enquanto a proporção cai para 25% em nossos netos --e assim por diante. Por causa do sexo, genes que estão no mesmo corpo na primeira ou na segunda geração podem muito bem acabar parando em corpos diferentes nas seguintes.

Isso significa que cada gene pode ter um "interesse" (metaforicamente, é claro, já que não têm cérebro), conduzindo o organismo (de novo, inconscientemente) a buscar o sucesso na reprodução para que mais cópias dele circulem pelo mundo - daí o "egoísta" do título.

Ocorre que, como Dawkins explica, isso acontece por meio de variadas estratégias. Algumas se encaixam na nossa definição antropocêntrica de egoísmo - homens que traem as parceiras e geram filhos fora do casamento -, enquanto outras são altruístas.

A colaboração dentro de grupos sociais, por exemplo, também pode ser ótima para os genes de todo mundo que está participando, desde que existam regras para premiar os bons meninos e punir os trapaceiros.

Dawkins tem prestado imensos serviços ao elucidar para o grande público essas e outras facetas da evolução. Mas é discutível se sua outra persona pública, a de cruzado antirreligião, tenha efeito tão positivo.

Com a publicação de Deus, um delírio (2006), ele se tornou uma das maiores vozes do novo ateísmo, segundo o qual boa parte dos problemas do mundo desapareceriam se a religião deixasse de existir.

Ao adotar esse ponto de vista, Dawkins esnoba a crescente literatura científica segundo a qual as crenças podem funcionar como poderoso estímulo de cooperação e coesão social.

É exagero pintar o zoólogo como fundamentalista científico, já que suas armas são a razão e a argumentação. Mas a maneira como ele reage à religião é, por vezes, tão estereotipada e contraproducente quanto as reações dos críticos que leram apenas o título de seu clássico.

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