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Martha Nussbaum: civilização, emoções e desenvolvimento humano

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Por Eduardo Wolf | No perfil da filósofa e escritora americana Martha Nussbaum, publicado pela revista New Yorker em 2016, a jornalista Rachel Aviv comenta que a autora desde o início manifestara uma visível preocupação: a entrevista seria capaz de cobrir a abrangência de sua obra? Em uma característica troca de e-mails (respondidos sempre dentro do prazo de uma hora), Nussbaum afirmava: “Eu realmente gostaria de sentir que você considerou vários aspectos do meu trabalho”. Não foi diferente com a entrevista que a autora de A Fragilidade da Bondade (Editora Martins Fontes) concedeu com exclusividade para o Fronteiras do Pensamento desde Chicago em dezembro passado e a que todos que acompanham nosso portal podem conferir logo abaixo.

Não é para menos. Martha Nussbaum já publicou 24 livros e mais de 500 artigos, foi uma das únicas mulheres a ser convidada para as John Locke Lectures em Oxford (apenas a segunda na história da série), venceu mais prêmios do que se poderia citar em uma frase jornalisticamente aceitável (incluindo o prestigiado Prêmio Kyoto, a maior premiação para áreas não abrangidas pelo Nobel, como a Filosofia) e influenciou diretamente a formulação de políticas públicas em escala global. Não fosse isso suficiente, é preciso lembrar ainda que sua atuação nunca ficou restrita à sua formação de origem como classicista. Em seus primeiros trabalhos, vamos encontrar uma acadêmica rigorosa, analisando famílias de manuscritos de tratados do filósofo grego Aristóteles – sobre o qual escreveu amplamente. A literatura dos gregos e dos romanos antigos, assim como o pensamento dos estoicos – sobretudo Sêneca – será presença marcante em seus trabalhos seguintes, quer os que versam sobre esse período, quer seu trabalho mais autoral, em que reflete sobre as emoções humanas, sobre justiça ou sobre o envelhecimento.

“Em primeiro lugar, eu não acredito que exista uma civilização comum, compartilhada por todos”. A descendente de imigrantes puritanos ingleses de origem operária que escreveria com destreza sobre Platão ou sobre o direito indiano certamente encontra-se em uma posição privilegiada para avaliar o que, segundo ela, é nossa ilusão de pertencimento a uma tradição. Ainda assim, não é notável o fato de que em Porto Alegre ou em Chicago, em São Paulo ou na Índia, nossas trocas culturais sejam tão intensas, e que o drama humano, quer cotidiano e coadjuvante, quer excepcional e protagonista na História, desperte em nós sentimentos que sabemos comunicar e compartilhar? Seja nas histórias de Mahabharata, o grande poema épico indiano, seja nas tragédias de Sófocles e Eurípedes na Grécia, Nussbaum soube encontrar dilemas morais, fragilidades humanas e tensões sociais e políticas expressivas e cheias de significados para nós até hoje. Talvez tenhamos, no fundo, mais em comum do que ela estaria disposta a admitir em uma resposta de entrevista.

Sua grande projeção internacional para além dos circuitos da filosofia acadêmica se deu especialmente com o desenvolvimento da teoria das capabilities (capacidades), ou capabilities approach. Associada às pesquisas do prêmio Nobel de Economia Amartya Sen (conferencista do Fronteiras do Pensamento), a abordagem das capacidades contribuiu, desde a perspectiva da Filosofia, para mudar o debate internacional sobre desenvolvimento ao se dissociar da simples medição do PIB (Produto Interno Bruto): outros fatores deveriam ser levados em consideração para compreender o desenvolvimento de uma sociedade. Seguindo um caminho aberto justamente por pesquisadores como Sen, Nussbaum conseguiu introduzir no interior do debate econômico as discussões sobre justiça.

Em tempos como os nossos, em que os questionamentos sobre a desigualdade econômica e social estão no centro da busca por uma sociedade justa, as contribuições de Nussbaum não podem faltar a uma reflexão séria, que jamais estará completa se contemplar apenas realidades econômicas. O funcionamento de nossas instituições, liberdades individuais e condições práticas que garantam o gozo dessas instituições e liberdades são tão indispensáveis quanto uma renda adequada para que sejamos os seres humanos que somos capazes de ser.

Percorrer todos esses tópicos – e ainda outros! – seria, sem dúvida, um desafio. E foi. As animadas e profundas reflexões de Martha Nussbaum, no entanto, dão ao conjunto uma unidade singular: sua dimensão humana, sensível, que a aproxima de nós, que nos faz buscar o melhor para nós e para os nossos semelhantes, em um contínuo florescer de nossas capacidades. Vocês verão – e gostarão!

EDUARDO WOLF | Doutor em Filosofia pela USP, curador-assistente do Fronteiras do Pensamento