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O inescapável fracasso de todo escritor

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O poeta francês Stéphane Mallarmé é o autor de
O poeta francês Stéphane Mallarmé é o autor de "Sinfonia Literária"

"Qualquer um que tenta escrever, exceto Dante, talvez, sabe que está destinado ao fracasso."

Grandes poetas e romancistas, através da história, travaram um belo embate com a linguagem na hora de expressarem os infinitos universos sobre os quais escreviam. Um embate fadado ao fracasso, diz o argentino Alberto Manguel, mas que, acima de tudo, vale a pena lutar.

A “musa moderna da impotência”, trazida à luz por Mallarmé em sua Sinfonia Literária, reflete bem o poético conflito de quem dedica sua vida a criar mundos mais vastos do que a palavra pode abarcar. Diz ele:

“Musa Moderna da Impotência, que há muito me baniu do tesouro familiar dos Ritmos [...] Minha inimiga e, no entanto, minha feiticeira de misturas pérfidas e de embriaguez melancólica, eu dedico a você, como um escárnio ou - eu não sei? - como um penhor de amor, essas poucas linhas da minha vida, escritas nas horas sagradas, quando você não me inspirou ódio pela criação e amor estéril pelo nada. Você descobrirá nelas as alegrias de uma alma puramente passiva que até agora é apenas uma mulher, e que amanhã pode ser um animal.”

Em fala exclusiva ao Fronteiras, Alberto Manguel reflete sobre estas fronteiras da palavra.

Alberto Manguel | O inescapável fracasso de todo escritor

Mallarmé dizia que todo escritor escreve sob a inspiração da musa da impossibilidade. Qualquer um que tenta escrever, exceto Dante, talvez, sabe que está destinado ao fracasso. Que a concepção de uma obra não será nunca a que resultará no fim da escrita. A linguagem humana não pode narrar as experiências mais profundas, é uma ferramenta fraca.

O fato de usar metáforas é uma prova dessa fraqueza da linguagem. Temos que recorrer a comparações para evitar ter que encontrar a palavra exata.

Mas o fato de que seja algo impossível não significa que não devamos tentá-lo. Ir à casa do unicórnio, mesmo que não exista, ou criar anjos, embora saibamos que não existem anjos, são tentativas humanas honoráveis. E escrever um livro, mesmo sabendo que esse livro não será o livro que imaginamos, também é uma tentativa, às vezes, honorável.

Robert Louis Stevenson dizia que nossa missão na vida não é triunfar, mas fracassar, mas no melhor dos espíritos.


>> Indicamos um artigo do próprio Manguel, extraído de uma palestra em Yale, em que ele aprofunda sua fala e vai de Borges à Bíblia, sem deixar de passar pelos grandes filósofos da história. Clique aqui para ler The Muse of Impossibility.

Confira também a “Sinfonia Literária”, de Mallarmé:
Em francês, Symphonie littéraire
Em espanhol, Sinfonía literaria

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alberto manguel
Alberto Manguel

Novelista, ensaísta, dramaturgo, jornalista e tradutor, Alberto Manguel soube agregar diversos gêneros literários em suas mais de 40 obras publicadas. Sua ampla compreensão do mundo, seu profundo envolvimento com a literatura e sua capacidade de “ser” outros através da leitura e da escrita fazem de Manguel um escritor de alcance internacional e multicultural.

Autor de livros como Dicionário de lugares imaginários, Uma história da leitura, A biblioteca à noite e A cidade das palavras – as histórias que contamos para saber quem somos, o escritor é doutor honoris causa por diversas universidades e recebeu honrarias como o título de Oficial da Ordem das Artes e das Letras, do Ministério da Cultura da França, e recentemente, o Prêmio Internacional Formentor.

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