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Leonardo Padura: Qual o futuro do jornalismo?

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“O jornalismo é uma necessidade social”, determina Leonardo Padura, considerado um dos maiores autores de Cuba. O escritor criou roteiros para o cinema e atuou por 15 anos na área do jornalismo investigativo.

Porém, a análise de Padura sobre o futuro do jornalismo não é nada boa. Elementos que eram fundamentais à profissão se perderam nos últimos anos. Categorizações, avaliações, linhas editoriais, chefes de redação, tudo foi bagunçado, argumenta o escritor cubano.

Ainda, a mudança do papel para a tela transformou radicalmente a relação da informação com o leitor, diz ele. A quantidade de opiniões e de fatos circulantes é imensa e o poder de um nome na análise dos fatos foi se reduzindo. Paradoxalmente, a chamada “grande mídia”, os veículos mais tradicionais, se reduziram a alguns poucos grupos, que detêm grande poder.

Em meio a este diagnóstico assumidamente pessimista, Leonardo Padura reflete sobre possibilidades e sobre o futuro do jornalismo neste mundo de telas e de pós-verdades.

Leonardo Padura abrirá o Fronteiras do Pensamento Salvador deste ano.

Além da conferência com Padura, o projeto ainda promoverá uma conferência com o filósofo Pierre Lévy e um debate especial entre a filósofa Djamila Ribeiro e a historiadora Lilia Schwarcz. As vagas estão abertas e os lugares são limitados.

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Leonardo Padura | Qual o futuro do jornalismo?

O jornalismo é uma necessidade social. Não só para informar, mas também porque é um espaço onde se pode fazer uma reflexão mais ou menos imediata sobre o que está acontecendo na realidade.

A literatura sempre precisa de um espaço de tempo para refletir e transformar isso em uma linguagem artística. O jornalismo trabalha com um certo imediatismo e tem uma presença muito onipresente, porque, hoje em dia, com os meios que existem, bom, não é preciso ter apenas o jornal de papel.

Se você quiser ler o Le Monde ou qualquer jornal de qualquer lugar do mundo, você o tem na internet. O que acontece é que estamos em um momento em que houve uma mudança de plataforma, que é também uma mudança de paradigmas, que também é uma mudança econômica no jornalismo, que de alguma forma perdeu a função que por quase cem anos a imprensa teve.

Hoje em dia, o espaço tradicional do jornal não tem mais a função que tinha até 20 anos atrás. Atualmente, as redes sociais, os blogs, as edições digitais dos jornais mudaram completamente esse modo de se relacionar entre o jornalismo e o leitor.

Mas é também um território que, de tão democrático, o território digital tem a possibilidade de que qualquer um possa intervir nele. As categorizações foram perdidas, as avaliações foram perdidas.

Sempre em um jornal havia uma figura que era o diretor ou o chefe de redação, que era um mediador entre o jornalista e o leitor. Porque tentavam manter uma linha editorial e uma qualidade no que se dizia.

Hoje, há uma grande confusão, porque todo mundo opina e todo mundo publica. No Facebook e no Twitter circulam uma enorme quantidade de opiniões, às vezes de informações, e isso torna muito difícil ter o peso da opinião que os jornais tinham até alguns anos atrás.

Além disso, como aconteceu todo esse fenômeno, muitos jornais, jornais de prestígio buscaram alternativas econômicas e uma das alternativas econômicas foi, inclusive, aposentar, para retirar dos jornais os antigos jornalistas que ganhavam salários melhores e trazer jovens recém-formados para ocupar esses espaços sem ter a experiência, o conhecimento que esses outros jornalistas acumularam ao longo dos anos.

É preciso repensar o jornalismo. Eu também estou um pouco pessimista sobre isso, porque nós não podemos, por princípio, não podemos restringir a liberdade de expressão. Esse é um princípio. Mas, por princípio, também deveríamos respeitar a verdade e a confiança do leitor.

Hoje falamos em pós-verdades ou falsas verdades. Em suma, falamos sobre coisas que são inimagináveis ou que aconteciam apenas em espaços muito diabólicos da comunicação.

Mas, hoje isso se estabeleceu como parte do jogo da informação, da opinião que circula, e faz com que grandes confusões sejam geradas.

Acrescenta-se a isso que também houve uma concentração da informação, de outro tipo de informação, da supostamente mais autorizada em grandes grupos editoriais que são grandes grupos de poder e que são grandes lobbies econômicos. Isso faz com que o interesse de um setor social ou econômico específico domine a informação em determinados espaços, que podem ser desde jornais, televisão, estações de rádio e espaço na internet.

Então, há realmente uma situação em que acredito que os mais afetados são as pessoas que consomem notícias, os leitores. Porque, de cada história, há muitas verdades e somos incapazes de saber qual é a verdade que mais se aproxima da verdade.

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