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Manuel Castells: temos que criar seres humanos capazes de assumir o risco da liberdade

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Manuel Castells (foto: Luiz Munhoz/Fronteiras do Pensamento)
Manuel Castells (foto: Luiz Munhoz/Fronteiras do Pensamento)

Em artigo, o sociólogo espanhol Manuel Castells analisa a instabilidade mental da sociedade e como prevenir tragédias por causa disso a partir do caso do piloto Andreas Lubitz, que sofria de depressão e colidiu um avião da Germanwings em 24 de março de 2015, matando 149 pessoas.

Se a instabilidade mental implica um risco elevado, estaríamos em uma sociedade de loucos em que todos nós devemos ser monitorados? Confira abaixo:

Manuel Castells: A sociedade do risco humano | Ulrich Beck, cuja morte recente chora o mundo, deixou-nos uma obra-prima da sociologia, Sociedade de risco (1992). Ele mostrou como a complexidade das sociedades modernas, organizando sistematicamente todos os atos de nossas vidas, aumentou a incerteza. Porque os sistemas tecnológicos e organizacionais dos quais dependemos transformaram nossa existência em procedimentos cujo funcionamento é considerado normal.

Quando uma conexão falha, a repercussão em cadeia dessa engrenagem em todos os reguladores da continuidade, amplia as consequências de uma falha pontual para todo o sistema. E, como a regulação perfeita é inverossímil, estamos expostos ao imprevisível, ao risco de que qualquer coisa aconteça. Por isso, Beck diz que a capacidade pessoal e institucional para gerir o risco do imprevisível é a chave para lidar com a vida no tipo de modernidade em que vivemos. Reflexão profunda que ilumina os debates angustiados decorrentes da tragédia da Germanwings.

Temos consciência de que o sistema não depende de máquinas, mas da interação entre humanos e máquinas. E que os mais imprevisíveis somos nós. Na medida em que o que faz um indivíduo tem efeitos em grupos muito grandes, tanto imediatamente como a longo prazo, o poder tecnológico que temos acumulado pode ter consequências catastróficas a partir de atos humanos incontroláveis.

Acumulam-se as informações sobre o distúrbio mental de Andreas Lubitz no dia em que se tornou assassino suicida aproveitando-se do controle da cabine do avião. Sua depressão foi diagnosticada, mas não controlada por sua empresa ou divulgada no âmbito do emprego, embora sim para a equipe. E aparece uma ligação entre o seu estado mental e o medo de perder o sentido de sua vida: voar.

As reações da indústria e dos governos para evitar futuros desastres passam pelo reforço dos mecanismos de controle do uso de máquinas por seres humanos. Por um lado, não deixar um único piloto no cockpit. Por outro lado, controlar o estado mental dos pilotos. Ou seja, rompe-se a confiança em quem nos transporta de um lugar para o outro. E o sistema de controle se torna ainda mais complexo e, portanto, menos previsível. Porque, mesmo que outra pessoa esteja na cabine, o que impede que o possível assassino neutralize seu piloto? Será que vai ser um agente armado robusto para monitorar as saídas para o banheiro? E se o agente for o maníaco-depressivo? Isso remete ao controle psiquiátrico prévio de pilotos e controladores. Um controle que não é rigoroso porque é impossível profissionalmente.

Os testes psicológicos são respostas simples do sujeito analisado em um determinado momento e sua história dificilmente prevê futuras reações imprevisíveis. Assim, deveria haver uma verdadeira análise psiquiátrica, contínua, desde os cursos de formação e ao longo da carreira. Mas se isso é feito com os pilotos, por que não com os condutores de trem, ônibus e barco? Ou com a polícia? Ou com o médico pessoal que tem direito profissional de vida e morte sobre os nossos corpos? E enquanto nós monitoramos irresponsáveis, por que não começar com os economistas que colapsaram a economia mundial destruindo milhões de vidas? Ou com os políticos profissionais para garantir que eles não sejam cleptomaníacos? De fato, na Argentina depois do corralito, um projeto de lei foi debatido para subjugar os deputados a uma avaliação psicológica.

Isto é, em muitas dimensões da nossa vida quem controla os mecanismos dos quais dependemos pode potencialmente nos destruir a partir de comportamentos derivados de transtornos mentais. Mas que transtornos? Se falamos de depressão, estima-se que 20% dos europeus (10% na Espanha) sofrem de depressão clínica. À depressão, juntam-se outros transtornos mentais. No mundo, das dez doenças graves mais comuns, cinco são mentais. Nos EUA, 60% das mulheres são medicadas com antidepressivos. Será que vamos estigmatizar alguém que teve um problema de condição mental? Criar um panóptico distribuído? Se a instabilidade mental implica um risco elevado, estaríamos em uma sociedade de loucos em que todos nós devemos ser monitorados, incluindo professores capazes de neurotizar crianças e até mesmo abusar deles? Isso para não mencionar os sacerdotes. Ou a pedofilia não é patológica? E traumatizar milhares de crianças não é tão crime quanto colidir um avião? Porém, aqui chegamos ao cerne da questão: se nós formos controlados pelos psiquiatras, quem controlará os psiquiatras? Ou será que eles são parte de um sacerdócio sem problemas mentais?

Visto desta perspectiva, não há nenhum controle que vala a pena. O mais imprevisível é o ser humano. E o que mudou é que muitos seres humanos têm acesso aos mecanismos automáticos dos quais dependem muitas vidas. Como nossas sociedades se tornaram loucas por muitas razões, estaremos vivendo entre loucos. Os sistemas inventados para nos proteger acabam nos condenando, como é o caso de cabines de aeronaves que não podem ser abertas a partir do exterior em resposta ao perigo de ataque externo, como aconteceu em 11 de setembro. É claro que a grande maioria de nós está sã. Até que um dia deixará de estar. E acabamos o casamento ou bebemos e batemos o carro, com a família incluída.

Então, Beck levantou um dilema fundamental. Nós não podemos controlar o risco crescente de vivermos dependentes de sistemas automáticos com cada vez mais automatismo e regulação. Temos que criar seres humanos capazes de assumir o risco da liberdade. E encontrar formas solidárias de vida que estão enraizadas em nossas almas e, a partir daí, reconstruir esta modernidade enlouquecida.

Artigo publicado no jornal espanhol La Vanguardia (04/2015)