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Leia os capítulos inicias de Anna Kariênina, obra-prima de Liev Tolstói

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Não foram poucas as vezes que o Fronteiras do Pensamento trouxe ao seu público escritores e pensadores que nos ensinaram a valiosa lição a respeito do poder da literatura. Entre todos os grandes clássicos recentes das literatura universal, é difícil encontrar algum que possa rivalizar em alcance, complexidade e beleza com as obras do escritor russo Lev Tolstói, figura emblemática dessa força literária. É com prazer, portanto, que o Fronteiras oferece aos leitores, em parceria com a Editora 34, a publicação dos capítulos iniciais do romance Anna Kariênina -- uma das grandes obras-primas da história da literatura que acaba de ganhar uma nova tradução assinada por Irineu Franco Perpétuo. 

I

Todas as famílias felizes são parecidas, cada família infeliz é infeliz a seu próprio modo.
Tudo era confusão na casa dos Oblônski. A esposa descobriu que o marido tivera um caso com sua ex-governanta francesa, e informou-lhe que não podia viver na mesma casa que ele. Esta situação prolongava-se já pelo terceiro dia, fazendo-se sentir de forma aflitiva nos cônjuges, em todos os membros da família e em toda a criadagem. Todos os membros da família e da criadagem percebiam que não havia sentido em sua convivência, e que até pessoas reunidas por acaso em qualquer hospedaria estavam mais ligadas entre si do que eles, membros da família e da criadagem dos Oblônski. A mulher não saía de seu quarto, o marido não estava em casa pelo terceiro dia. As crianças corriam pela casa toda, como perdidas; a preceptora inglesa brigara com a governanta e escrevera um bilhete a uma amiga, pedindo que lhe encontrasse um novo emprego; o cozinheiro saíra da casa na véspera, exatamente na hora do jantar; a auxiliar de cozinha e o cocheiro tinham pedido as contas.

Anna Kariênina - Lev Tolstói

No terceiro dia após a briga, o príncipe Stepan Arkáditch Oblônski — Stiva, como o chamavam em sociedade —, na hora de costume, ou seja, às oito da manhã, não acordou no quarto da esposa, mas em seu gabinete, em um sofá de marroquim. Virou o corpo roliço e bem cuidado nas molas do sofá, como se desejasse voltar a dormir um pouco, abraçou com força o travesseiro do outro lado e apertou-o contra a face; de repente, porém, deu um salto, sentou-se no sofá e abriu os olhos.
“Sim, sim, como foi?”, pensou, lembrando o sonho. “Sim, como foi? Sim! Alábin dava um jantar em Darmstadt; não, não era em Darmstadt, mas algo americano. Sim, é que no sonho Darmstadt ficava na América. Sim, Alábin dava um jantar em mesas de vidro, sim, e as mesas cantavam Il miotesoro, e não era Il mio tesoro, mas algo melhor, e havia umas garrafinhas pequenas, e elas eram mulheres”, lembrava.

Os olhos de Stepan Arkáditch brilhavam, alegres, e ele ficou pensativo, sorrindo. “Sim, era bom, muito bom. Teve ainda muita coisa excelente, só que não dá para dizer com palavras, nem exprimir os pensamentos depois de acordado.” E, notando a faixa de luz que irrompia ao lado de uma das corrediças de feltro, baixou com alegria os pés do sofá, encontrou os chinelos de feltro dourado bordados pela esposa (presente de aniversário do ano anterior) e, sem se levantar, seguindo o velho hábito de nove anos, esticou a mão para o lugar do dormitório em que seu roupão ficava pendurado. Daí se lembrou, de repente, como e por que não dormira no quarto da esposa, mas no gabinete; o sorriso desapareceu de seu rosto, ele franziu a testa.

“Ah, ah, ah! Aaa!...”, pôs-se a mugir, lembrando tudo que acontecera. E voltaram a surgir em sua imaginação todos os detalhes da briga com a mulher, todo o caráter inescapável de sua situação e, o mais torturante de tudo, sua própria culpa.
“Sim! Ela não vai perdoar, e não pode perdoar. E o mais horrível é que a culpa é toda minha, é minha culpa, mas não sou culpado. Todo o drama está aí”, pensava. “Ah, ah, ah”, repetia, com desespero, lembrando as impressões que mais lhe pesavam daquela briga.
O mais desagradável de tudo fora aquele primeiro instante em que, ao voltar do teatro, feliz e satisfeito, trazendo na mão uma pera enorme para a mulher, não a encontrara na sala de visitas; para seu espanto, tampouco a encontrara no gabinete e, finalmente, vira-a no quarto, segurando o bilhete nefasto, que tudo revelava.
Ela, aquela Dolly sempre preocupada, atarefada e, na opinião dele, de ideias curtas, estava sentada com o bilhete na mão, fitando-o com uma expressão de horror, desespero e ira.
— O que é isso? Isso? — ela perguntava, apontando para o bilhete.
Como acontece com frequência, ao se lembrar daquilo, Stepan Arkáditch não se atormentava tanto com o fato em si quanto com a resposta que dera às palavras da mulher.
Naquele instante, acontecera com ele o que acontece com as pessoas colhidas inesperadamente em algo vergonhoso demais. Não conseguira preparar seu rosto à situação em que se viu, diante da esposa, após a descoberta de sua culpa. Em vez de ofender-se, renegar, justificar-se, pedir perdão, até mesmo ficar indiferente — qualquer coisa teria sido melhor do que o que ele 1 Ária de tenor da ópera Don Giovanni, de Mozart. (N. do T.)Anna Kariênina 29
fez! —, seu rosto, de forma completamente involuntária (reflexos do cérebro, pensou Stepan Arkáditch, que adorava fisiologia), de repente se abriu em um sorriso corriqueiro, bondoso e, por isso, estúpido.
Não conseguia se perdoar por aquele sorriso estúpido. Ao ver tal sorriso, Dolly estremeceu como de uma dor física, desencadeando, como o ardor que lhe era próprio, torrentes de palavras cruéis, e saiu do quarto. Desde então não queria ver o marido.
“A culpa é toda daquele sorriso estúpido”, pensou Stepan Arkáditch.
“Mas o que fazer? Que fazer?”, dizia para si, desesperado, sem encontrar resposta.


II
Stepan Arkáditch era um homem sincero consigo mesmo. Não podia se enganar e convencer-se de que se arrependia de sua conduta. Não podia se arrepender agora do que se arrependera há seis anos, quando cometera a primeira infidelidade à esposa. Não podia se arrepender de que ele, um homem belo e amoroso de trinta e quatro anos, não estivesse apaixonado pela esposa, mãe de cinco filhos vivos e dois mortos, apenas um ano mais jovem do que ele. Arrependia-se apenas de não ter sabido esconder melhor da esposa. Sentia, porém, todo o peso de sua situação, e tinha pena da esposa, dos filhos e de si. Talvez tivesse sabido esconder melhor da esposa seus pecados se imaginasse que a notícia agiria daquela forma sobre ela. Jamais refletira com clareza sobre essa questão, porém tinha a vaga impressão de que a esposa adivinhara há tempos que ele não lhe era fiel, e fazia vista grossa. Parecia-lhe até que ela, uma mulher extenuada, envelhecida, que já estava feia e não se destacava em nada, uma mulher simples, apenas uma boa mãe de família, devesse, por um sentido de justiça, ser condescendente. Ocorreu, porém, exatamente o contrário.
“Ah, é horrível! Ai, ai, ai! Horrível”, Stepan Arkáditch repetia para si, e não conseguia pensar numa saída. “E como era bom até então, como vivíamos bem! Ela estava satisfeita, feliz com as crianças, eu não a atrapalhava em nada, deixava-a fazer o que quisesse com os filhos e a casa. Verdade que não era bom que ela tivesse sido governanta em nossa casa. Não era bom! Há algo de trivial, de vulgar em cortejar a própria governanta. Mas que governanta! (Recordou vivamente os olhos negros e malandros de mademoiselle Roland e seu sorriso.) Afinal, enquanto ela esteve em nossa casa eu não me permiti nada. E o pior de tudo é que ela já... Tudo isso parece até de propósito. Ai, ai, ai! Aiaiai! Mas e então, o que fazer?”

Não havia resposta além daquela que a vida dá às questões mais complicadas e insolúveis. A resposta é: devem-se viver os pormenores do dia, ou seja, esquecer. Esquecer-se no sonho já não era possível; pelo menos até a noite, não dava para voltar para a música cantada pelas garrafinhas-mulheres; em consequência, era preciso se esquecer no sonho da vida.
“Então vamos ver”, Stepan Arkáditch disse para si e, levantando-se, vestiu o roupão cinza de forro de seda azul, atou as borlas com um nó e, enchendo fartamente de ar a ampla caixa torácica, com o passo habitualmente animado dos pés virados para fora, que levavam seu corpo robusto com tanta facilidade, aproximou-se da janela, ergueu a corrediça e tocou alto a campainha. Ao toque, entrou imediatamente um velho amigo, o camareiro Matviei, trazendo roupa, sapatos e um telegrama. Atrás de Matviei entrou também o barbeiro, com petrechos para a barba.
— Tem papel da repartição? — perguntou Stepan Arkáditch, pegando o telegrama e sentando-se defronte ao espelho.
— Na mesa — respondeu Matviei, olhando de modo interrogativo e com simpatia para o patrão e, depois de esperar um pouco, acrescentou, com um sorriso astuto: — Veio gente do aluguel de carruagens.
Stepan Arkáditch não respondeu nada, e só olhou para Matviei pelo espelho; nos olhares que trocaram no espelho ficava evidente como entendiam um ao outro. Era como se Stepan Arkáditch perguntasse: “Por que você diz isso? Por acaso você não sabe?”.
Matviei colocou as mãos no bolso da jaqueta, afastou a perna e, em silêncio, bonachão, quase sorrindo, olhou para o patrão.
— Mandei que viessem no domingo e, até então, que não se incomodassem nem o incomodassem inutilmente — proferiu a frase visivelmente preparada de antemão.
Stepan Arkáditch entendeu que Matviei quisera fazer uma brincadeira e chamar a atenção. Rasgou o telegrama, leu corrigindo mentalmente as palavras erradas de sempre, e seu rosto ficou radiante.
— Matviei, minha irmã Anna Arkádievna vem amanhã — disse, detendo por um minuto a mão lustrosa e roliça do barbeiro, que abria um caminho rosado entre suas suíças longas e encaracoladas.
— Graças a Deus — disse Matviei, demonstrando com essas palavras que, a exemplo do patrão, compreendia o significado daquela chegada, ou seja, que Anna Arkádievna, a amada irmã de Stepan Arkáditch, podia contribuir para a reconciliação de marido e esposa.
— Sozinha ou com o esposo? — perguntou Matviei.
Stepan Arkáditch não pôde responder, pois o barbeiro estava ocupado de seu lábio superior, e levantou um dedo. Matviei assentiu com a cabeça, no espelho.
— Sozinha. Preparo o quarto de cima?
— Comunique a Dária Aleksândrovna, será onde ela mandar.
— Dária Aleksândrovna? — repetiu Matviei, como que em dúvida.
— Sim, comunique. Pegue o telegrama, entregue, faça o que ela disser.
“Quer colocar à prova”, entendeu Matviei, mas disse apenas:
— Sim, senhor.
Stepan Arkáditch já estava lavado e barbeado, e se preparava para se vestir quando Matviei, pisando devagar o tapete macio com as botas rangentes, voltou para o quarto, com o telegrama na mão. O barbeiro já não estava.
— Dária Aleksândrovna mandou comunicar que vai sair. Que ele — ou seja, o senhor — faça como preferir — disse, sorrindo apenas com os olhos que cravou no patrão, colocando as mãos nos bolsos e inclinando a cabeça de lado.
Stepan Arkáditch ficou em silêncio. Depois, um sorriso bom e algo penoso surgiu em seu belo rosto.
— Hein? Matviei? — disse, meneando a cabeça.
— Não é nada, senhor, dá-se um jeito — disse Matviei.
— Dá-se um jeito?
— Exatamente, senhor.
— Você acha? Quem é? — perguntou Stepan Arkáditch, ouvindo barulho de roupa de mulher atrás da porta.
— Sou eu, senhor — disse uma voz feminina firme e agradável, e de trás da porta assomou o severo rosto bexiguento de Matriona Filimônovna, a babá.
— E então, Matriocha? — perguntou Stepan Arkáditch, indo ao seu encontro, na porta.
Apesar de Stepan Arkáditch ser completamente culpado perante a esposa, e sentir-se assim, quase todos na casa, inclusive a babá, melhor amiga de Dária Aleksândrovna, estavam do lado dele.
— E então? — ele disse, triste.
— Vá, senhor, volte a se desculpar. Talvez Deus acuda. Está sofrendo muito, dá dó de ver, e tudo em casa está de pernas para o ar. Senhor, é preciso ter pena das crianças. Desculpe-se, senhor. Que fazer? Quem comeu a carne...
— Pois não vai me receber.
— Mas faça a sua parte. Deus é misericordioso, ore a Deus, senhor, Deus é misericordioso.
— Está bem, vá — disse Stepan Arkáditch, enrubescendo de repente. — Bem, vamos nos vestir — dirigiu-se a Matviei e despiu o roupão, decidido.
Matviei já segurava a camisa preparada como um colar de cavalo, e, soprando algum fiapo invisível, enfiou-a com evidente satisfação no corpo bem tratado do patrão.


III
Depois de se vestir, Stepan Arkáditch borrifou perfume, ajustou os punhos da camisa, distribuiu pelos bolsos, com movimentos costumeiros, papirossas, carteira, fósforos, o relógio com duas correntes e berloque e, sacudindo o lenço, sentindo-se limpo, cheiroso e fisicamente alegre, apesar de sua desgraça, partiu, com ambas as pernas ligeiramente trêmulas, para a sala de jantar, onde já o esperava o café e, ao lado do café, cartas e papéis da repartição.
Stepan Arkáditch sentou-se, leu as cartas. Uma era bastante desagradável: de um comerciante que estava comprando um bosque na propriedade da esposa. Era indispensável vender aquele bosque; mas agora, antes da reconciliação com a mulher, não se podia falar naquilo. O mais desagradável era a intromissão desse interesse pecuniário no caso urgente de sua reconciliação com a esposa. E a ideia de que ele podia ser guiado por tal interesse, de que, pela venda daquele bosque, procuraria a reconciliação com a mulher, essa ideia o ofendia.
Terminadas as cartas, Stepan Arkáditch aproximou de si os papéis da repartição, folheou rapidamente dois casos, fez algumas notas com um lápis grande e, afastando os casos, pegou o café; durante o café, desdobrou o jornal matutino, ainda úmido de tinta, e se pôs a ler.
Stepan Arkáditch recebia e lia um jornal liberal, não extremista, mas da tendência apoiada pela maioria. E, apesar de nem a ciência, nem a arte, nem a política o interessarem em particular, ele apoiava com firmeza, em todos esses temas, os pontos de vista apoiados pela maioria e seu jornal, e mudava-os quando a maioria mudava ou, melhor dizendo, não era ele que os mudava, mas estes que mudavam imperceptivelmente dentro dele.
Stepan Arkáditch não escolhia nem tendências, nem pontos de vista, mas essas tendências e pontos de vista vinham a ele por si sós, do mesmo modo como ele não escolhia as formas dos chapéus ou das sobrecasacas, mas adotava os que os outros vestiam. E para ele, que vivia em uma sociedade notória, ter um ponto de vista, além da exigência de alguma atividade intelectual que normalmente se desenvolve na idade madura, era tão indispensável como ter um chapéu. Se havia um motivo para preferir a tendência liberal à conservadora, que também era apoiada por muitos de seu círculo, decorria não de ele achar a tendência liberal mais racional, mas de ela se aproximar mais de seu modo de vida. O partido liberal dizia que tudo na Rússia ia mal e, de fato, Stepan Arkáditch tinha muitas dívidas, e o dinheiro, decididamente, não dava. O partido liberal dizia que o matrimônio era uma instituição caduca, que era indispensável recriá-lo e, de fato, a vida familiar proporcionava pouca satisfação a Stepan Arkáditch, constrangendo-o a mentir e fingir, o que era tão repugnante à sua natureza. O partido liberal dizia, ou melhor, pressupunha que a religião era apenas um freio para a parte bárbara da população e, de fato, Stepan Arkáditch não podia suportar nem o mais curto molében6 sem dor nas pernas, nem conseguia entender o porquê daquelas palavras terríveis e grandiloquentes a respeito do outro mundo, quando podia ser tão divertido viver neste. Além disso, Stepan Arkáditch, que gostava de piadas espirituosas, apreciava desconcertar, de vez em quando, as pessoas pacíficas, dizendo que, se tivesse que se orgulhar de sua estirpe, não deveria parar em Riúrik e renegar o primeiro fundador — o macaco. Assim, a tendência liberal tornou-se um hábito de Stepan Arkáditch, e ele apreciava seu jornal como um charuto depois do jantar, devido à neblina ligeira que ele produzia em sua cabeça. Leu o editorial, que explicava que, em nossa época, é completamente inútil erguer o clamor de que o radicalismo ameaçaria engolir todos os elementos conservadores e de que o governo devia tomar medidas para esmagar a hidra revolucionária e que, pelo contrário, “em nossa opinião, o perigo reside não na imaginária hidra revolucionária, mas no tradicionalismo teimoso, que freia o progresso”, etc. Leu também outro artigo, de finanças, que mencionava Bentham e Mill, e dava finas alfinetadas no ministério. Com a compreensão rápida que lhe era característica, entendeu o significado de cada alfinetada: de quem e para quem era dirigida, em cada caso específico, e isso, como sempre, lhe proporcionou alguma satisfação. Porém, a satisfação daquele dia fora envenenada pelos conselhos de Matriona Filimônovna e pelo fato de as coisas irem tão mal em casa. Leu também que o conde Beust, dizia-se, chegara a Wiesbaden, que não era mais necessário ter cabelos grisalhos, sobre uma carruagem ligeira à venda, e sobre uma pessoa jovem oferecendo serviços; tais notícias, porém, não lhe proporcionaram a silenciosa satisfação irônica de antes.

Depois de terminar o jornal e tomar uma segunda xícara de café e kalatch9 com manteiga, ele se levantou, sacudiu as migalhas de pão do colete e, endireitando o peito vasto, deu um sorriso feliz, não porque levasse algo especialmente agradável na alma; o sorriso feliz fora provocado pela boa digestão.

Porém, esse sorriso feliz imediatamente o fez lembrar de tudo, e ele ficou pensativo.

Duas vozes de criança (Stepan Arkáditch reconheceu as vozes de Gricha, o menino mais novo, e Tânia, a menina mais velha) soaram atrás da porta. Carregavam alguma coisa, que tinham deixado cair.

— Eu disse que não dá para colocar passageiros no teto — gritava a menina, em inglês —, agora pegue!
“Tudo está uma confusão”, pensou Stepan Arkáditch, “as crianças estão correndo sozinhas por aí.” E, indo até a porta, chamou-as. Elas largaram o porta-joias que fazia as vezes de trem e foram até o pai.
A menina, a favorita do pai, correu com ousadia, abraçou-o e, rindo, pendurou-se no seu pescoço, regalando-se como sempre com o cheiro conhecido de perfume que emanava de suas suíças. Depois de beijá-lo, por fim, no rosto corado pela posição inclinada, e radiante de ternura, a menina soltou as mãos e quis correr de volta; o pai, porém, a deteve.
— E a mamãe? — perguntou o pai, passado a mão pelo pescocinho liso e delicado da filha. — Olá — disse, sorrindo para o menino que viera cumprimentá-lo.
Reconhecia amar menos o menino, e sempre se esforçava para ser justo; o menino, porém, sentia, e não respondeu com um sorriso ao sorriso frio do pai.
— Mamãe? Levantou-se — respondeu a filha.
Stepan Arkáditch suspirou. “Quer dizer, passou de novo a noite inteira sem dormir”, pensou.
— E então, ela está alegre?
A menina sabia que houvera uma briga entre pai e mãe, que a mãe não podia estar alegre, que o pai devia saber disso, e que ele estava fingindo ao perguntar de modo tão ligeiro. E enrubesceu pelo pai. Este compreendeu de imediato, e também enrubesceu.
— Não sei — ela disse. — Ela não nos mandou estudar, mandou que fôssemos passear com miss Hoole, na casa da vovó.
— Pois vá, minha Tantchúrotchka. Ah, sim, espere — disse ele, segurando-a, contudo, e acariciando sua mãozinha delicada.
Tirou da lareira, onde a colocara na véspera, uma caixa de bombons, e lhe deu dois, escolhendo os favoritos dela, de chocolate e fondant.
— Para Gricha? — disse a menina, apontando para o de chocolate.
— Sim, sim. — E, acariciando mais uma vez seu ombrinho, beijou-a na raiz dos cabelos e no pescoço, e liberou-a.

— A carruagem está pronta — disse Matviei. — Mas tem uma peticionária — acrescentou.

— Está aqui faz tempo? — perguntou Stepan Arkáditch.
— Uma meia horinha.
— Quantas vezes mandei anunciar imediatamente?
— É preciso permitir ao senhor pelo menos acabar de tomar o café — disse Matviei, com aquele tom amistoso e rude com o qual era impossível se zangar.
— Pois bem, que venha logo — disse Oblônski, franzindo o cenho de enfado.
A peticionária, mulher do stabskapitan Kalínin, pedia algo impossível e incoerente; porém, Stepan Arkáditch, como de hábito, fez com que ela se sentasse, escutando-a com atenção e sem interromper, deu-lhe um conselho detalhado sobre a quem se dirigir, e até, com desenvoltura e correção, com sua letra graúda, comprida, bela e nítida, redigiu um bilhetinho para uma pessoa que poderia ajudá-la. Depois de liberar a mulher do stabskapitan, Stepan Arkáditch pegou o chapéu e parou, pensando se não havia se esquecido de algo. Deu-se que não esquecera nada além do que desejava esquecer: a esposa.
“Ah, sim!” Baixou a cabeça, e seu belo rosto assumiu uma expressão angustiada. “Ir ou não ir?”, disse a si mesmo. E uma voz interna lhe dizia que ir não era necessário, que aquilo não podia dar em nada além de falsidade, que corrigir, consertar a relação era impossível, pois era impossível fazer com que ela fosse novamente atraente e capaz de despertar amor, ou fazer com que ele ficasse velho e incapaz de amar. Além de falsidade e mentira, nada podia sair dali; e a falsidade e a mentira eram repugnantes à sua natureza.
“Contudo, tem que ser em algum momento; afinal, isso não pode ficar assim”, disse, tentando incutir-se ousadia. Endireitou o peito, sacou uma papirossa, acendeu, deu duas baforadas, jogou-a no cinzeiro de madrepérola, percorreu a sala de visitas escura com passos rápidos e abriu uma outra porta, para o dormitório da esposa.