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Mario Vargas Losa, pensador da cultura - Parte 1

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Mario Vargas Llosa no Fronteiras do Pensamento 2016.
Mario Vargas Llosa no Fronteiras do Pensamento 2016.

Por Eduardo Wolf

O escritor peruano Mario Vargas Llosa, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura de 2010, completou 85 anos no último dia 28. Autor incontornável na história da literatura do século XX, seus romances e novelas estiveram desde cedo associados ao fenômeno conhecido como o boom da ficção latino-americana, termo que foi marca distintiva da obra do colombiano (e também Nobel) Gabriel García Márquez. Nós, leitores de A cidade e os cachorros (1963), Conversa no Catedral (1969) e Pantaleão e as Visitadoras (1973), obras-primas indiscutíveis da narrativa do século passado, sabemos de pronto que esses títulos – publicados no Brasil pela Alfagura – partilham menos do universo próprio ao chamado realismo mágico ou fantástico que deu a tônica e fez a fama de muitos dos autores da América Latina de então do que se poderia pensar. Pouco importa. A conquista do Nobel de Literatura, graças à sua prosa espanhola vibrante, a serviço da composição minuciosa, complexa e abrangente de mundos ficcionais que devolviam o leitor à realidade, graças a seu ímpeto jamais refreado de desvelar a natureza humana com coragem e audácia, não causaria espanto a ninguém que acompanhasse o êxito de sua obra.

Não se pode dizer o mesmo da equipe do Fronteiras do Pensamento. Não que o autor não fosse considerado merecedor do Nobel. Não que faltasse torcida – muito pelo contrário. A surpresa, maravilhosa surpresa para o Fronteiras em 2010, é que Mario Vargas Llosa era já, desde março daquele ano, anunciado como um dos conferencistas daquela temporada. O brilho inigualável de sua obra literária, a independência intelectual que demonstrara ao longo de toda carreira como intelectual público, a coragem política que o levara dos sonhos da esquerda revolucionária nos anos 1960 à convicção inegociável na democracia liberal dos anos 1980 em diante, sua capacidade ímpar de iluminar, como crítico e como leitor, a obra de outros tantos grandes escritores, tudo isso era motivo de sobra para que Llosa fosse um dos conferencistas mais aguardados daquele ano. E poucos dias antes de sua palestra no auditório lotado do Salão de Atos da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, o autor de Tia Júlia e o Escrevinhador e de A Guerra do Fim do Mundo era consagrado com o prêmio Nobel de Literatura. Maravilhosa, fantástica surpresa, sim; justo, plenamente justo, o prêmio.

A conferência de Llosa em 2010, a primeira das três que realizou com o Fronteiras ao longo da última década, deu a conhecer ao público brasileiro ainda uma outra dimensão do escritor peruano. Intitulada Breve discurso sobre a cultura, sua fala deu provas de sua qualidade como um verdadeiro pensador da cultura, isto é, alguém capaz de mobilizar seu talento literário, sintonizá-lo com seus amplos interesses artísticos e humanísticos, ajustá-lo a seu treinado olhar analítico para a vida social, e produzir uma reflexão profunda e autoral a respeito da cultura entendida em seu sentido mais preciso, profundo e, talvez, já perdido – basta ver a brilhante crônica de Llosa publicada recentemente no Estadão sobre a exposição Paixões Mitológicas, no Museu do Prado.



Mas por que razão estaria perdido esse sentido de cultura? Porque, como todos que viram ou leram esta conferência de Llosa sabem, sua visão acerca do estado da cultura, se compreendermos o termo como ele o faz, é bastante pessimista. O texto da conferência no Fronteiras 2010 serviu de base, posteriormente, para parte de seu ensaio A Civilização do espetáculo – Uma radiografia do nosso tempo e da nossa cultura (Objetiva, 2012). A reflexão de Llosa dialoga com dois outros gigantes, entre vários outros autores importantes para compreender suas ideias. Refiro-me ao também Nobel T. S. Eliot, por muitos considerado o maior poeta do século XX, e ao crítico e pensador George Steiner, uma das vozes mais influentes na reflexão sobre cultura, literatura e sociedade desde a década de 1960.

Em 1948, T.S. Eliot, já então o mais importante e influente poeta de língua inglesa do século XX, com sólida trajetória também como crítico e como editor literário, publicou Notas para a definição de cultura (É Realizações, para a qual eu tive o prazer de fazer a tradução do inglês), um conjunto de ensaios destinados a atingir um objetivo aparentemente simples: oferecer uma definição razoável para o conceito de cultura. Eliot, contudo, escreveu um trabalho muito mais instigante do que isso, e muito mais polêmico do que que pareceria à primeira vista. Como escreve Llosa, ao lermos o ensaio de T.S Eliot 60, 70 anos depois de sua publicação, percebemos suas ideias e suas concepções como algo remoto, distante – como se falássemos de um outro mundo, em que a cultura era fortemente dependente do peso da tradição, encontrava-se ancorada na transmissão de saberes e obras humanas específicas e assinaladas, destacadas no tempo, por sua grandeza. Sobretudo, Eliot revelava ao público uma concepção de cultura cuja ligação com a religião, especificamente com o cristianismo, era incontornável. A conclusão do autor de A Terra Devastada é inequívoca:

Foi no cristianismo que as nossas artes se desenvolveram; foi no cristianismo que as leis da Europa estiveram – até recentemente – enraizadas. É tendo o cristianismo como fundamento que todo o nosso pensamento tem significância. Um indivíduo europeu pode não acreditar que a fé cristã seja verdadeira, e, ainda assim, o que ele diz, faz e produz, tudo isso será fruto de sua herança da cultura cristã e dependerá dessa cultura para ter significado. Apenas uma cultura cristã poderia ter produzido um Voltaire ou um Nietzsche. Não acredito que a cultura da Europa poderia sobreviver ao completo desaparecimento da fé cristã. E estou convencido disso, não apenas porque eu mesmo sou cristão, mas enquanto estudioso da biologia social. Se o cristianismo se for, toda a nossa cultura irá com ele. (p. 138)


Polêmico aos nossos olhos, sem dúvida, uma vez que naturalizamos a experiência da vida em sociedades pós-religiosas, como são – parecem ser – as modernas democracias ocidentais. À altura em que Eliot escrevia, contudo, a demolição final da milenar sociedade europeia de matriz greco-romana e judaico-cristã era o fato do momento, ainda não percebido em sua totalidade por qualquer um. Havia apenas três anos que se completara o suicídio final daquela civilização, a Segunda Guerra Mundial, o Holocausto e, no conjunto das duas guerras, mais de 70 milhões de mortos em menos de 30 anos. Eliot viu a ruína futura sem perceber que já escrevia a partir desses escombros.



Não menos influente para a análise de Llosa em seu A civilização do espetáculo é o ensaio de 1971 de George Steiner, No castelo do Barba Azul: Algumas notas para a redefinição de cultura (Companhia das Letras). Aliás, também não menos pessimista. O grande choque de Steiner ao propor, pouco mais de vinte anos após a publicação de T. S. Eliot, uma tentativa de “redefinição” de cultura, foi perfeitamente resumido por Vargas Llosa:

“(...) ele se escandaliza com o fato de o grande poeta autor de The Waste Land ter podido escrever um tratado sobre a cultura assim que terminara a Segunda Guerra Mundial sem fazer relação alguma entre esse tema e as vertiginosas carnificinas dos dois conflitos mundiais, e sobretudo, deixando de fazer uma reflexão sobre o Holocausto e o extermínio de 6 milhões de judeus em que desembocou a longa tradição de antissemitismo da cultura ocidental”. (p. 15)

Essas duas obras clássicas da teoria cultural do século XX exercem uma influência ao mesmo tempo arguta e sombria sobre a reflexão que Llosa nos oferece da cultura. Pouco, talvez nada das práticas e das energias humanas que animavam a produção da cultura em seu sentido nobre e elevado tenha sobrevivido. Em nosso tempo, que é em larga medida o tempo de Llosa, a cultura deixou de ser compreendida por essas lentes, aproximando-se de um sentido muito mais alargado e difuso, capaz de abarcar toda e qualquer prática, hábito, costume de uma sociedade em qualquer registro (uma influência dos antropólogos). Punks e programas de televisão, a cultura da moda e a cultura foodie: tudo é cultura, com cidadania plena a reivindicar tal denominação. Para Llosa, isso nos afunda em um mar de frivolidade irresponsável em que a cultura em sentido elevado e maduro é incapaz de sobreviver. Se a banalidade lúdica triunfa, naufraga a cultura a valer.

Não foram poucos os espectadores da conferência e leitores do livro de Llosa que detectaram um pessimismo exagerado, talvez até mesmo injustificado. Essa crítica sem dúvida merece ser examinada em detalhe – e neste espaço voltarei ao tema em artigos futuros. Gostaria de encerrar esta reflexão, contudo, com uma nota dissonante dessas avaliações mais pessimistas. A insistência de Llosa no papel da grande arte e da grande literatura, do pensamento complexo e das experiências humanas duradouras, como elementos definidores da cultura em sentido próprio é um gesto de profundo humanismo, ainda que o tom de Llosa soe negativo. Como ele mesmo disse, naquela noite de 2010 em que proferiu sua primeira conferência no Fronteiras do Pensamento:

Conheça a obra Pensar a Cultura, editada pela Arquipélago Editorial, que contempla as conferências de Mario Vargas Llosa e outros sete grandes pensadores da atualidade.

“A cultura pode ser experiência e reflexão, pensamento e sonho, paixão e poesia, e uma revisão crítica constante e profunda de todas as certezas, convicções, teorias e crenças. Mas não se pode apartar da vida real, da vida verdadeira, da vida vivida, que não é nunca a dos lugares-comuns, do artifício, do sofisma e da frivolidade, sem risco de desintegrar-se. Posso parecer pessimista, mas a minha impressão é que, com uma irresponsabilidade tão grande quanto a nossa irreprimível vocação para o jogo e para a diversão, fizemos da cultura um destes vistosos, mas frágeis castelos construídos sobre a areia que se desfazem ao primeiro golpe de vento”.    

Pessimista ou não, é inegável que se trata da preocupação de um humanista. E que Llosa tenha nos dado tanta matéria para refletir sobre nossa condição humana, social e cultural – para além de seus mágicos romances – é prova de que é também um pensador da cultura a título pleno.