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Karen Armstrong: Lições para expandir a compaixão

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Karen Armstrong (foto: Pedro Álvarez / El País)
Karen Armstrong (foto: Pedro Álvarez / El País)

Muitas pessoas definem uma linha bastante nítida entre a espiritualidade e o plano racional. A própria separação entre estado e religião tem base na concepção da religião como um fenômeno desvinculado da racionalidade. Seguindo essa lógica, discutir ou pensar a religião em diálogo com a política parece não fazer muito sentido.

Porém, a escritora e historiadora britânica Karen Armstrong quebra esses paradigmas ao desenvolver um entendimento complexo e elaborado sobre as relações entre Estado e religião nos contextos de guerra ao longo da história. Para Armstrong, a base dessas relações está na preocupação com o sofrimento humano.

No Fronteiras do Pensamento, na conferência O que é religião?, Armstrong mostrou a espiritualidade como a capacidade de ter compaixão, uma busca pela expansão da lógica do "eu" para um olhar aprofundado sobre a comunidade. Este olhar inevitavelmente passará pela filosofia e pela política. No texto abaixo, ela aprofunda o tema e deixa uma lição sobre o que é necessário para desenvolver a compaixão no mundo atual.


KAREN ARMSTRONG | LIÇÕES PARA EXPANDIR A COMPAIXÃO

Um ato de compaixão pode ser explosivo, pois ele necessita introduzir na sociedade uma preocupação com os outros. Ele não pode parar em você e nas pessoas que lhe agradam. Tem que ser para todos.

Isso significa encorajar um olhar global. Ele vai contra aquele egoísmo entranhado em todos nós. A parte mais profunda de nossos cérebros está programada para colocar “eu em primeiro lugar”. Se não tivéssemos feito isso, nossa espécie não teria sobrevivido ou evoluído. Mas, se permitirmos que isso se torne o elemento principal do nosso pensar, politicamente, estaremos, nos dias de hoje, destinados ao desastre.

Vimos o que ocorre quando a ideologia do “eu em primeiro lugar” é ligada a essa área de raciocínio humano lógico de nossos cérebros que é capaz de racionalizar, inventar e produzir ciência. Quando o “eu em primeiro lugar” é ligado a isso, você tem Auschwitz, você tem o 11 de Setembro.

Portanto, basicamente, creio que a compaixão é como um grão de areia dentro da concha de uma ostra. Pode gerar uma pérola, mas cria uma irritação. Ela vai irritando aquele ideal suave de política, de que estamos bem e que temos que colocar nossa sociedade no caminho certo etc. Isso todos temos, mas ficar
dizendo sim não é o suficiente.

Penso que seja importante perceber que a compaixão não é apenas uma essência, como uma porção de algo que você simplesmente aplica. De fato, cada ato de compaixão, inclusive aqueles entre dois seres humanos, diz respeito a uma grande quantidade de inteligência. Não é apenas uma questão de ser gentil.

Às vezes, você tem que ser duro. E você sempre tem que se posicionar contra a injustiça e a crueldade, onde quer que as encontre. E você tem que não apenas fazer o que pensa, como alguns dizem: “Farei tal coisa àquela pessoa, pois isso é o que gostaria que fizessem para mim”. Então, você tem uma vida impessoal. Você poderia dizer a uma mulher que seu marido está tendo um caso com alguém, pois você diz: “Bem, eu gostaria de ficar sabendo”.

Mas talvez para ela não seja bom ficar sabendo. Você tem que se colocar no lugar dela. E, similarmente, as pessoas dizem: “Bem, acreditamos na democracia, então vamos introduzi-la à força neste país”. Novamente, essa é uma espécie ruim de Regra Dourada.

O que precisamos fazer é muito tema de casa em política, descobrir de onde vêm as pessoas com quem estamos lidando, qual a sua dor, o que as levou à posição na qual se encontram no momento, qual sua história, quais são, não apenas suas crenças econômicas e sociais, mas também suas crenças religiosas e éticas e quais seus temores, e agir de acordo com o máximo de inteligência e criatividade de que formos capazes. Portanto, é de fato um difícil exercício.

Confúcio disse: “Cada ato de compaixão é individual”. E ele requer que você se posicione e pare de dizer: “Bem, é disso que eu gosto – então, aplique”. Apenas aceite que sempre haverá erros, sempre haverá defeitos e nunca teremos feito o suficiente. Mas, a não ser que coloquemos isso em pauta, provavelmente iremos falhar enquanto espécie.

Creio que a comunidade é a forma pela qual nos tornamos humanos. Completamente humanos. Volto a Confúcio, que é um dos meus favoritos, pois ele não teria entendido, digamos, um asceta hindu, que vai para a floresta procurar a iluminação sozinho.

Confúcio disse: “Tornamo-nos humanos interagindo uns com os outros”. E Comte estava certo ao dizer que, para que os seres humanos convivam enquanto sociedade, nós precisamos ceder, não podemos simplesmente fazer o que quisermos.

Temos que aprender a colocar, de vez em quando, as necessidades do grupo antes das nossas. Se não tivéssemos desenvolvido isso nas brumas dos tempos, provavelmente, enquanto espécie, não teríamos sobrevivido. Já que, enquanto indivíduos, éramos muito frágeis, se comparados aos outros grandes predadores da época.

Mas com nossos grandes cérebros e trabalhando em equipe, compensamos isso. Portanto, em primeiro lugar, a família é onde crescemos, a família é a escola da compaixão. Porque, em uma família, diariamente você tem que perdoar algo, diariamente você tem que se colocar no lugar de outro de alguma forma. Você também, dessa forma, aprende como outros podem machucá-lo e que você deve aplicar isso e dizer: “Não farei isso com outra pessoa”.

Para que a família se mantenha unida, deve haver uma medida de compaixão e altruísmo e o mesmo vale para o resto do seu caminho. Mas isso é o que nos torna humanos. Sócrates teria dito o mesmo, ele não ficava pensando apenas em si, ele sempre falava com os outros para entender o que pensava.

Creio que em vez de ver os outros como irritantes, até as pessoas ou os povos de que não gostamos, como irritantes, devemos vê-los como uma forma de engrandecer nossa própria humanidade. É a forma pela qual podemos nos livrar do egoísmo que temos em nossos corações e adotar os horizontes mais amplos que são necessários ao mundo de hoje.