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Moacyr Scliar: A literatura como síntese cultural no Brasil

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Moacyr Scliar (foto: Neco Varella/AE)
Moacyr Scliar (foto: Neco Varella/AE)

Ao longo de uma célebre carreira, Moacyr Scliar se tornou muito mais do que o “escritorzinho do Bom Fim”, título que carinhosamente citava e que até almejava em sua trajetória na literatura.

Com mais de 80 obras publicadas em diversos gêneros — crônicas, contos, ensaios, romances —, Scliar marcou gerações e se eternizou como um dos escritores brasileiros mais lidos internacionalmente.

Falecido no dia 27 de fevereiro de 2011, o Fronteiras do Pensamento marca estes oito anos sem o escritor com uma lembrança, a conferência de Moacyr Scliar na primeira edição do projeto, em 2007, na capital gaúcha.

Scliar subiu ao palco ao lado da escritora e jornalista norueguesa Asne Seierstad que, na época, estava viajando pelo mundo para falar da obra que seria seu maior sucesso, O livreiro de Cabul.

Moacyr Scliar não deixou de comentar o best-seller da colega em artigo à Zero Hora, publicado no livro A poesia das coisas simples:

“O Livreiro de Cabul é um best-seller, em primeiro lugar porque tem como cenário uma parte 'interessante' do mundo. Tudo que diz respeito a Afeganistão, Iraque, Irã, atrai a atenção: são áreas de conflito, e conflito não raro sangrento. Os chineses têm um ditado que diz algo como 'Deus nos livre de viver em épocas interessantes', e isto porque épocas interessantes (ou lugares interessantes) em geral se traduzem em milhares ou milhões de vítimas.”

E foi sobre confrontos que Scliar fundamentou sua fala ao público do projeto: a relação entre grupos diferentes precisa envolver conflitos? O escritor nos mostrará que não, com base em sua própria jornada de vida.

Ainda, ele nos presenteará com uma visão de Brasil que vai contra ao que ele marca como o hábito da população, reforçar como nosso país é ruim. Os imigrantes retratados na fala de Scliar nos devolverão a beleza das coisas simples que faziam do Brasil um belo sonho para estas pessoas.

Confira abaixo as lições inspiradoras de Moacyr Scliar deixadas em sua passagem pelo palco do Fronteiras do Pensamento 2007. Nosso agradecimento à presença deste ilustre escritor no projeto.

livreiro de cabul moacyr scliar
Asne Seierstad e Moacyr Scliar no Fronteiras do Pensamento


Moacyr Scliar | A literatura como síntese cultural no Brasil

Quero, inicialmente, partir do livro da escritora Asne Seierstad, O livreiro do Cabul, que aborda vários temas candentes, entre eles o da opressão da mulher no Afeganistão. Pergunta: quando apontamos essas questões, estamos agindo movidos por um preconceito cultural ou estamos cumprindo um dever ligado à nossa própria condição humana?

A resposta da escritora é muito clara. Ela opta pela segunda alternativa: acima dos condicionamentos culturais, étnicos ou religiosos, está a condição humana de cada um de nós.

Os direitos humanos estão acima de coisas como os costumes tribais. Isto posto, é preciso dizer que a identidade cultural e outras identidades são absolutamente fundamentais para a existência humana, inclusive e principalmente no que se refere à criatividade.

Quero exemplificar com uma experiência cultural, que, como filho de imigrantes radicados no bairro do Bom Fim, em Porto Alegre, vivi intensamente. Essa experiência mostra que a relação entre grupos diferentes nem sempre envolve conflito, que, ao contrário, ela pode resultar numa vivência estimulante.

É a história dos imigrantes judeus-russos que vieram para o sul do Brasil, mais especificamente para o Rio Grande do Sul. Gente que saiu de uma Europa devastada por guerras, por conflitos, uma Europa em que a perseguição étnica, religiosa e política era regra, e embarcaram nos navios de imigrantes, tão pungentemente retratados pelo pintor Lasar Segall, em busca de uma nova vida nesse lugar chamado Brasil.

Havia um projeto de colonização agrícola nas regiões próximas a Santa Maria, Erechim, Passo Fundo onde eles, como os imigrantes alemães, imigrantes italianos, recebiam lotes de terras e tentavam desenvolver alguma atividade agrícola.

Existe, do início da colonização, urna foto que me parece histórica e paradigmática. Vemos nela dois homens, fisicamente parecidos e vestidos à moda gaúcha; estão partilhando o chimarrão.

Um desses homens é um gaúcho nascido no Rio Grande do Sul, o outro é um imigrante. Pela aparência de ambos é simplesmente impossível dizer quem é quem. E isto mostra como os imigrantes se integraram bem à nova realidade que era muito precária, como mostra uma foto de Quatro Irmãos, então uma vila no meio da região de colonização: casas pobres, ruas precárias...

No entanto, uma terceira foto, mostrando uma moça que veio com uma das primeiras levas de imigrantes e que é vista conduzindo uma carreta de bois, impressiona-nos pelo seu ar de felicidade. Essa felicidade deriva da visão que os imigrantes tinham do Brasil e que o historiador Sérgio Buarque de Holanda resumiu no título de um livro: Raízes do Brasil.

O Brasil era, para os imigrantes, uma visão do paraíso. E continuou a sê-lo mesmo depois que, por causa de várias dificuldades, os imigrantes deixaram as suas pequenas propriedades, mudando para as cidades mais próximas ou para Porto Alegre, onde eles se localizaram no bairro do Bom Fim. Moravam em casas precárias, tinham profissões humildes, passavam necessidades, mas compensavam as carências com um forte sentido de comunidade.

Todas as noites as famílias se reuniam, em cadeiras na calçada, se era verão, na casa de alguém, se era inverno, e ficavam conversando, contando histórias. Histórias que eram muito reveladoras desta visão do paraíso acima mencionada, e que contrastava com o hábito, muito disseminado em nosso país, de falar mal do Brasil: um país minado pela corrupção, um país que não vai para a frente...

Para os imigrantes o Brasil era um sonho. Por quê? Será que a esperança deles era chegar aqui, enriquecer, ascender socialmente, morar numa mansão, ter empregados, automóveis de luxo? Não, não era isso.

O sonho dos imigrantes se traduzia nas coisas mais elementares e mais ingênuas que se pode imaginar: o Brasil é maravilhoso porque aqui o sol brilha, porque o céu está sempre azul, porque há praias, e florestas, e frutas, tem frutas...

Frutas. Difícil imaginar o que representavam as frutas brasileiras para os imigrantes. Laranja, por exemplo: na Rússia era uma fruta caríssima, frequentemente importada; só ricos podiam saborear laranjas.

Nas aldeias judaicas, laranja só em festas, e mesmo assim era uma laranja para toda a família. Laranja eles ainda conheciam, mas frutas como abacaxi, manga, eles jamais tinham visto. E assim, eram numerosas as histórias que contavam a respeito.

Perto da minha casa, na rua Vasco da Gama, tinha uma senhora que nunca tinha visto um abacate, porque, na região em que vivia, só ricos comiam abacate. Mas ela imaginava que, se o Brasil tinha tanta coisa boa, deveria ter esse tal de abacate também, e em abundância. Então, quando o marido anunciou que eles iam se mudar para o Brasil, ela estipulou uma condição: teriam de começar a vida comendo abacate.

Embarcaram no navio de imigrantes e ela passou mal na longa viagem, mas confortava-se com a ideia de que, quando chegasse ao Brasil, poderia enfim comer abacate.

Quando desembarcaram, ela exigiu que o marido cumprisse a promessa: queria um abacate. O homem saiu ali pelo porto e, milagrosamente, porque não falava uma palavra de português e não tinha um centavo, voltou com um abacate, que ofereceu à esposa.

Problema: ela não sabia comer abacate, era uma tecnologia que não dominava. Mas era para comer, e ela comeu o abacate com casca e tudo (não me perguntem se engoliu o caroço). O marido mirava-a, intrigado com as caretas que ela fazia. E lá pelas tantas, perguntou que tal era aquela coisa chamada abacate.

— Não é bem o que eu esperava — ela respondeu, acrescentando: — Mas eu vou me acostumar.

Essa disposição de enfrentar o inesperado, de ver o lado bom das coisas, de acreditar que tudo podia melhorar, isso foi o segredo do sucesso da imigração.

Cresci escutando essas e outras histórias, sobretudo porque meu pai era um grande narrador. Muito cedo, decidi que gostaria de fazer aquilo também, gostaria de contar histórias, mas por escrito, como eram as histórias dos livros infantis que eu lia, estimulado por uma mãe que, com muito sacrifício estudou, tornou-se professora, e era uma mulher culta, que adorava ler e que deu ao primeiro filho o nome de um personagem de José de Alencar.

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Moacyr Scliar segura no colo o filho Beto na Rua da Ladeira, em Porto Alegre, em 1981 (foto: Carlos Gerbase)


As histórias e as leituras eram fonte de prazer e de emoção, e esta é a base da literatura. Qualquer coisa que os livros nos transmitam, qualquer ensinamento, será, inevitavelmente, mediado pelo prazer e pela emoção — apoiado na arte e na técnica da narrativa.

No começo, eu escrevia histórias infantis; depois, quando entrei na Faculdade de Medicina, meu universo ficcional alargou-se pela convivência com a dor, e, mais tarde, pela experiência de saúde pública, que é muito reveladora da realidade brasileira.

O que eu escrevo é, pois, o resultado de uma síntese cultural.

A conclusão é óbvia: nem sempre diferenças culturais significam hostilidade, nem sempre diferenças culturais significam ódio. Ao contrário, aquilo que muitas vezes se chama de choque cultural pode ser extremamente benéfico se a pessoa está aberta para outras realidades, se a pessoa é capaz de aceitar o outro, de entender o outro.

Isso não implica aceitar a imposição da vontade do outro como se isso fosse uma inevitabilidade; a defesa dos direitos humanos e das liberdades fundamentais é algo básico em qualquer manifestação cultural.

O Brasil é, sob muitos aspectos, um melting pot cultural, um país em que a miscigenação é uma realidade. Temos, em nossa literatura, distintas vozes representando distintos grupos.

Particularmente, considero-me um escritor brasileiro que traz para a literatura de nosso país a experiência de um grupo humano e que, aqui no Brasil, encontrou seu lar.

Relembre Moacyr Scliar

O médico e premiado escritor brasileiro fala sobre a literatura engajada no Brasil e sobre a influência da cultura judaica em sua obra.