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Manifestações pela liberdade e pelos direitos humanos

Conferencista confirmado no Fronteiras do Pensamento 2018, o artista chinês Ai Weiwei é um dos principais símbolos da liberdade de expressão. Em suas mãos, a arte é instrumento de crítica e de informação, mobilizando sociedades contra todo poder que pretende silenciar pessoas, fatos e conhecimento. Faltam poucos dias para o início da temporada de conferências. Garanta sua participação na edição deste ano. Plantão de vendas aberto no fim de semana: 4020.2050!

Por Francisco Dalcol | O Instagram de Ai Weiwei é uma avalanche de imagens. Seus milhares de seguidores acompanham desde selfies nos lugares do mundo da arte por onde circula até fotos postadas em acampamentos de refugiados pelo planeta. Mas o que pode parecer um reality show narcisístico é também o holofote que o mantém visível, como prova de uma liberdade há pouco reconquistada e ainda incerta.

Um dos mais provocativos artistas contemporâneos, Weiwei é um dissidente do governo chinês. Ao longo de mais de duas décadas, tem guiado sua produção por um forte ativismo político. Começou abordando os abusos de poder na China e amplificou em escala global sua reivindicação pelas liberdades de expressão, pelos direitos humanos e pela democracia. Causas que tomou para si a partir da própria trajetória de vida.

Filho de um poeta perseguido pelo regime chinês, tinha um ano quando a família foi transferida para campos de trabalho. Cresceu em exílio no próprio país até, que em 1976, aos 19 anos, o fim da revolução cultural chinesa permitiu o seu retorno a Pequim. Essa experiência é fundamental para a compreensão de sua obra, assim como também é a mudança para Nova York, onde viveu de 1981 a 1993.

Foi no retorno à China que ficou conhecido internacionalmente pela verve radical e iconoclasta, despertando também a ira das autoridades chinesas. São dessa época as fotografias em que aparece encenando a quebra de cerâmicas milenares (Dropping a Han Dynasty Urn, 1995) e a série em que aponta o dedo médio diante de monumentos e símbolos de poder, como a Praça da Paz Celestial, palco do massacre de 1989 (Study of Perspective, 1995-2017).

Já nesses trabalhos, Weiwei estabelece um procedimento-chave em sua produção. Trata-se do modo como aborda o passado e o presente da China, apropriando-se de linguagens ocidentais. Ele recicla gestos dadaístas ao estilo de Marcel Duchamp e estratégias da pop art ao modo Andy Warhol, lançando mão de operações conceituais que endereçam às suas obras um tremendo potencial de comunicação. Um exemplo é a série em que dota objetos artesanais de valor artístico ao estampá-los com o logotipo da Coca-Cola e expô-los como obra.

Ai Weiwei também questiona a sobrevivência das tradições frente à padronização dos bens de consumo na atual China exportadora. É o caso da emblemática Sunflower Seeds (2010). Apresentada na Tate Modern de Londres, a imensa instalação era composta de 150 toneladas de réplicas de sementes de girassol em porcelana. As 100 milhões de peças foram esculpidas e pintadas manualmente durante dois anos e meio por 1,6 mil artesãos que estavam tendo seu fazer ancestral ameaçado pela produção industrial.

Por essa época, Weiwei já estava sentenciado a ser perseguido pelo governo chinês. Em 2008, fez um documentário investigando a omissão das autoridades na tragédia do terremoto de Sichuan, no qual morreram 70 mil pessoas. O artista especulava a responsabilidade pelas mortes de estudantes em escolas construídas em condições precárias. O projeto envolveu uma rede de cooperação na internet para reunir os nomes dos mortos, resultando na listagem de 5.385 crianças.

O que se seguiu foi a censura do blog no qual publicava críticas ao governo chinês, a demolição de seu ateliê e uma prisão domiciliar em 2010. No ano seguinte, quando embarcava no aeroporto de Pequim, foi preso novamente. Acusado de irregularidade na documentação, evasão fiscal e difusão de pornografia – por ter postado nudes –, teve seu estúdio invadido, confiscado e foi mantido em uma cadeia secreta pelo governo chinês, que sonegou informações sobre seu paradeiro. A repercussão gerou campanhas internacionais em apelo à soltura, o que ocorreria 81 dias depois.

Ai Weiwei permaneceu sob vigilância e proibido de sair da China até 2015, quando teve o passaporte devolvido. Desde então, vive exilado na Alemanha, como um refugiado que evita retornar a seu país. Um refugiado privilegiado, como ele mesmo diz, mas que tem feito de sua posição de visibilidade um lugar de denúncia das injustiças sociais, das violações dos direitos humanos e da violência sistêmica dos conflitos que assolam o mundo.

Seus trabalhos dos últimos anos são manifestos sobre a questão dos refugiados. Um deles, o filme Human Flow (2017), é um documentário que o levou a percorrer 23 países. É, até agora, o retrato mais profundo do seu envolvimento enquanto artista com o contexto do drama humanitário e do seu compromisso em assumir responsabilidade na condição de agente provocador.

FRANCISCO DALCOL é crítico, jornalista e pesquisador. Doutorando em Teoria, Crítica e História da Arte (UFRGS)
(Via Revista Fronteiras ZH)