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Ian McEwan | Recriando o complexo mundo moderno

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Ian McEwan é o conferencista da celebração dos 10 anos de Fronteiras
Ian McEwan é o conferencista da celebração dos 10 anos de Fronteiras

Um dos ficcionistas mais importantes de sua geração, reconhecido como um mestre da engenharia e da arquitetura do romance, Ian McEwan coleciona uma série de prêmios literários, entre eles o Whitbread Award e o Man Booker Prize.

Suas obras, simultaneamente viscerais e cerebrais, propõem dilemas morais ao leitor, em narrativas com personagens meticulosamente construídas que sondam questões políticas e culturais.

Ian McEwan é "capaz de enxergar luz e sombra – continua a ver o que poucos veem", diz Camila von Holdefer neste texto: "segui-lo é um movimento essencial para começar a entender o nosso tempo."


Conheça o universo de McEwan no texto de Camila von Holdefer, extraído da Revista Fronteiras do Pensamento.

A edição apresenta o o ciclo de conferências sob a análise de escritores, professores, críticos e especialistas nas temáticas que estiveram no palco do Fronteiras Porto Alegre 2016. Com textos de dez articulistas, o debate aborda o tema A grande virada, repensando antigos conceitos para uma nova vida em sociedade. A fotografia conta com olhares de Bruno Alencastro e um ensaio de Eneida Serrano.

Acesse a Revista Fronteiras do Pensamento na íntegra.

Recriando o complexo mundo moderno | Camila von Holdefer

Na primeira cena de Sábado, romance publicado em 2005, o neurocirurgião Henry Perowne observa Londres através da janela do quarto. Se antes Perowne acredita atravessar uma sucessão de dias “desconcertantes e assustadores", naquele momento, insone, examinando o entorno, a cidade semiadormecida lhe parece “um sucesso, uma invenção genial, uma obra-prima biológica – milhões de pessoas que formigam em torno das conquistas de séculos". A despeito do que está por vir, o personagem sente uma pontada de otimismo em relação às conquistas humanas.

Esta pequena cena fornece um bom panorama da segunda fase da obra de Ian McEwan. A primeira, marcada por romances perturbadores na linha de O jardim de cimento, valeu ao autor a conhecida alcunha de “Ian Macabro". De alguns anos para cá – ainda mais frio e analítico, mas menos afeito ao lúgubre e menos inclinado ao pessimismo –, McEwan tem se dedicado a recriar o mundo moderno em toda a sua complexidade.


Se é fácil ver aí um projeto ambicioso, também é fácil constatar que o autor, mesmo ainda em atividade, foi bem-sucedido em sua execução. Isso se deve, em parte, ao fato de que McEwan desenvolve seus personagens e temas de forma meticulosa, quase obsessiva. A reunião das qualidades que o definem – o domínio técnico, o rigor, a própria vontade de compor um quadro mais completo da atualidade – não é compartilhada por nenhum outro escritor vivo.

Seguindo a trilha aberta pelo bom e velho romance inglês, os livros de Ian McEwan embaralham os opostos e as distâncias, medindo bem as nuances e as escalas. Em outras palavras, seus enredos procuram conciliar o externo e o interno. O todo e o detalhe. O maior e o menor. O esforço de elaborar elementos tão diversos invariavelmente resulta em dilemas éticos e morais difíceis de resolver.

Basta lembrar de A balada de Adam Henry, último livro do escritor publicado no Brasil, no qual uma juíza precisa determinar se um adolescente com leucemia receberá ou não uma transfusão de sangue que ele veementemente rejeita. A religião do garoto, o Adam Henry do título, o impede de admitir uma doação do tipo. Sem o procedimento, no entanto, ele pode morrer. Como Adam é menor de idade, a decisão cabe ao tribunal.

McEwan já deixou clara a vontade de sondar questões políticas e culturais – passadas e atuais – que ultrapassam as fronteiras de seu próprio país. Em Solar, trata do aquecimento global; em Serena, tangencia a época da Guerra Fria; no já mencionado Sábado, analisa o terrorismo.

Já no estupendo Reparação, um punhado de períodos e circunstâncias importantes são escrutinados. Mesmo em narrativas cujo foco recai exclusivamente sobre os personagens, como na novela Na praia, a realidade dos anos de repressão sexual está subentendida – não como algo incidental, mas como ruído de fundo bem assinalado por um autor experiente.

Os conflitos entre os personagens, sempre presentes, não raro misturam interesses particulares e coletivos. Amsterdam, livro que rendeu ao autor o prestigioso Prêmio Man Booker, é um bom exemplo do artifício. Dois amigos de longa data, um jornalista e um compositor, brigam por ciúme e vaidade, mas também para garantir alguma glória e dignidade. O equilíbrio perfeito entre impulsos mesquinhos e outros nem tanto não só cria personagens complexos como reflete um cenário caótico e igualmente prenhe de potencialidades e nuances.

Como um bom regente – as referências musicais, sobretudo à música erudita, são frequentes ao longo de toda a obra do autor –, McEwan sabe conciliar e modular o tom, o tempo, o ritmo. Seus romances são cerebrais sem deixar de ser viscerais. Mesmo A balada de Adam Henry, visto por alguns críticos como um retrato daquilo que seria uma oposição (descabida) entre o pensamento lógico e o religioso, é muito mais do que isso. Com notável sutileza, McEwan mostra que não é possível assimilar e defender um sistema de crenças sem fazer uso da razão.

Os dilemas propostos pelo autor não cessam de desafiar os leitores, que não raro têm de assumir uma posição ou outra diante da engenhosidade das tramas. Não restam dúvidas de que o olhar afiado de McEwan — como Henry Perowne à janela, capaz de enxergar luz e sombra – continua a ver o que poucos veem. Segui-lo é um movimento essencial para começar a entender o nosso tempo.

*Camila von Holdefer é crítica literária e editora do site livrosabertos.com.br