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Javier Cercas responde: "Palavras são como dinamite, elas criam a realidade"

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Em conferência ao Fronteiras do Pensamento São Paulo, no dia 24 de outubro, Javier Cercas e Alejandro Zambra, dois grandes escritores da língua espanhola, buscaram nas marcas de um passado de totalitarismo reflexões para o combate à violência.

Conhecidos por abordarem acontecimentos históricos em suas obras, o franquismo e a Guerra Civil Espanhola no caso de Cercas, e a ditadura de Pinochet, no caso de Alejandro Zambra, ambos enfatizaram a responsabilidade do escritor ao contar histórias.

Para Cercas, é dever da literatura mostrar ao público que a realidade é muito mais complexa do que parece:

“Hoje, nós estamos inundados por mentiras, pois a mentira tem um poder de difusão como nunca teve antes, graças ao poder crescente e avassalador dos meios de comunicação.”

O poeta e romancista chileno Alejandro Zambra foi ao encontro das ideias de Cercas e destacou o papel da educação no combate à violência política:

“Um bom professor pode salvar sua vida, mas ninguém reconhece isso. Parece muito mais importante escrever um artigo em um jornal do que dar uma boa aula. É infinitamente mais importante dar uma boa aula de literatura em um colégio. Isso sim é inspirar”, declarou o escritor.

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Lembre-se: o próximo evento do Fronteiras do Pensamento será a última conferência desta temporada.

Já garantiu a sua presença? Teremos mais um debate especial. Desta vez, receberemos o cientista político norte-americano Mark Lilla e o filósofo Luiz Felipe Pondé. Vamos pensar juntos sobre o presente e o futuro da política. Vamos pensar juntos justamente sobre nossa dificuldade contemporânea de pensarmos juntos. Faça parte deste grande debate. 

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Após suas falas, Alejandro Zambra e Javier Cercas responderam perguntas do público. Dentre elas, estava a Pergunta Braskem, enviada pelos seguidores do Fronteiras do Pensamento nas mídias digitais. Confira esta resposta logo abaixo e prossiga a leitura com as principais ideias apresentadas pelos convidados:

Javier Cercas já disse que palavras são como dinamites e que é um dever do escritor, mais do que de qualquer cidadão, querer mudar o mundo. Na opinião de vocês, qual seria a grande luta que a literatura engajada deveria assumir atualmente?

Javier Cercas: Nós escritores temos uma responsabilidade muito grande, porque as palavras são como dinamite, elas criam a realidade. Nós não podemos dizer que não temos responsabilidade. Através das palavras, pode-se fazer o melhor, mas também o pior.

O combate de hoje é o mesmo de sempre: é o combate pela verdade.

É claro que a verdade literária não é exatamente a mesma que a verdade histórica ou que a verdade jornalística. Essas são verdade factuais, precisas, que aconteceram em tal lugar, com tais pessoas, em tal tempo. A verdade literária é outro tipo de verdade; é uma verdade moral. Uma verdade que se ocupa daquilo que aconteceu com todos os homens em qualquer tempo, em qualquer lugar.

O combate da literatura é mostrar que a realidade é muito mais complexa do que parece. É combater esta mentira. Hoje, nós estamos inundados por mentiras, pois a mentira tem um poder de difusão como nunca teve antes, graças ao poder crescente e avassalador dos meios de comunicação.

O populismo é fruto desse aumento das mentiras. Como diz o evangelho: as mentiras nos fazem escravos e a verdade nos faz livres.

Há um senhor chamado Donald Trump no poder para nos dizer que a verdade não importa a ninguém. Ele tomou o poder em um dos países mais importantes do mundo exatamente por isso, contando mentiras de maneira imparável e parece que isso não importa. Esse desprestígio da verdade é aterrorizador, tóxico, demolidor.

E como você falou, Trump é apenas símbolo de uma onda que percorre o mundo e está em todos os lugares e aqui também.

O que acontece no Brasil não é algo isolado. Isso está acontecendo em todos os lugares e em cada país ocorre de maneira diferente, porque cada país tem sua história e tem sua sociedade peculiar.

No ano de 2008, houve uma crise econômica brutal, só comparável à crise de 1929, que acabou na Segunda Guerra Mundial. O que acontece agora é um terremoto político só comparável àquele de 1930, conduzido pelo nacional populismo. Para mim, o que vivemos hoje é apenas uma máscara pós-moderna do que aconteceu naqueles anos.

Não é que a história se repete. Ela se repete de formas diferentes: nós cometemos os mesmos erros, voltamos a acreditar nos líderes carismáticos; voltamos a acreditar nas soluções mágicas e muito simples para problemas muito complexos; voltamos a repetir o desprestígio da democracia. Isso é um fenômeno universal e eu não estou otimista.

Demétrio Magnoli: Existe uma característica comum aos romances de vocês, que são narradores que expõem, a todo momento, a natureza ficcional do que está sendo contado. Como vocês operam essa combinação de seriedade e narrativa realista, por um lado, e paródia e exposição do caráter ficcional do texto, de outra parte?

Javier Cercas: Eu digo que escrevo romances de aventura sobre a aventura de escrever romances. No livro que eu escrevo, além de contar uma ou várias histórias, eu conto o próprio processo de se fazer o romance: as minhas perplexidades de narrador, as minhas dúvidas. Efetivamente, eu mostro ao leitor que aquilo é um romance e que eu estou trabalhando no romance, faço com que o leitor participe do processo de fazer o romance.

Esse ato de mostrar o making off vem de Cervantes. Em Dom Quixote, Cervantes nos mostra quase todo o seu processo de escrita e, às vezes, o processo de fazer o romance se torna mais importante do que a história que se conta.

Isso me parece fundamental e é um processo essencialmente antirrealista. Nos romances realistas, nos fazem crer que aquilo está acontecendo verdade. No meu tipo de romance, eu digo ao leitor que isso é uma ficção ou um romance e que vamos trabalhar juntos a partir daqui.

Há alguns anos, li uma carta de Ítalo Calvino, um escritor muito importante em minha juventude, que dizia algo muito bonito: “Há livros em que contar o processo de fazer o livro é quase uma obrigação moral.” Isso é muito bonito. É uma maneira de não enganar o leitor.


Alejandro Zambra: Estou totalmente de acordo com Cercas. Isso acontece também em outras disciplinas além da literatura, como por exemplo, na arquitetura, ao mostrar as vigas de uma construção.  

Para mim, é muito natural brincar com isso, principalmente nos meus primeiros livros. Eu venho de um amor enorme e paradoxal com relação à literatura. Paradoxal, porque era um amor não correspondido. Acho que Formas de voltar para casa é meu livro que mais reflete esse pressuposto da sua pergunta.

No Chile, todas as pessoas da minha idade compartilharam a infância na ditadura em lugares muito diferentes, mas, basicamente, houve um sentimento muito comum de escassez: tínhamos crescido num mundo em que não éramos os protagonistas; os protagonistas eram nossos pais e nossos avós.

Então, nos sentíamos personagens secundários de um romance protagonizado por nossos pais e avós. Esse sentimento era ambíguo, porque, às vezes, nós queríamos ser personagens secundários, mas, em outros momentos, me parecia muito mais importante narrar a minha versão dos fatos.

O romance que eu queria escrever era sobre essa pergunta, sobre a memória, sobre o passado, pelo meu país. O desejo e sua reticência de pertencer a esse país. Isso era central e também conversa um pouco com a frase do Calvino, da qual gosto muito. Me parecia que a moralidade do romance me exigia uma encenação do que acontecia quando você queria escrever o romance.

Um problema clássico do escritor é que ele tem direito de falar pelos outros. Eu acho que sim, mas qual é o limite? É possível que, ao contar a história do outro, você esteja sempre contando sua própria história. Mas, quem tem direito de contar a sua própria história?

O autor sempre é uma autoridade, sempre é autoritário. O autor é sempre aquele que sobreviveu e foi capaz de contar aquela história e, por mais terrível que tenha sido sua experiência, ele tem a palavra e usa a linguagem em seu favor. Esse problema moral me interessa muito.

Demétrio Magnoli: Um dos pontos que podem unir as histórias de vocês foi dito na fala do Zambra, quando mencionou Roberto Bolaño, um autor de referência para todos os chilenos. No livro do Cercas, Soldados de Salamina, Bolaño é um personagem que fala uma frase que eu gostaria que Javier comentasse se concorda: “Todos los buenos relatos son relatos reales. Por lo menos para quien los lee, que es el único que cuenta.” Você concorda com o Bolaño?

Javier Cercas: Eu acho que concordo comigo mesmo. Nem sempre estou de acordo comigo mesmo.

Quando esse livro foi publicado, Roberto Bolaño não era o que é hoje. Era apenas um escritor que estava adquirindo certo prestígio naquele momento, mas não era um personagem tão conhecido como é agora. Nesse romance, ele aparecia como um amigo meu.

Se não me engano, na época, Bolaño publicou uma resenha em um jornal do Chile dizendo que o cara que aparecia no meu livro não era ele, era um personagem que tinha o mesmo nome que ele, mas era um personagem de romance.

Quando você coloca alguém num romance, sobretudo num romance de ficção, já se converte e se torna outra coisa. A grande maioria das coisas que ele disse no romance nunca foram ditas por ele, embora, antes de publicar o livro, eu dei a ele para ler, para que me insultasse, se fosse o caso.

A intenção do escritor é que o leitor viva aquilo que ele criou como se fosse verdadeiro: as paixões, as perplexidades, tudo o que acontece no livro como se estivesse acontecendo de verdade. Então, sim, estou de acordo comigo mesmo, nesse caso.

Demétrio Magnoli: As obras de vocês são marcadas pela violência política entre os países: a de Zambra por meio da ditadura de Pinochet e a de Cercas por meio da guerra civil e do franquismo. Cercas diz que os espanhóis acreditam que o esporte nacional da Espanha seria o futebol, mas, na verdade, foi matar a si mesmo. Foram tantas revoluções e tantos conflitos, que o verdadeiro esporte nacional da Espanha é matar-se. Como essa violência se reflete na ficção de vocês? Como vocês interpretam essa violência na literatura?

Alejandro Zambra: Tentando entendê-la, não a justificando.  

A questão de gênero, por exemplo; tratar de qualquer generalização sobre gênero é muito complexo, porque na realidade eu não gosto do meu próprio gênero. De vez em quando, ouço homens que me dão pena defendendo outros homens e me pergunto: por que os defendem? Os homens são os maus, os vilões, os estupradores. Por que defendê-los?

O que me interessa é como a sociedade gera essa interpelação e acaba definindo tudo novamente. Eu, que não sou otimista, vejo isso como um progresso e acho que a única solução possível está na educação.

Um bom professor pode salvar sua vida, mas ninguém reconhece isso. Parece muito mais importante escrever um artigo num jornal do que dar uma boa aula, e é infinitamente mais importante dar uma boa aula de literatura (ou do que for) para 20 ou 40 crianças em um colégio. Isso sim é inspirar.

Escrever é algo que nos permite não jogar a culpa nos outros. Eu fazia piada de que todos deveriam escrever um diário, mas ninguém devia publicá-lo, porque tem uma coisa íntima, particular, que nós já perdemos hoje, porque está todo mundo postando, mostrando, se exibindo, construindo uma imagem de si mesmo.

Todos são personagens e há pouquíssima reflexão inicial nisso; é tudo para os outros, nada é realmente para se autoconhecer. Eu acho que isso é meio hippie, mas é o único caminho que poderia nos salvar.

Demétrio Magnoli: Na obra do Cercas, o filho dele aparece com grande frequência e é um personagem que tem um papel importante. Cercas, queria saber como a paternidade mudou sua maneira de escrever e como influencia na sua ficção? Pergunto isso também ao Zambra, que teve um filho há um ano. Como isso muda sua perspectiva como escritor?

Alejandro Zambra: Eu posso falar três horas sobre o meu filho. Ele tem dez meses, se chama Silvestre e eu sinto muito a falta dele. Acho que ele está mudando tudo em minha vida.

O Múltipla Escolha, por exemplo, é um livro tão cético, que por um lado é cômico, mas por outro é profundamente niilista. Quando eu o leio, de alguma maneira eu o rechaço. Eu não queria dizer essas coisas na frente do editor no livro, mas eu leio e me dói, porque estou num processo de tentar conciliar a nova alegria que eu sinto, uma alegria pessoal e impossível de comunicar, com o mundo que nós vivemos hoje.

Os pais habitam um paradoxo muito difícil de solucionar: proteger o seu filho do mundo ou então mostrá-lo para ele. Ter um filho é muito vivificante. Eu me sinto vivo por isso.

Não tenho outra maneira de falar sobre o bebezinho que nasceu exatamente quando estava tocando a música Leãozinho, do Caetano Veloso, na minha playlist. Ele nasceu exatamente quando tocava essa música, então é um leãozinho.

Javier Cercas: Só posso dizer que se não tivesse um filho eu seria muito mais estúpido do que sou. Não tenho nenhuma dúvida sobre isso.

Por outro lado, eu diria que não somente coloquei meu filho no romance, mas coloquei minha mulher, meus amigos, minha mãe...  No último romance que escrevi, minha mãe é a protagonista. Então, eu uso sem escrúpulos tudo que eu encontro ao meu redor, por isso ter um escritor na família pode ser um pouco complicado.