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Lições de Kafka e Nabokov

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O que um besouro pode nos ensinar sobre a vida? Talvez, tudo, se este besouro for Gregor Samsa, uma das mais famosas personagens de Kafka. A complexidade (e profundidade) da obra A Metamorfose é tanta, que mobilizou outro grande escritor, Vladimir Nabokov (1899-1977), conhecido por Lolita.

Nabokov estudou a fundo o livro de Franz Kafka e criou com uma série de rascunhos em que tentava desvendar em qual inseto Gregor Samsa havia se metamorfoseado. Seria uma barata? Um besouro? Bem, Nabokov está convencido de que é um inseto pertencente à linhagem dos artrópodes. Mas, mais ainda, de que estamos lendo sobre a alma de um artista, um gênio, que está rodeado pela mediocridade.

Sua análise da novela de Franz Kafka, cujo excerto você lê logo abaixo, integra o volume Lições de Literatura, publicado no Brasil pela editora Três Estrelas, com tradução de Jorio Dauster.

Outro grande nome da literatura se interessou pela questão. Foi o britânico Ian McEwan, que reuniu os dois autores em uma bela fala sobre a arte de ler e de escrever no Fronteiras do Pensamento. A reflexão de McEwan sobre as lições de Kafka e Nabokov você assiste ao final da análise do escritor russo, sobre qual inseto teria Samsa se transformado.

"... Curiosamente, o besouro Gregor nunca percebeu que tinha asas debaixo do duro invólucro de suas costas. (Essa é uma interessante observação minha que vocês devem guardar por toda a vida: alguns Gregors, alguns Joes e algumas Janes não sabem que têm asas.) Ademais, ele possui fortes mandíbulas, que usa para fazer girar a chave na fechadura enquanto se ampara nas pernas de trás, o terceiro e poderoso par de pernas. Daí se deduz que seu corpo mediria cerca de noventa centímetros. No curso da história, ele gradualmente se acostuma a usar essas extremidades - pés e antenas. Esse besouro marrom, convexo e do tamanho de um cachorro é bem largo. Imagino que tenha a seguinte aparência:


No original em alemão, a velha arrumadeira o chama de Mistkäfer - besouro rola-bosta. É óbvio que a boa senhora está lhe dando esse nome só para ser simpática. Tecnicamente, ele não é um besouro rola-bosta. É simplesmente um besouro. (Devo acrescentar que nem Gregor nem Kafka viram esse besouro com total clareza.)

Examinemos mais de perto a transformação. A mudança, embora chocante e notável, não é tão estranha quanto possa parecer à primeira vista. Um observador de bom senso (Paul L. Landsberg em The Kafka Problem. Ed. Angel Flores, 1946) comenta: "Quando vamos para a cama em um local desconhecido, é comum termos um momento de pasmo ao acordar, uma repentina sensação de irrealidade, e essa experiência deve ocorrer muitas e muitas vezes na vida de um caixeiro-viajante, um modo de vida que torna impossível qualquer senso de continuidade".

O senso de realidade depende da continuidade, da duração. Afinal, acordar como um inseto não é muito diferente de acordar como Napoleão ou George Washington. (Conheci um homem que acordou como imperador do Brasil.) Por outro lado, o isolamento e o afastamento da chamada realidade são aquilo que, em última análise, caracteriza constantemente o artista, o gênio, o descobridor. A família Samsa em torno do fantástico inseto nada mais é do que a mediocridade circundando o gênio.