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​José Eduardo Agualusa: 15+2 e o ativismo pelo sonho

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José Eduardo Agualusa participa de manifestações pela liberdade em Angola (foto: Miguel Manso/Publico)
José Eduardo Agualusa participa de manifestações pela liberdade em Angola (foto: Miguel Manso/Publico)

“Você sabe que uma pessoa passa, em média, ao longo da vida, seis anos sonhando? Tem que haver algum sentido nisso”. O sentido libertador do ato de sonhar, as indagações que se escondem por trás dos sonhos, as expectativas e as possibilidades que esses desencadeiam são elementos que norteiam a obra e a vida do próximo conferencista do Fronteiras do Pensamento, o escritor angolano José Eduardo Agualusa.

Célebre por sua capacidade de unir realidade e ficção em tramas que ora denunciam questões sociais, ora celebram a capacidade humana de inventar universos, o autor expõe, em sua obra literária e em sua vida política, a tragédia de seu país: uma sociedade em que o autoritarismo sufoca até mesmo a possibilidade de sonhar. Nesse contexto, Agualusa diz ter escolhido lutar por quem se resignou apenas a sobreviver – tornou-se, assim, uma espécie de ativista pelo sonho.

A inconformidade diante da situação angolana está presente na literatura e, também, nas intervenções políticas do escritor. Ao contrário da maior parte de sua geração, Agualusa não desistiu de prosseguir sua batalha pela abertura política do país, mergulhado em uma ditadura desde 1979.

Em 2015, Agualusa se envolveu em um caso de perseguição política conhecido como 15+2. O rapper luso-angolano Luaty Beirão e outros 14 ativistas angolanos estavam reunidos para discutir o livro Da Ditadura à Democracia, de Gene Sharp, quando foram detidos pela polícia angolana. Da Ditadura à Democracia foi considerado um "livro altamente subversivo" pelo embaixador itinerante de Angola, António Luvualu de Carvalho, numa entrevista que concedeu a uma televisão portuguesa no auge da crise política desencadeada pela greve de fome que Luaty Beirão iniciou na prisão.

Luaty beirão
Luaty Beirão: liberdade ou morte (foto: João Pina)

"Concordo contigo. É um livro altamente subversivo, mas em regimes totalitários. Não é subversivo em democracias. Este livro não leva ao derrube de democracias", respondeu o escritor José Eduardo Agualusa na mesma ocasião. Agualusa declarou publicamente que os jovens ativistas encarcerados já eram vencedores, pois haviam conseguido dinamizar os movimentos pró-democracia no país e levar o debate para dentro do próprio partido detentor do poder, o Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA).

Falando sobre os acontecimentos, Agualusa defendeu que os jovens deveriam ser não reprimidos, mas encorajados pelo próprio governo a debaterem: “Eu gostaria que todos os jovens angolanos se reunissem para discutir livros e para debater ideias. Os jovens não podem ser penalizados por algo que, pelo contrário, deveriam ser felicitados”.

>> Agualusa, Marcelo Gleiser, Lipovetsky e Karnal: participe das conferências do Fronteiras Salvador 2018

Num país tomado pela ditadura há quase quarenta anos, Agualusa defende que a chave para mudar o presente está justamente em devolver aos jovens a capacidade de sonhar: “Com o tempo, as gerações mais antigas acabaram se conformando com a realidade do país, ou até pior, se corrompendo. Os regimes totalitários fazem isso, destroem a alma das pessoas”. Nesse contexto de sufocamento, seus escritos e suas ações fazem parte de um verdadeiro ativismo pelo sonho.

A situação política angolana

José Eduardo dos Santos governou a Angola entre 1979 e 2017. Líder também do Movimento Popular de Libertação da Angola (MPLA), antigo movimento revolucionário de perspectiva marxista que lutou contra o domínio colonial português entre 1961 e 1975. Após a vitória, assumiu o poder em Angola ficando 38 anos ininterruptos no poder. Foi duramente criticado por violações de direitos humanos no país, que, ao mesmo tempo em que se transformou no segundo maior produtor de petróleo da África, manteve metade de sua população vivendo com menos de dois euros (R$9,00) por dia. Quando deixou a presidência, passou o cargo para seu Ministro da Defesa, João Lourenço, candidato também do MPLA. A troca de nomes no poder, contudo, não diminuiu a censura, o autoritarismo e a perseguição aos dissidentes políticos.

Da realidade para a ficção

Os fatos desencadeados em 2015 serviram de inspiração para A sociedade dos sonhadores involuntários, livro mais recente do escritor, lançado em 2017. Na sátira política, produzida ao longo de seis anos, um jornalista angolano sonha com pessoas que não conhece e se envolve com quem, como ele, têm ligação especial com os próprios sonhos. A certa altura, a filha do jornalista acaba presa depois de se envolver em movimento de protesto contra o ditador do país.

Em entrevista ao Público, o autor declarou os motivos que levaram a escrever sobre a prisão dos jovens angolanos: “Qualquer livro resulta de uma necessidade interna, de alguma coisa que nos força a escrever, que nos leva a escrever. Nesse sentido, sim, tudo aquilo me incomodou muito, todo o processo e a prisão deles me incomodou. Escrever é uma tentativa de conhecer, de conseguir explicar alguma coisa que nos incomoda”.

José Eduardo Agualusa

José Eduardo Agualusa, um dos mais importantes escritores em língua portuguesa da atualidade, é pioneiro em um tipo de ativismo inovador, que revela a tragédia de seu país: o ativismo pelo sonho.

Em uma realidade dilacerada por uma ditadura de décadas, em que o otimismo é o último recurso para prosseguir, as pessoas precisam voltar a sonhar, defende o escritor, mundialmente conhecido por reunir realidade e ficção em tramas que ora denunciam questões sociais ora celebram a capacidade humana de inventar universo.

Clique aqui para baixar o libreto gratuito do conferencista.