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Mia Couto: “Somos o que somos porque somos os outros”

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Mia Couto é conhecido por sua habilidade em contar histórias de forma extraordinária, nas quais consegue atravessar fronteiras e mesclar mitologia, lenda e fantasia com humanidade e lirismo. Mas, além disso, o escritor e biólogo moçambicano fala sobre a vida e sobre as questões do mundo com sensibilidade e empatia.

Em entrevista exclusiva à Braskem durante sua conferência na temporada 2020 do Fronteiras do Pensamento, o escritor moçambicano fala sobre a memória, elemento muito presente em seus enredos, considerando que as memórias são sempre meio inventadas, produto de ficção, e isso as tornam verdade.

“O fascínio de nossas lendas é o que nos torna pertencentes a um determinado lugar.”

A mistura de ficção e realidade, o fascínio das lendas, para ele é justamente o que forma o sentimento de pertencimento de cada povo. Ele enaltece o pensamento metafórico que está relacionado à poesia, para, assim, chegar à verdade das coisas.

“O importante é resgatar um tipo de pensamento que é metafórico, que usamos para chegar à verdade e que não é preciso provar através de números, de fatos, a verdade das coisas.”

A poesia e a literatura são lembradas como pontes não apenas para alcançar as verdades, mas também para resgatar a coletividade necessária ao convívio de diferentes povos e culturas. A vida compartilhada, a viagem comum, como diz Mia Couto, diz respeito a algo que todos nós vivemos e sentimos de alguma forma. Neste contexto que entra a literatura, com seu poder de dissolver as diferenças e abraçar as particularidades ao mergulhar na individualidade do ser humano.   

“Contando a história de pessoas particulares, se eu conto a história de alguém de Moçambique, se eu realmente chego fundo e traduzo aquilo que é a individualidade desse personagem, eu estou falando de alguém que pode ser brasileiro, pode ser ucraniano, pode ser sueco. A descoberta dessa igualdade, digamos assim, da particularidade que tem cada vida, essa viagem que é comum, me parece que todos nós percebemos que houve uma fabricação de uma homogeneidade que não existe, que não é verdadeira. Não temos que temer ou hipervalorizar essas diferenças, essas distensões que são particulares de cada continente, de cada povo, porque no fundo somos muito mais parecidos. Há um provérbio africano que diz “eu sou os outros”, e a literatura relembra isso em cada história, em cada livro, que nós somos o que somos porque somos os outros.”

Biólogo, professor e escritor, Mia Couto é o único membro africano da Academia Brasileira de Letras. Autor das obras “Terra Sonâmbula”, “A confissão da leoa” e “Bebedor de Horizontes”, o escritor moçambicano é um dos nomes mais lidos em língua portuguesa na atualidade.

>> Assista ao vídeo completo da entrevista de Mia Couto à Braskem: