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Leïla Slimani: Simone de Beauvoir mudou minha vida

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Simone de Beauvoir pelo francês Thierry Ehrmann, criador do projeto Demeure du Chaos, em Lyon.
Simone de Beauvoir pelo francês Thierry Ehrmann, criador do projeto Demeure du Chaos, em Lyon.

Considerado marco inicial da chamada segunda onda feminista, O Segundo Sexo, de Simone de Beauvoir, foi publicado em 1949. Seu argumento central – de que você não nasce uma mulher, mas sim é moldada em uma mulher através de construções criadas por homens – foi revolucionário na época e o livro se tornou um best-seller instantâneo, vendendo mais de 20 mil cópias na primeira após o lançamento.

Ao explorar temas como sexo, trabalho e família, além de prostituição, aborto e a história da subjugação feminina, de Beauvoir desafiou a noção dos homens como princípio e das mulheres como “resto”, e argumentou contra as tentativas de dizerem às mulheres como devem ser ou se comportar. Ela acreditava que a independência financeira era a chave para que as mulheres se libertassem deste status de segunda classe.

O Segundo Sexo inspirou incontáveis mulheres, incluindo feministas como Gloria Steinem e Doris Lessing, além da escritora franco-marroquina Leïla Slimani, que escreve um verdadeiro manifesto de celebração à obra. Slimani explica como de Beauvoir influenciou sua história, a de uma garota nascida em um dos países mais difíceis para ser mulher, o Marrocos. Confira abaixo a tradução exclusiva deste, que é o mais recente artigo de Slimani ao The Times.

Leïla Slimani é a conferencista do Fronteiras do Pensamento 2018 da próxima semana. Envie sua pergunta para a autora através do e-mail digital@fronteiras.com até a manhã do dia 18, segunda-feira. Garanta sua participação nas conferências desta edição, que acontecem em Porto Alegre e São Paulo.

Leïla Slimani: Simone de Beauvoir mudou minha vida

O que significa ser uma garota? Aos 16 anos, eu era obcecada por essa questão. Eu achava que ser uma garota significava ser impotente e ter menos direitos que os garotos. Parecia óbvio, porque quando eu perguntava por que não podia fazer uma determinada coisa, a resposta era: “Isso não é coisa de menina”.

Eu tenho duas irmãs, e não raro eu escutava alguém se comiserando com meu pai por ele não ter filhos homens. Eles riam disso, mas, para ser franca, nunca achei graça disso. Quando eu ainda era uma garotinha e vivia no Marrocos, as mulheres podiam ser dispensadas com umas poucas palavras. Elas não podiam viajar sem a permissão de seus maridos, não podiam transmitir sua nacionalidade aos próprios filhos e, em caso de divórcio, perdiam a custódia de forma automática. Perante um juiz ou qualquer outra figura eminente, seus depoimentos só valiam a metade daquele de um homem. Em caso de herança, elas só recebiam 50% do valor destinado ao seu irmão.

Era isso que significava ser uma garota. Claro que eu ficava revoltada, mas meu desconforto vinha de algum lugar mais profundo. Eu tinha dificuldade para identificar isso de forma clara, o que tornou as coisas ainda mais sombrias e desagradáveis para mim naquela época. Aos 16 anos, eu queria ser um garoto, porque os garotos e os homens me pareciam livres. Como garota, eu sentia que o meu caminho já havia sido traçado. Um caminho para as boas garotas, amáveis e dóceis; um caminho para garotas que desejavam defender suas reputações e escutar os conselhos de seus pais; um caminho para as garotas destinadas a serem mantidas dentro de suas casas – o mundo não havia sido feito para elas. Essas garotas se tornariam mães dedicadas às suas famílias, mas nada além disso. Eu não queria trilhar esse caminho. De modo algum.

Em Rabat, quando eu era mais nova, eu não passeava pelas ruas. Eu não frequentava cafés. Os únicos cafés que conhecia estavam nos romances que eu devorava, romances que me forneceram horizontes imensos e ilimitados. E um belo dia, entre as páginas de um livro, deparei-me com Simone de Beauvoir. Deparei-me com uma foto dela sentada no Café de Flore [foto, com Sartre] com uma pilha de livros à sua frente, o rosto ligeiramente inclinado, o cabelo preso firme em um coque, vestindo um traje elegante. Foi a primeira vez que ouvi falar nela. Olhei para ela e entendi que era uma intelectual, e uma personalidade independente que, ainda adolescente, ousou declarar a uma de suas amigas que um dia se tornaria uma escritora famosa.

Após ter descoberto essa foto, peguei O Segundo Sexo emprestado na biblioteca. Eu achava estar prestes a ler um livro erótico e libertino, que responderia às questões que assombravam e ardiam dentro daquela garota de 16 anos. Lembro-me de ter corado ao retirar o livro. Mas, devo admitir, as primeiras páginas foram uma decepção: não tratavam de amor, sexo ou prazeres como eu esperava. Mas eu persisti, e fiz bem em fazê-lo. O livro foi uma revelação para mim. Essa revelação veio de um ponto de vista fotográfico: por exemplo, quando você vê uma verdade saltar de uma página ainda intocada. A página ainda é desconhecida, mas fica galvanizada com a energia da descoberta em si, com o entusiasmo arqueológico gerado por aquela extraordinária escavação. Então, Simone de Beauvoir esclareceu para mim uma verdade inexplorada, que até então permanecera em silêncio no escuro. E me pareceu que ela própria se dava conta disso durante o próprio processo de escrita e, de algum modo, no exato momento em que eu lia aquelas palavras. Era como se o tempo da escritora coincidisse com o da leitora.

Ao longo do manuscrito, devido a um inesperado espelhamento, a leitora pode ver a consciência de Simone, que nasce e nos guia com seu poder próprio. Um diálogo vem à tona. Ao ouvir de seu companheiro, o filósofo Jean-Paul Sartre, que teria se tornado feminista durante a escrita do livro, a autora respondeu a ele que havia se tornado feminista no instante em que o livro passara a ter um significado para outras mulheres.

beauvoir

Em A Força da Idade, ela explicou que jamais havia se sentido inferior, que sua feminilidade jamais a incomodara. Quando começara a escrever O Segundo Sexo, não se considerava feminista. Seu status enquanto mulher livre e independente levou-a a acreditar até mesmo que não havia nenhuma especificidade atrelada ao gênero. Foi Sartre quem a lembrou de que ela não havia sido criada da mesma forma que um garoto, e que essa questão precisava ser analisada com mais cuidado. Então, ela teve uma epifania: o mundo era um mundo masculino, e sua infância havia sido alimentada por mitos inventados ou escritos por homens (A Força das Coisas).

Àquela altura, Simone partiu em uma espécie de jornada antropológica com o objetivo de compreender o que nos torna mulheres. O projeto era mais do que ambicioso: era vertiginoso. E o resultado foi de tirar o fôlego, pois ela decidiu explorar, de forma sistemática e exaustiva, da infância à terceira idade, o desenvolvimento das mulheres. Ela examinou o que o mundo permite ou impede uma mulher de fazer, as fronteiras, as oportunidades, as inconveniências e o florescimento com que são confrontadas. Ela explorou a biologia, a história, a mitologia, a literatura, a etnologia, a medicina e a psicanálise. E essa abordagem global já era em si emancipatória. Graças à Simone, a história das mulheres se tornou digna de um volume enciclopédico. Enquanto eu lia o livro, senti que reconquistava o meu próprio destino.

Questionada certa vez sobre por que não havia salvado mais escravos, a famosa abolicionista norte-americana Harriet Tubman respondeu: “Se eu tivesse convencido mais escravos de que eram escravos, poderia ter salvo outros milhares”. A força de O Segundo Sexo reside em parte no fato de que sua leitura é uma maneira para que cada mulher perceba e entenda o que significa de fato ser mulher. Uma vez cientes de que não estamos acorrentadas, torna-se possível lutar pela emancipação, pois agora sabemos do que são feitas essas correntes. Coisas que eu costumava considerar naturais, talhadas em pedra, nada mais eram que narrativas históricas. Minha submissão instintiva e social não se devia a qualidades ou fraquezas diretamente relacionadas ao meu gênero, mas a eras e eras de dominação patriarcal. Eu não havia nascido mulher, mas tudo ao meu redor havia conspirado para que eu me tornasse uma. 

O Segundo Sexo me trouxe uma certeza: eu queria ser a única atriz de meu destino. Não existe um status feminino imutável, e somos aquilo que fazemos. Somos as nossas ações humanas. Partindo dessa base, podemos – como Simone expõe de forma bela – reclamar direitos humanos completos para as mulheres. O feminismo surgiu para mim como uma forma de reivindicar o poder, e O Segundo Sexo foi uma resposta ao desejo de me reinventar. O livro me forneceu ferramentas para compreender, me defender, argumentar e persuadir; ele me encorajou a me tornar escritora, no sentido de que escrever é um exercício para a nossa autoconquista e para recuperar a dignidade perdida. Simone não escreveu também, em A Força da Idade, que a liberdade é uma tremenda fonte de criação, a qual devemos proteger e desenvolver para tornarmos o mundo melhor?

O livro continuou a me fazer companhia, e voltei às suas páginas durante diferentes estágios da minha vida. Eu o reli após me tornar uma jovem mãe. Lembrei-me de que as boas meninas dedicavam suas vidas inteiras ao amor. Elas cuidariam apenas do bem-estar alheio, e seriam retribuídas com um sentimento de plenitude. Eu tinha vergonha de admitir que não me sentia plena com esse sentimento. Enquanto escrevia meu romance Chanson Douce [Canção de Ninar], outra frase de Simone me veio à mente:

“Como apenas o trabalho doméstico é compatível com as obrigações da maternidade, ela está condenada ao trabalho doméstico, que a aprisiona na repetição e na imanência; os dias se repetem de forma idêntica, século após século; nada de novo surge.”

Uma sentença cruel que apresenta a maternidade como uma experiência repetitiva e inútil, ou como uma prisão da qual ninguém ousaria escapar. Uma sentença cruel que finalmente me libertou! Então vi a vocação maternal como o que era de fato: um mito, um elemento-chave da ideologia patriarcal para encapsular as mulheres em determinados papéis.

A modernidade de Simone de Beauvoir também reside em sua intuição profunda de que uma mulher independente se dividiria ao meio entre suas metas profissionais e sua vida pessoal, que teria dificuldade para encontrar o equilíbrio certo entre as duas coisas e que pagaria um preço alto por isso – concessões, sacrifícios e uma grande carga de tensão.

A filósofa fez um alerta àquelas que achavam que a batalha já estava vencida. Direitos são essenciais, mas não são o suficiente. A verdadeira igualdade precisa encontrar expressão na vida real e não apenas na linguagem, na literatura e nos mitos construídos para as gerações futuras.

beauvoir nelson

Enquanto vivemos este incrível período de proliferação intelectual, em que questões de gênero, do lugar das mulheres na sociedade e de sexualidade são tão relevantes, precisamos ler a obra de de Beauvoir outra vez. A igualdade não porá em risco a relação entre homens e mulheres; pelo contrário, irá lhe conferir uma nova vitalidade. A vida de Simone é um perfeito exemplo disso: enquanto escrevia O Segundo Sexo, seu amor, Sartre, pôde coexistir com sua relação íntima intimidade com Jaques-Laurent Bost e sua paixão romântica por Nelson Algren [na foto, com de Beauvoir]. Sua conclusão é bela para aqueles que temiam que o feminismo acabaria por esvaziar as relações:

“Emancipar as mulheres é recusar que sejam prisioneiras das relações que mantêm com os homens, mas não negar tais relações. [...] a reciprocidade nas relações não desfará os milagres que residem na divisão dos seres humanos em duas categorias distintas: desejo, possessão, amor [...] pelo contrário: justamente quando a escravidão de metade da humanidade for abolida – e, com ela, todo o sistema hipócrita que ela presume – a “divisão” da humanidade revelará seu autêntico significado, e os casais humanos descobrirão sua verdadeira forma.”


LEMBRE-SE| Leïla Slimani é a conferencista do Fronteiras do Pensamento 2018 da próxima semana. Envie sua pergunta para a autora através do e-mail digital@fronteiras.com até a manhã do dia 18, segunda-feira. Garanta sua participação nas conferências desta edição, que acontecem em Porto Alegre e São Paulo.

>> Acesse o libreto especial de Leïla Slimani, autora do best-seller Canção de Ninar
O libreto inclui biografia, links indicados e informações de destaque sobre a conferencista.