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Mario Vargas Llosa: de volta às origens

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Mario Vargas Llosa (Ilustração: Lo Cole)
Mario Vargas Llosa (Ilustração: Lo Cole)

Quando Mario Vargas Llosa recebeu o Nobel de Literatura, em 2010, a Academia Sueca elogiou sua “cartografia de estruturas de poder e suas vigorosas imagens sobre as resistências, revoltas e derrotas individuais".

Esta louvação ao trabalho de Llosa também pode ser dirigida a obras como O Sonho do Celta ou ao seu épico A guerra do fim do mundo, que se passa na Bahia, no final do século 19.

O livro conta a história da Guerra de Canudos e de Antônio Conselheiro, que encoraja seus seguidores a construir uma nova cidade para desafiar o governo que decide destruí-lo juntamente com sua utopia.

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As obras de Llosa são repletas de figuras históricas. Segundo o escritor, a literatura é um caminho alternativo à compreensão da história.

“Na ficção, você não fica limitado pelos fatos. Você pode manipular a realidade, pode inventar sem ser desleal com a essência da narrativa. Creio que por isso encontramos um cenário mais acurado do que aconteceu nas Guerras Napoleônicas nos escritos de Tolstói do que nos de historiadores", explica o autor. Apesar de tudo, o primeiro grande sucesso literário do Nobel não veio de biografias alheias, mas da sua própria.

Em 1963, aos 27 anos, Llosa recebeu o Prêmio Biblioteca Breve e o Prêmio da Crítica Espanhola por seu romance de estreia, A cidade e os cachorros, que se passa em uma escola militar peruana e que relembra suas experiências na academia militar de Leoncio Prado, local para o qual foi enviado por seu pai.

A relação de Mario Vargas Llosa com seu pai é definidora em sua visão de mundo.

O escritor cresceu achando que o pai estava morto, quando, na realidade, isso era uma história contada por sua mãe (foto) para omitir a conflituosa separação do casal.

A verdade veio à tona em 1946, quando o pai de Llosa reapareceu subitamente para levar Mario e sua mãe embora da casa de seus avós.

Mario saiu do ambiente carinhoso dos avós para o lar autoritário de seu pai, tendo que entrar no colégio militar, descobrindo o medo, a injustiça e a violência.

Em 1955, aos dezenove anos, Llosa se casou com Julia Urquidi, companheira política 10 anos mais velha do que ele. Além da universidade, na época, Vargas Llosa tinha sete empregos para pagar as contas.

Durante seus anos de juventude, enquanto Llosa lia obras de Dumas e Victor Hugo, o clima político no Peru via a ascensão do ditador Manuel Odría se estender de 1948 a 1956, época em que Mario estudava direito e literatura na Universidade de San Marcos.

O rígido controle imposto por Odría sobre a sociedade nesta época pode ser lido em uma das mais famosas obras de Llosa, Conversa no Catedral, originalmente publicado em 1969.

A presença do autoritarismo tanto na vida pessoal quanto na pública fez de Llosa um ativista contra sistemas que inibem a liberdade e a iniciativa individuais. Suas obras refletem esta repulsa pelas manifestações arbitrárias de poder e pela ausência de leis que impeçam isso.

Nas décadas de 1960 e 1970, por obras como Conversa no Catedral e Pantaleão e as visitadoras, Mario Vargas Llosa se uniu ao movimento literário chamado Boom Latino-Americano.

O movimento, que trazia nomes como Gabriel García Márquez, Carlos Fuentes, Julio Cortázar, estava ligado pelo comprometimento com a experimentação da ficção e com a política, algo raro nos escritores norte-americanos e europeus da época.

Em meados de 1970, Llosa se dividiu em residências em Paris, Londres e Barcelona. Em 1983, voltou ao Peru; onde concorreu às eleições presidenciais. Em seguida, mudou-se para Londres, onde vive até hoje.

Em 2010, veio o Nobel de Literatura, uma nova agitação na vida do então senhor de 74 anos: “O Prêmio Nobel é um conto de fadas por uma semana e um pesadelo por um ano.

Você não consegue imaginar a pressão para conceder entrevistas e ir a feiras de livros. O primeiro ano foi muito difícil, mas conseguia escrever", confessa o autor.

Llosa reclama sorrindo, pois parece ter tomado gosto pelas aventuras na melhor idade. Cinco anos após o Nobel, o peruano fez sua estreia no teatro. Melhor dizendo, nos palcos.

Mesmo que seja autor de peças de teatro desde 1980, foi aos 78 anos de idade que subiu ao palco para encenar suas personagens. No caso, em sua adaptação do Decamerão, de Boccaccio. Também em 2015, divorciou-se de sua esposa Patrícia e se uniu a Isabel Preysler, ex-esposa de Julio Iglesias.

No ano seguinte, lançou Cinco esquinas, que ocorre no final da ditadura Fujimori [fim dos anos 1990]. Trata-se de um thriller em que o principal tema é o jornalismo, mostrando como a imprensa amarela ou marrom, a do escândalo, tem efeitos nefastos.

O chamado da tribo: de volta às origens

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Sua mais recente obra, ainda sem lançamento no Brasil, é La llamada de la tribu (O chamado da tribo, em tradução livre). No livro de ensaios o escritor se aproxima novamente da sua autobiografia, mas de forma diferente.

La llamada de la tribu não se trata de sua vida pessoal, mas sim de sua trajetória intelectual. Mais particularmente, do movimento de mudança radical em suas ideias políticas.

Esta transformação aconteceu, principalmente, por causa do estudo de sete pensadores. Estes nomes são o objeto central de La llamada de la tribu: Adam Smith, José Ortega y Gasset, Friedrich Hayek, Karl Popper, Raymond Aron, Isaiah Berlin e Jean-François Revel.

Mesclando estudos e vivências, Vargas Llosa apresenta o caminho que foi traçando desde a “juventude impregnada de marxismo e existencialismo sartreano ao liberalismo de minha maturidade, passando pela revalorização da democracia”.

A lenta e dolorosa transformação que acabou conduzindo Llosa aos valores liberais, por outro lado, seria consequência, segundo ele, de algumas experiências políticas. Llosa sofreu críticas tremendas durante e após esta revisão de posicionamento. O abandono da esquerda passou a ser uma rejeição completa ao seu pensamento - inclusive à sua literatura.

Defender o valor da liberdade, então, tornou-se não apenas uma defesa de Llosa, mas também uma defesa para que ele - ou qualquer pessoa - possa defender a liberdade do pensamento.

A história da intolerância

Em vídeo ao Fronteiras, Mario Vargas Llosa fala sobre a história da intransigência e da incompreensão na América Latina, questões que comumente vemos associadas aos dias de hoje, mas que encontram sua origem em um passado que deve ser conhecido. 

Em tom de manifesto, ele explica como chegamos a esta verdadeira incapacidade de aceitarmos ideias alheias e defende um valor urgente para o mundo contemporâneo, não apenas pela promoção do diálogo e da democracia, mas como também para o desenvolvimento das nações, a integração e a luta contra a pobreza.

Este valor é nada menos do que a tolerância.

Assista abaixo. Lembre-se de ativar as legendas no menu do player.