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Mario Vargas Llosa | As aspirações da crítica humanista

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Nobel de Literatura, Mario Vargas Llosa voltou ao palco do Fronteiras do Pensamento para dar início à temporada de 2016. O peruano é autor de premiados ensaios, romances e contos que são fonte de críticas sociais, culturais ou literárias. Mais ainda, encontramos, nas obras de Llosa, o estímulo ao pensamento crítico, já que a literatura seria, segundo o escritor, "um instrumento crítico em si mesmo, pois nos mostra a realidade de forma complexa, e vai muito além do que o maniqueísmo dos discursos políticos de uma determinada época e lugar deixa entrever." De fato, a grande luta do Nobel é pela retomada da arte enquanto criadora de uma reflexão que coloque em xeque convicções pessoais e questione o senso comum. Ideologia e ficção assumem, no pensamento do peruano, posições diametralmente opostas.

Enquanto "a ficção literária aceita de antemão sua natureza ilusória e limitada; as ideologias, por outro lado, tentam se impor como a versão final da História: o caminho necessário da humanidade", explica Eduardo Cesar Maia Ferreira Filho*, em texto escrito para a revista Fronteiras do Pensamento.

A revista apresenta o ciclo de conferências sob a análise de escritores, professores, críticos e especialistas nas temáticas que estiveram no palco do Fronteiras Porto Alegre 2016.

Acesse a Revista Fronteiras do Pensamento na íntegra


As aspirações da crítica humanista | Eduardo Cesar Maia Ferreira Filho

Em geral, quando se fala em Mario Vargas Llosa em nosso país, principalmente nos meios culturais, é comum que o seu trabalho seja quase exclusivamente associado à atividade de escritor, ao âmbito específico da prosa de ficção. A ampla consagração de seu talento a partir do recebimento do Prêmio Nobel de Literatura, em 2010, popularizou ainda mais seu nome e seus livros entre o público brasileiro. Com menos frequência, no entanto, reconhecemos por aqui sua militância associada ao campo da crítica cultural e política, atividade que vem praticando diligentemente por décadas, como homem de ideias e formador de opinião. O que tentarei defender é justamente a coerência entre o escritor e o homem de imprensa; o crítico literário e o analista político; o artista e o homem de palanques.

Acompanhar a obra ensaística de Vargas Llosa – em livros como A verdade das mentiras, A linguagem da paixão ou A civilização do espetáculo –, complementarmente à leitura de seus romances e contos, possibilita uma melhor e mais complexa compreensão de sua visão integradora de literatura e de mundo. E é neste sentido que relaciono sua crítica cultural às antigas aspirações humanistas de vida e criação literária ligada a um projeto de sociedade, de civilização e, também, de formação individual.

Segundo essa perspectiva, a literatura pressupõe cognição, entendimento, interpretação, experiência, visão organizada da realidade; quer dizer, a literatura se relaciona ao conhecimento, à capacidade referencial da linguagem humana, e à necessidade de dar sentido à existência.

Diz-se que toda crítica tende à autobiografia, quer dizer, à manifestação da subjetividade do crítico. No caso de Llosa, não é diferente: sua crítica social, cultural e literária foge da imparcialidade, da impessoalidade e não se preocupa com a tão propagada – e mal compreendida – “objetividade científica". Em todas as suas argumentações estão subjacentes escolhas estéticas, políticas e éticas. Ele é como pensador e artista aquilo que o preocupa enquanto homem, como indivíduo imerso em suas circunstâncias.

A legitimação acadêmica de um crítico e ensaísta depende, muitas vezes, da utilização de jargões abstrusos e compreensíveis apenas para os “iniciados". O filósofo André Comte-Sponville ironiza essa tendência afirmando que “águas rasas só podem parecer profundas se forem turvas". Os textos de Llosa, por mais profundos, sutis ou mesmo difíceis que possam ser, nunca usam uma terminologia diferente, por exemplo, da de um texto jornalístico ou de uma conversação natural entre pessoas intelectualmente curiosas (longe da linguagem cifrada dos especialistas).

Não obstante, fica claro para o leitor que as ideias do escritor não são, e nem têm a intenção de ser, populares ou facilmente assimiláveis. Ele assume, assim, o autêntico papel do intelectual, que deve ser sempre o de duvidar do senso comum, das verdades inabaláveis e dos dogmas estabelecidos. Sua verve de polemista resulta de sua convicção e de sua independência. Trata-se, portanto, de um crítico autônomo em relação aos modismos teóricos; e autodeterminado no que se refere ao próprio percurso intelectual. A subversão de regras e métodos é uma característica comum aos críticos genuínos, que se aproveitam de ferramentas teóricas de maneira própria, em busca de uma forma de investigação peculiar e de acordo com as suas “verdades íntimas".

Para Vargas Llosa, os escritores devem sempre transcender as próprias ideologias que por ventura defendam. A ficção literária aceita de antemão sua natureza ilusória e limitada; as ideologias, por outro lado, tentam se impor como a versão final da História: o caminho necessário da humanidade. Ideologia e ficção assumem, no pensamento do crítico peruano, posições diametralmente opostas. O autor de O sonho do celta sugere ainda que o mais eficaz antídoto que a civilização criou contra todos os dogmas e convicções fechadas foi a literatura. A literatura, dessa forma, é entendida como um instrumento crítico em si mesmo, pois nos mostra a realidade de forma complexa, e vai muito além do que o maniqueísmo dos discursos políticos de uma determinada época e lugar deixa entrever.

Por outro lado, não se pode confundir sua crítica às ideologias com uma negação dos discursos de valor. De uma forma ou de outra, a questão do valor (moral ou estético) esteve presente em todos os capítulos da obra do autor. É impossível fugir dessa questão, sobretudo ao se falar de Llosa como crítico. Seus valores humanista-liberais estão presentes em cada ensaio ou artigo, ainda que estes tratem de temas não políticos.

Certas correntes de crítica literária de inspiração marxista faziam crer que o socialismo, quando implantado, suplantaria o discurso moral, após o fim dos conflitos sociais, numa clara afirmação de que tais conflitos eram a única questão moral a ser discutida. Após a queda do muro de Berlim, muitos autores e críticos que não conseguiram escapar dessa concepção ficaram presos a utopias ultrapassadas ou simplesmente aderiram à onda niilista tão característica da pós-modernidade. Em sua trajetória intelectual tão peculiar, Llosa, mesmo após renegar os valores socialistas, manteve a crença em certos valores universais e na possibilidade de conhecimento objetivo. Tal posicionamento o colocou literalmente “contra a corrente" – ou contra vento e maré, como diz o título de uma de suas obras autobiográficas.

A visão libertária de mundo de Vargas Llosa perpassa todo seu universo intelectual e é o fulcro do seu pensamento e de sua arte. Voltando-se à realidade ou à fantasia, ele está permanentemente construindo narrativas sobre o significado e o valor de ser livre – e do mal de não o ser.

*Eduardo Cesar Maia Ferreira Filho é Doutor em Teoria da Literatura pela UFPE, Master em Filosofia pela Universidade de Salamanca (Espanha), professor da UFPE e editor da revista Café Colombo.