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Mario Vargas Llosa: O poder da blasfêmia

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Mario Vargas Llosa (foto: Greg Salibian/Fronteiras do Pensamento)
Mario Vargas Llosa (foto: Greg Salibian/Fronteiras do Pensamento)

O Prêmio Nobel de literatura Mario Vargas Llosa escreve sobre a ativista pelos direitos humanos Ayaan Hirsi Ali, "uma das adversárias mais valiosas" contra os "islamitas fanáticos". Em coluna ao El País, o escritor peruano elogiou o último livro de Ali, Herege, onde ela defende uma reforma abrangente do Islã, semelhante à Reforma Protestante do século XVI.

"Nada me agradaria mais do que acreditar, como diz Hirsi Ali, que essa reforma já começou e que essa espessa treva religiosa que envolve a vida em todos os países muçulmanos começou a se dissipar. O que me faz duvidar são os exemplos contrários – o agravamento do fanatismo e a atração irresistível que exercem as organizações terroristas sobre tantos adolescentes e até crianças – das quais seu livro dá conta", escreveu Vargas Llosa na coluna O poder da blasfêmia. Leia abaixo:

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É quase um milagre que Ayaan Hirsi Ali, uma das heroínas de nosso tempo, ainda esteja viva. Os fanáticos islâmicos quiseram acabar com ela e não conseguiram, e não é impossível que continuem tentando, pois se trata de um dos mais articulados, influentes e determinados adversários que eles têm no mundo. Talvez tanto quanto suas ideias e sua coragem, seja seu exemplo o que atiça o ódio dos militantes da Al Qaeda, o Estado Islâmico e demais seitas fundamentalistas do Oriente Médio e da África contra ela. Porque Ayaan Hirsi Ali é uma demonstração viva de que, não importa quão estritos sejam a doutrinação e a opressão exercidas sobre um ser humano, o espírito rebelde e libertário sempre é capaz de romper as barreiras que se empenham em subjugá-lo.

Hirsi Ali nasceu na Somália, em uma família conservadora, sofreu a mutilação genital na puberdade e foi educada na Arábia Saudita e no Quênia dentro da mais severa observância muçulmana: usou ohijab, comemorou a fatwa que condenava Salman Rushdie à morte, mas, quando seus pais quiseram casá-la com um parente distante contra a sua vontade, atreveu-se a fugir e pediu asilo na Holanda. Ali aprendeu holandês, chegou a ser deputada pelo partido liberal e desde então começou uma campanha, que não parou até agora, contra tudo o que há de violento, intolerante e discriminatório contra a mulher no islã. Em seus primeiros livros, valia-se muito de sua própria autobiografia para mostrar os extremos de crueldade e cegueira a que o fanatismo muçulmano podia levar e para explicar as razões de sua apostasia e ruptura com a religião de sua família.

No que acaba de publicar nos Estados Unidos, Heretic. Why Islam needs a reformation now (herege, por que o islã precisa de uma reforma já - ainda não publicado no Brasil), critica, com sua franqueza habitual, os Governos ocidentais que, para não se afastarem da correção política, se empenham em afirmar que o terrorismo de organizações como Al Qaeda e Estado Islâmico é alheio à religião muçulmana, uma deformação aberrante de seus ensinamentos e princípios, algo que, afirma ela, é rigorosamente falso. Seu livro sustenta, ao contrário, que a origem da violência que aquelas organizações praticam tem sua raiz na própria religião e que, por isso, a única maneira eficaz de combatê-la é com uma reforma radical de todos os aspectos da fé muçulmana incompatíveis com a modernidade, a democracia e os direitos humanos.

Mais ainda, nos últimos capítulos de seu livro, Hirsi Ali oferece um registro detalhado de reformadores – clérigos, professores, intelectuais, políticos, jornalistas – que, tanto dentro como fora dos países muçulmanos, segundo ela, já colocaram em marcha essa reforma. Ela contaria com a solidariedade calada de grande número de fiéis – entre eles, muitíssimas mulheres – conscientes de que só graças a essa atualização de sua religião poderiam seus países abraçar a modernidade e sair do atraso medieval que significa, em pleno século XXI, continuar lapidando as adúlteras, cortando as mãos dos ladrões, decapitando os ímpios e apóstatas e considerando que, perante a lei, o testemunho de uma mulher vale só a metade do de um homem. Com muita razão, Hirsi Ali exorta os governos e as lideranças políticas dos países democráticos a dar seu apoio a quem, arriscando sua vida, trava essa difícil batalha religiosa e cultural, em vez de, por razões de Estado, amparar regimes despóticos como o da Arábia Saudita, onde sobrevivem aqueles horrores, e outros não menos atrozes, como os chamados crimes de honra: o pai ou os irmãos que assassinam a mulher estuprada, pois esse estupro “desonrou" a família da vítima.

Nada me agradaria mais do que acreditar, como diz Hirsi Ali, que essa reforma já começou e que essa espessa treva religiosa que envolve a vida em todos os países muçulmanos começou a se dissipar. O que me faz duvidar são os exemplos contrários – o agravamento do fanatismo e a atração irresistível que exercem as organizações terroristas sobre tantos adolescentes e até crianças – das quais seu livro dá conta. São tão numerosos e são descritos com tanta precisão que a impressão que se tira dessas páginas é exatamente a oposta. Ou seja, que, em lugar de um processo de libertação, muitos desses países, como demonstra o fracasso da chamada Primavera Árabe, ao invés de se aproximarem da modernidade livrando-se de crenças anacrônicas e sangrentas, são essas as que mais parecem renascer, se fortalecer e infectar boa parte da sociedade. Ela mesma conta como, com exceção da Tunísia – onde o processo de laicização parece ter realmente pegado –, em cidades como Bagdá, onde há vinte ou trinta anos o véu retrocedia e muitas mulheres mostravam os cabelos e se vestiam à maneira ocidental, agora é muito raro ver alguma que não use o hijab.

O caso da própria Hirsi Ali também é muito eloquente. Quando em 2004 o cineasta Theo van Gogh foi assassinado em Amsterdã, o assassino, Mohammed Bouyeri, cravou no peito de sua vítima uma carta para Hirsi Ali, advertindo-a de que ela seria a próxima assassinada por trair o islã. Em vez de receber solidariedade, ela se viu ameaçada pela ministra da Imigração da Holanda, uma senhora de mandíbula quadrada chamada Rita Verdonk, de perder a nacionalidade holandesa, e seus vizinhos lhe pediram que abandonasse o apartamento onde morava, pois os colocava em perigo de sofrer um atentado. Agora mesmo, nos Estados Unidos, onde vive, é objeto de críticas muito duras de supostos “liberais" que a acusam de “islamofóbica" e, no seminário que apresenta na Universidade Harvard, não é raro que se inscrevam alunos e alunas que fazem isso só para poder insultá-la. Precisa, por isso, viver permanentemente protegida.

O extraordinário é que nada disso parece demovê-la. Ayaan Hirsi Ali, a julgar por este quarto livro, continua, vacinada contra o desalento, exercendo o que chama de “o poder da blasfêmia", sua campanha contra o fanatismo e a estupidez que maculam nosso tempo e o enchem de cadáveres, convencida de que a sensatez e a razão acabarão por se impor à irracionalidade e ao espírito da tribo. Duas vezes em minha vida tive a chance de escutá-la falar. A primeira, na Holanda, e a segunda, vários anos depois, em Washington. Em ambos os casos a ouvi expor suas teses com uma fundamentação intelectual repleta de gravidade e, ao mesmo tempo, com uma suavidade e uma elegância que davam ainda mais força persuasiva àquilo que dizia. E, em ambos, pensei o mesmo: que extraordinário que seja uma somali, educada na Arábia Saudita e no Quênia, a pessoa capaz de romper com o obscurantismo e a barbárie que quiseram lhe impor, que defenda com tanta convicção e tanto ânimo a cultura da liberdade, a melhor contribuição do Ocidente ao mundo, diante de auditórios de ocidentais apáticos e céticos, que ignoram quão privilegiados são e o tesouro que possuem, e que tenha de ser Ayaan Hirsi Ali, depois de passar pelo inferno, quem venha a relembrar isso.

Essa transformação, que Hirsi Ali compara com o que significaram para o cristianismo as críticas de Voltaire e a reforma de Lutero, consistiria em modificar cinco conceitos que, em sua opinião, mantêm o islã preso no século VII: 1) a crença de que o Corão expressa a imutável palavra de Deus e a infalibilidade de Maomé, seu porta-voz; 2) a prioridade que o islã concede à outra vida sobre a do aqui e agora; 3) a convicção de que a sharia constitui um sistema legal que deve governar a vida espiritual e material da sociedade; 4) a obrigação do muçulmano comum de exigir o justo e proibir o que considera errado; e 5) a ideia da jihad ou guerra santa. A quem pergunta o que restaria do islã se este renunciasse a esses cinco pilares de sua fé, Hirsi Ali responde que o cristianismo, antes da reforma protestante, não era menos sectário, intolerante e brutal, e que só a partir desta excisão é que a religião cristã começou o processo que a levaria a se separar do Estado e à coexistência pacífica com outras crenças, e graças a isso prosperaram as liberdades e os direitos civis no mundo ocidental.

(via El País)