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Nobel da Paz, Denis Mukwege revela como mantém seu propósito de vida em meio a tanto sofrimento

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Quais são Os Sentidos da Vida que nos movem atualmente? Um dos nomes mais interessantes de se ouvir sobre a temática proposta pelo Fronteiras do Pensamento é Denis Mukwege, que oferece à vida um inquietante sentido heroico.

A história do médico que teria diante de si a vida segura e confortável da Europa, mas que decide voltar ao Congo, em meio à guerra, e dedicar sua atuação a devolver a dignidade a mulheres vítimas das mais atrozes formas de violência sexual. Mukwege concebe a vida a partir de um profundo senso de ética, justiça e responsabilidade.

Mukwege esteve pela primeira vez no Fronteiras do Pensamento em 2010 e retorna nesta temporada, após ter recebido o Prêmio Nobel da Paz em 2018.

Denis Mukwege é o conferencista de agosto e sobe ao palco do projeto nos dias 19 (Porto Alegre) e 21 (São Paulo).

Além do médico congolês, o Fronteiras do Pensamento Porto Alegre ainda receberá Janna Levin, Werner Herzog, Contardo Calligaris e Luc Ferry. Garanta sua presença nos próximos eventos: 

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Na fala abaixo, Dr. Denis Mukwege abre seu coração e revela a chama que mantém aceso seu propósito diário em meio a tanta dor e violência.


Como manter o propósito de vida em meio a tanto sofrimento | Denis Mukwege

Meu nome é Denis Mukwege eu sou diretor do Hospital de Panzi, na República Democrática do Congo. Sou médico. Minha especialidade é Ginecologia e Obstetrícia. Nos últimos anos, me especializei ainda mais no tratamento de vítimas de violência sexual.

Completei meus estudos em Medicina com uma tese sobre Pediatria, falando a respeito da vacinação em recém-nascidos contra Hepatite B. Minha orientação realmente era a Pediatria.

Quando comecei a praticar a Medicina, aconteceu algo que mudou minha vida radicalmente: um dia, fiquei sabendo que duas mulheres tinham morrido na nossa maternidade.

Elas não tinham recebido tratamento adequado. Elas chegaram à clínica tarde demais e tinham uma hemorragia incontrolável.

Aquilo me chocou. Mas, aquele foi apenas meu primeiro choque. Nos dias seguintes, isso se tornou uma rotina.

Naquele hospital, vi mulheres que tinham tentado dar à luz em casa com resultados trágicos, que chegavam mortas ou casos em que a clínica não podia mais fazer muito por elas.

Instintivamente, disse a mim mesmo: essas mulheres morrem enquanto estão dando vidas. Isso não é normal. Preciso ajudar a corrigir isso.

Durante meu treinamento na faculdade de Medicina, nunca tinha visto essas coisas. Então, decidi me especializar em Ginecologia e Obstetrícia.

Tratar mulheres que foram mutiladas, agredidas, estupradas e torturadas… Não existem mais muitas coisas capazes de me dar alegria na vida.

Mas, devo fazer uma ressalva: continuo a ser dedicado a esse trabalho. Minhas pacientes são mulheres, mães de crianças pequenas. Elas sofrem, por exemplo, de incontinência devido à perfuração da bexiga ou devido à perfuração do reto. Quando você fecha as feridas, as trata e elas se recuperam…

Esta emoção é sem tamanho para mim. Ver uma mulher renascer em uma nova vida.

A maneira com que elas me chamam no quarto e dizem: ‘doutor, veja! Eu não estou fazendo xixi em mim mesma!’. É uma mulher madura dizendo isso.

Essas são coisas que mexem com as nossas emoções. Estas experiências te presenteiam com alegria de viver. Alegria por dar alegria de viver a alguém que estava em total desespero.

Eu já tratei mais de 40 mil mulheres vítimas de violência sexual, vítimas de brutalidade extrema. Eu já viajei para todos os lugares no mundo onde as decisões são tomadas para falar contra essa situação.

Infelizmente, ainda estou esperando por uma reação em relação ao meu país, em relação aos conflitos em que as mulheres são sujeitadas a esta violência.

Acredito que as vítimas precisam falar. O melhor caminho para prolongar a tortura é calar.

Elas precisam falar. Elas precisam testemunhar. Elas precisam exigir seus direitos. Nós precisamos criar sistemas alternativos que permitam que as mulheres se sintam livres para falar, para testemunhar.

Quando elas são vítimas de tortura, estupro ou violência, atualmente, muitas mulheres não podem ir a uma delegacia prestar queixa. Quando elas vão à polícia, precisam começar explicando por que aquilo aconteceu. O que importa é que aconteceu.

Existe uma tarefa que é prover apoio para esta mulher. Mas, em vez disso, ela passa por um interrogatório que a humilha ainda mais. Se isso não mudar, as mulheres sofrerão em silêncio.

(Via Human)

Lembre-se: Denis Mukwege é o conferencista de agosto e sobe ao palco do projeto nos dias 19 (Porto Alegre) e 21 (São Paulo). Garanta sua presença nos próximos eventos: 

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