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Lupin mostra o preço de ser salvador da pátria e virar vítima de um canalha

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Imagem: divulgação
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Duas ideias atravessam toda a modernidade e nos deixam, no fim desse percurso, totalmente convencidos de sua verdade. A primeira ideia diz que o que é coletivo, sobretudo a lei, que regula a vida comum, é podre. A segunda, complementar, diz que essa podridão justifica a violência do indivíduo, que pode e deve, claro, tomar as coisas em suas próprias mãos.

Na Inglaterra do século 12 —ou por aí, você imagina que as fontes não sejam completamente fidedignas—, na floresta de Sherwood vivia um tal de Robin Hood, de quem certamente você já ouviu falar. Robin roubava dos ricos, os quais se enriqueciam injustamente, para devolver esse dinheiro aos pobres.

Discute-se para imaginar o que ele quisesse com isso: contestar a autoridade constituída? Ele mesmo, quem sabe, tomar esse lugar de mando explorador (como mais tarde fez Pablo Escobar, por exemplo)? Declarar sua fidelidade ao dono legítimo do país que não se sabia mais onde estava (as Cruzadas tinham singularmente atrapalhado os endereços oficiais de todo o mundo)? Enfim, alguns dizem que Robin Hood talvez fosse ou pretendesse ser um filho de Ricardo Coração de Leão. Outros dizem que Robin era um perigoso vigarista que tentava usurpar um trono.

O fato é que, quase sempre, na cavalgada dessas duas ideias pela história da modernidade, a grandíssima habilidade na luta, no pelejar, no engano se acompanha sempre de uma espécie de fidelidade canina à autoridade supostamente legítima (no caso os pobres, ou Ricardo Coração de Leão) —o que parece uma virtude inesperada em alguém que, salvo isso, define-se sobretudo como um rebelde.

A história de Arsène Lupin é uma produção da belle époque que não tem nada de genial e que continua tendo um tremendo sucesso na França e na Europa —não tanto pela qualidade narrativa dos novos roteiros que são regularmente inventados, mas pela própria ideia de Lupin, que sempre funciona.

Um pouco como disse antes, duas ideias, sempre as mesmas: a corrupção generalizada do poder e a fidelidade a uma mítica e única autoridade legítima que nos ofereceria uma chance de redenção.

Hoje,Lupin é uma nova série da Netflix de notável sucesso, e não só no Brasil, o que é surpreendente porque Lupin é incrivelmente brasileiro. É um entretenimento perfeito para o Brasil —mais uma manifestação das ideias fundamentais expressas por Sérgio Buarque de Holanda desde “Raízes do Brasil”: o país sofre de uma confusão radical entre público e privado.

Não se deixem iludir: Lupin não rouba para os outros, aliás, no fundo ele nem sequer rouba. O que lhe interessa é resgatar a honra de seu pai. Ou seja, trazer de volta a decência depois de ter revelado que a corrupção impera.

Mas o fundo da questão é o mesmo. Tudo o que é bom vem do particular, do privado (amizade, fidelidade etc). Tudo o que é ruim vem do coletivo e da gestão do poder público. Por que essa história é tão forte? Por que gostamos tanto de pensar que o único fundamento da moral deveria ou poderia ser o foro íntimo de cada um?

Em 1947, Horkheimer escreveu um pequeno livro que é a introdução mais interessante e singela aos grandes temas da Escola de Frankfurt, “O Eclipse da Razão”. E o grande tema é o que acabo de lembrar: o caráter privado, particular, dos fundamentos da moralidade. Horkheimer descobre que a razão individualista é intransponível na fase da história e da cultura em que vivemos e nos torna necessariamente cínicos.

Se eu lhe digo “é um mundo de absoluta corrupção, em que cada um só acredita nos valores morais que lhe convém”, você só vai concordar com isso quando eu lhe mostrar que todos agem por interesses escusos. Ou seja, para que exista um mundo de Arsène Lupin e Robin Hood é preciso que Robin e Lupin sejam, cada um à sua maneira, ambos corruptos. A razão individual só se confirma quando aparece que, de fato, todos são podres. Por isso, no caso, a razão individual é sempre profundamente cínica.

Provavelmente é por isso que a descoberta periódica que o nosso último salvador da pátria era um corrupto é sem consequência. Para encarnar a razão individual, é preciso que se seja um corrupto. Ou seja, quem se entrega a um salvador da pátria mais cedo ou mais tarde vai ser vítima de um canalha. Mas cuidado: não é uma razão para não adorar Arsène Lupin em sua nova versão e gozar do nosso cinismo leve, quase leggero.