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Henry Louis Gates Jr. | Equalizar as diferenças para o bem comum

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Henry Louis Gates Jr. no carnaval de Salvador (foto: Jemila Twinch)
Henry Louis Gates Jr. no carnaval de Salvador (foto: Jemila Twinch)

A ausência de rostos negros na esfera pública brasileira, seja nas capas de revistas ou em cargos políticos importantes, impressionou Henry Louis Gates Jr., considerado um dos principais especialistas em culturas africanas e afro-americanas. O professor de Harvard visitou Rio, Diamantina, Recife e Salvador, em 2010, para a série de documentários “Os negros na América Latina", transformada em livro homônimo.

Com base nas observações de Gates Jr., Elizardo Scarpati Costa* reflete sobre as relações étnico-raciais: da colonização aos dias atuais, o que de fato mudou no "país da miscigenação"? Scarpati Costa conclui que, "do ponto de vista discursivo, há um orgulho de sermos uma 'democracia racial', mas, na prática, mantemos, três séculos depois, nas relações sociais o legado do período escravocrata."

Louis Gates Jr. é historiador, crítico literário, educador e acadêmico norte-americano. Foi o primeiro afro-americano a receber o Andrew W. Mellon Foundation Fellowship. É editor da Oxford African American Studies Center, o primeiro e maior projeto de estudos afro-americanos, que reúne mais de 10 mil artigos, além de fotos e mapas relacionados à história afro-americana.

Equalizar as diferenças para o bem comum | Elizardo Scarpati Costa

Em termos etimológicos, a origem da palavra igualdade se inicia no latim aequalitas, “aquilo que é igual" ou “semelhante". Nesse sentido, igualdade representa a ausência de diferenciação entre duas coisas que possuem particularidades, mantendo a mesma valoração social e simbólica ancorada na ausência de hierarquias entre os indivíduos em sociedade. Ou seja, a palavra igualdade deve ser associada à uniformização (jurídica, política, social e cultural) sem a descaracterização das particularidades culturais, políticas e sociais dos indivíduos dentro de uma equalização das diferenças, visando o bem comum.

Nas sociedades modernas, como é o caso da América Latina, é preciso pensar sobre igualdade como analisou o sociólogo português Boaventura de Sousa Santos: “temos o direito a ser iguais quando a nossa diferença nos inferioriza; e temos o direito a ser diferentes quando a nossa igualdade nos descaracteriza. Daí a necessidade de uma igualdade que reconheça as diferenças e de uma diferença que não produza, alimente ou reproduza as desigualdades".

Desde os primórdios da colonização no século 16, a construção social, política e cultural das sociedades latino-americanas se desenvolveu de maneira perversa, em que as bases da modernização eurocêntrica focadas no etnocentrismo (na ideia de “raças humanas superiores") dos colonizadores foram responsáveis pelo deslocamento, entre 1502 até 1866 (diáspora africana), de 11,2 milhões de africanos para o continente latino-americano, escravizados, como demonstra o livro Os negros na América Latina, do historiador Henry Louis Gates Jr.

Para a Comissão Econômica das Nações Unidas (Cepal), os afrodescendentes podem chegar até cerca de 30% da população da América Latina e do Caribe, sendo as mulheres negras o grupo mais vulnerável, de menor expectativa de vida, com níveis mais baixos de educação formal e acesso mais limitado aos serviços públicos, em relação à restante população latino-americana. A inquietante permanência das desigualdades obscurece os princípios da igualdade e tem um alto custo político, social e cultural para o continente, aumentando as chances do ressurgimento de velhos conflitos sociopolíticos oriundos da segregação étnico-racial, à qual parte significativa das populações latino-americanas foi submetida, ao longo dos últimos séculos. Recuperando as contribuições de Gates, há relatos preciosos de diálogos que o autor estabeleceu com acadêmicos, personalidades e cidadãos comuns, tendo como princípio suas observações sobre a questão racial em cada país, sempre procurando comparações com os EUA. Gates visitou, por um período de seis meses, Brasil, México, Peru, República Dominicana, Haiti e Cuba.

No Brasil, país que recebeu da África cerca de 4,8 milhões de seres humanos, Gates teve contato com as teorias de “democracia racial" desenvolvidas por Gilberto Freyre. O autor é um dos primeiros a transformar a negatividade da questão da miscigenação em positividade na construção da sociedade brasileira, mas seu mito das três raças, ainda hoje, encobre os conflitos raciais como possibilidade a todos de se reconhecerem como nacionais.

Por outro lado, apesar de Gates ter vivenciado novas representações sociais sobre o processo de miscigenação, relata que ficou desapontado com as desigualdades na ausência de negros nos espaços mais elitizados da sociedade brasileira. Em pleno século 21, pouco se alterou o estatuto socioeconômico dos negros e mestiços que continuam confinados nos níveis mais baixos da escala social.

O pesquisador também não imaginava que a influência africana na música, na dança, nas festas, na culinária, na religiosidade fosse tão grande e consistente. Ou seja, do ponto de vista discursivo, há um orgulho de sermos uma “democracia racial", mas, na prática, mantemos, três séculos depois, nas relações sociais o legado do período escravocrata.

*Elizardo Scarpati Costa Pós-Doutorado em Sociologia pela Unisinos e Doutor em Sociologia pela Universidade de Coimbra