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Luc Ferry: da nostalgia à compreensão do presente

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Luc Ferry (Getty Images)
Luc Ferry (Getty Images)

Contrário às teorias pessimistas sobre o esvaziamento de valores do século XXI, Luc Ferry propõe outro olhar sobre a humanidade.

A ausência de um deus ou da razão, como princípio fundador, teria aberto espaço - com a evolução da história da família - para a importância primordial que hoje é dada à busca pelo amor.

O intelectual francês denomina essa nova dimensão do comportamento humano de espiritualidade laica e a elabora na obra A revolução do amor: por uma espiritualidade laica (Objetiva, 2012).

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O livro é também um alerta: nenhuma vida humana é boa se não aceitarmos a morte. O sábio a aceita para assim vencer o medo. Viver sem medos, na revolução do amor de Luc Ferry, é ensinar o homem a viver bem, a viver com a mão das escolas gregas da Antiguidade, a viver, finalmente, sob o sentido do amor.

No excerto da obra que divulgamos abaixo, Luc Ferry discorre sobre as mais incontáveis rupturas que ocorreram nas últimas décadas, lembrando do passado que se foi e explicando como se edifica o pensamento filosófico.

Ah, os bons e velhos tempos. 


Luc Ferry | A revolução do amor

Até mesmo em seu aspecto puramente teórico, a filosofia não se reduz, como com frequência se ensina no final do ensino médio, a uma análise crítica de noções, a uma simples prática da reflexão e da argumentação. Com profundidade que continua absolutamente atual, Hegel a definia primeiramente e antes de tudo como a “inteligência" ou a “compreensão daquilo que é", “ihre Zeit in Gedanken erfasst".

Quer dizer que sua tarefa primeira é nos permitir ter uma representação o mais exata e sensata possível do mundo no qual vamos viver, porque é este mundo que constitui o campo onde nossa existência acontecerá. É, portanto, pela compreensão da época presente que temos de começar.

Ora, evidentemente, o século XX europeu — se deixarmos de lado as catástrofes totalitárias para considerar apenas seu decurso quase “normal" — foi inicialmente caracterizado no plano moral, cultural e político por uma gigantesca onda de “desconstruções".

Embora não percebamos mais, a tal ponto as mudanças e inovações nos parecem agora indiscutíveis, vivemos um século diferente de qualquer outro, um século que, do ponto de vista da crítica dos valores e das autoridades tradicionais, não se parece absolutamente com nenhum outro. Basta que se olhe com distanciamento para a história da alta cultura para se avaliar a amplitude das revoluções das quais nosso continente foi teatro.

Há apenas um século, desconstruímos a tonalidade na música, com Schönberg e o dodecafonismo. Também abandonamos a figuração na pintura, com o surgimento da arte moderna, por exemplo, com o cubismo de Picasso e o abstracionismo de Kandinsky, para lembrar apenas os pais fundadores mais marcantes.

Ao mesmo tempo, as regras clássicas da literatura se transformaram, com Joyce e o Novo Romance, bem como as do teatro, com Beckett, Ionesco; as da dança, com Béjart e Pina Bausch.

Muito além do campo artístico, as figuras tradicionais do superego, da moral convencional, religiosa ou “burguesa" foram abaladas em nossa história.

Vamos nos deter um pouco no caso da literatura, pois sem dúvida ele abarca um público maior ainda que o dos outros setores da vida cultural, nem que seja por seu envolvimento com a democracia em nossas escolas.

O que é, na verdade, o romance clássico desde a princesa de Clèves até as grandes obras do século XIX, de Stendhal, Balzac, Flaubert ou Zola? Era um bom enredo, uma “bela história", como se diz despretensiosamente, um bom roteiro com personagens “bem sólidos", com uma psicologia profunda e refinada, cujas aventuras históricas ou sentimentais tinham a preocupação de melhor compreender a si e aos outros, de ainda entender as engrenagens da vida interior como as do mundo tal como é.

O romance apresentava “grandes experiências humanas", amorosas, afetivas, sociais, históricas, políticas, em resumo, “mundanas" no sentido mais forte do termo.

Tudo isso se fragmenta com o Novo Romance, que se dispõe a retomar a fórmula que Kandinsky aplica ao conjunto da arte moderna: descrever a “exata vida interior do eu", por exemplo, o fluxo incoerente e semiconsciente dos pensamentos, a livre associação de ideias e de imagens que nos invadem de modo caótico ao sabor de uma viagem, num trem ou num avião, e que ignoram as regras conscientes e disciplinadas da cronologia e do enredo tradicionais...

Não se preocupem, não vou entrar aqui na teoria do Novo Romance, qualquer que seja sua importância. Também não desejo opinar “pró ou contra", muito menos especular sobre a nostalgia.

O que quero mostrar é a que ponto, num espaço de tempo inacreditavelmente curto — alguns decênios apenas —, os princípios tradicionais de uma cultura clássica que para alguns eram válidos havia séculos ruíram com o nascimento, em sentido amplo, da “arte moderna".

Se observarmos a vida cotidiana — e não mais apenas uma esfera que poderiam alegar ser ainda elitista —, veremos que as transformações são, se possível, ainda mais impressionantes.

Para lembrar um sentimento ao mesmo tempo pessoal e comum, eu lhes direi simplesmente que a aldeia na qual passei minha infância, não muito distante de Paris, talvez tenha mudado mais em cinquenta anos do que em quinhentos.

Quando digo às minhas filhas que naquela época, naquele pequeno povoado, não havia carro exceto o do prefeito, o senhor Pain, que possuía uma “tração dianteira", e o de meu pai, porque ele era piloto de corrida; que apenas algumas carroças puxadas por cavalos percorriam as ruas; que se ia comprar pão e leite não no supermercado, mas na fazenda, onde se presenciava a ordenha das vacas; que as mulheres lavavam roupa num tanque com bastões que se assemelhavam a grandes raquetes de pingue-pongue; quando lhes conto que os camponeses colhiam o feno com um foicinho e cortavam o trigo maduro com uma foice; que eles amarravam os feixes de trigo com um barbante e os juntavam em montes que nos serviam de casinha, elas me olham como se eu viesse de outro planeta...

Se acrescento que meus irmãos e eu brigávamos de manhã pelo privilégio de moer o café num pequeno moedor com uma gaveta que exalava um cheiro delicioso, elas não têm como partilhar minha experiência, simplesmente porque só viram esse moinho num antiquário, ou num museu. A não ser na bandeira do partido comunista (e também nesse caso é preciso se apressar), elas nunca viram uma foice. Aliás, a expressão “cortar o feno" também não lhes diz absolutamente nada.

Nosso mundo viveu o que os historiadores chamam de “fim do campesinato": não apenas a substituição do camponês pelo agricultor, mas ainda uma diminuição em número sem precedentes. Havia aproximadamente 6 milhões de camponeses na França dos anos 1950; hoje, restam apenas 600 mil.

Para lembrar outro indicador, e não dos menores, é igualmente a condição feminina dessa época não tão distante que elas não conseguem compreender. Porque a situação das mulheres, pelo menos no Ocidente, certamente mudou mais em cinquenta anos do que em quinhentos.

Quando eu lhes digo que até 1975, na França, uma esposa, salvo se determinado no contrato de casamento, devia pedir permissão ao marido para abrir uma conta no banco e até mesmo para tomar pílula, que, aliás, só foi legalizada a partir de 1967, elas pensam mais no mundo dos Flintstones (isso elas conhecem...) do que na vida contemporânea.

E se eu acrescentar que o último cantão da Suíça —país "moderno" e democrático que elas visitaram e que se parece com todos os países "civilizados" — concedeu às mulheres o direito ao voto apenas em abril de 1991, elas podem até cair para trás.

No mesmo sentido, mas invertendo os papéis entre jovens e velhos, se eu tivesse dito ao meu avô, que lutou na Primeira Guerra, que um dia haveria mulheres pilotos de caça ou comandantes de um torpedeiro, ele sem dúvida teria morrido de rir.

Os que têm a minha idade, ou um pouco mais, devem se lembrar do modo como era recebida nos colégios a infeliz moça que, como se dizia então sem pestanejar, "tinha se perdido" e engravidado antes do casamento.

As pessoas grandes, para falar como o Pequeno Príncipe, a chamavam de "mãe solteira" com desdém e até com nojo. Inútil dizer que era o maior drama nas famílias e, claro, motivo de expulsão na maioria dos estabelecimentos escolares.

Hoje, as mulheres ministras na Europa têm filho sem se casar e ninguém se choca de jeito nenhum — coisa que seria absolutamente impensável ainda no tempo do general De Gaulle. Poderíamos dar mil outros exemplos dessas transformações.

Lembremo-nos, por exemplo, dos filmes em preto e branco que, antes ou logo depois da guerra, representavam estabelecimentos escolares: Les disparus de Saint-Angil (Os desaparecidos de Saint-Angil), ou ainda Topou de Pagnol, encarnado no cinema nos anos 1930 por Jouvet, com seu famoso ditado "cameiirosss que passtaam no prado", enunciado num silêncio de catedral, diante de uniformes religiosamente inclinados sobre carteiras de madeira com furo para tinteiro de porcelana branca cheio de tinta violeta.

Comparemos o ambiente das turmas daquela época, cheias de respeito e humildade, com a que mostra um filme como Entre os muros da escola, no qual um infeliz professor se debate como um louco diante das grosserias que mal se compreendem de uma turma enlouquecida.

Mais uma vez parece quase impossível medir o abismo que separa as duas cenas. Se aparecesse diante de uma turma de hoje, o bravo Topaze, professor com o qual implicavam, teria uma síncope...

Cada um pode completar como quiser a lista de exemplos deste século de rupturas.

Podemos pensar em revoluções mais "objetivas", técnicas ou científicas, começando, evidentemente, pela digital e pela internet, mas também pela genética ou pela contracepção.

É evidente — e é aí que eu quero chegar — que o século XX foi um século de inovações e de tábula rasa, de mudanças e de desconstrução dos valores e das autoridades tradicionais, a nenhum outro igual. Ele agiu sobre elas corno um ácido superpotente, e sua erosão é hoje tão profunda que, a rigor, não a percebemos mais.

É por isso que vocês me desculparão por lembrar com insistência algumas dessas perturbações, simplesmente para que vocês as relembrem e as tornem objeto de reflexão. Tanto quanto se pode julgar a partir de documentos escritos, nunca na história da humanidade se viu semelhante revolução de costumes, semelhante mutação na vida cotidiana e nas mentalidades.

Não estou certo de que avaliamos suficientemente as formidáveis rupturas que tudo isso representa em relação aos valores tradicionais ainda recentemente percebidos quase como sagrados pela maioria de nossos concidadãos.

Pequena observação entre parêntesis para evitar um mal-entendido que pode comprometer a compreensão do que vem a seguir.

Como lhes disse, e gostaria de insistir mais uma vez, não estou querendo dar o usual golpe da volta "aos bons e velhos tempos". Não se enganem.

Não é absolutamente a intenção, apesar do tom sempre um pouco nostálgico que acompanha quase inevitavelmente a lembrança dos tempos de infância. Além do mais, a nostalgia também não deve ser inteiramente tabu. Seria ridículo e intelectualmente desonesto.

Como não ser um pouco nostálgico quando se teve, como eu, uma infância no campo? Como não lembrar aquelas paisagens, ainda carregadas de cheiros, de flores, de insetos e de animais atualmente desaparecidos?

Como não lamentar, ao menos eco alguns casos, o tempo em que a civilidade na escola e nos bairros, com os pais ou professores, bem como com os motoristas de ônibus, era quase natural?

Acontece que não é sobre a nostalgia que se constrói a compreensão do tempo presente; também não é com base nela que se pode edificar um pensamento filosófico, e muito menos um projeto político.

Por enquanto, tento simplesmente compreender, não julgar.