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O passado e o presente de uma doença

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Em "O Imperador de Todos os Males", Mukherjee traz episódios e relatos que ilustram o embate entre a humanidade e o câncer.

Siddhartha Mukherjee vive para transpor fronteiras. Hoje professor da Universidade de Columbia, em Nova York, o médico e cientista nasceu em Nova Delhi, na Índia, em uma família bengali de classe média. Distinguiu-se nos estudos, recebendo as mais altas honras na escola. Cedo mostrou pendor para ciência – e seus primos na Califórnia convenceram-no a cursar Biologia na Universidade de Stanford, um dos principais centros mundiais de inovação.

Ganhador da Bolsa Rhodes, seguiu para a Universidade de Oxford, na Inglaterra. Lá obteve o doutorado em Imunologia, trabalhando com respostas imunes a vírus. Surpreendeu a todos quando recusou propostas para estabelecer seu próprio laboratório, decidindo que, para realmente compreender doenças, precisava estar ainda mais próximo destas. Assim, retornou aos Estados Unidos, mas agora para cursar Medicina em Harvard, onde especializou-se em Oncologia.

Nada em décadas de estudo o havia preparado, contudo, para o impacto que o contato com os pacientes de câncer teria em sua vida. Consumia-se com as histórias destes, atormentado pelas decisões diárias que precisava tomar quanto a tratamentos que via de regra apenas prolongavam temporariamente algumas vidas, ainda que as transformando para sempre. Sentindo-se impotente, intuiu que as experiências de cada um de seus pacientes eram parte de uma batalha mais ampla – e muito antiga. Mergulhou assim profundamente na história do câncer, e dali emergiu ciente de que o passado da doença explicava o seu presente.

Nossa visão do câncer – e seu tratamento – acompanhou e acompanha a evolução do pensamento humano. Por maiores que sejam nossos avanços tecnológicos, a única esperança de revolucionar definitivamente o campo residia em revolucionar os paradigmas que guiam nosso comportamento. O resultado dessa jornada tornou-se um best-seller internacional – O Imperador de Todos os Males: Uma Biografia do Câncer, publicado em 2010. O livro ganhou uma série de prêmios, incluindo o Pulitzer de 2011 na categoria não ficção, e foi adaptado como documentário para TV, dando por sua vez um Emmy ao seu realizador, Ken Burns.

Leia também: Siddhartha Mukherjee, oncologista de Columbia, revela a biografia do câncer

Mukherjee surpreende ao escrever como um ficcionista experiente. É difícil crer que o livro foi escrito, como ele conta, sem nenhum processo ou disciplina, em cada intervalo que conseguia extrair nos exaustivos dias de residência médica no Dana Farber Hospital, em Harvard. Com estilo, mas sem descuidar dos fatos ou da ciência, a história é contada como uma biografia, em que o personagem principal tem 4 mil anos. Mukherjee viaja cronologicamente pelos principais conceitos já empregados para definir o câncer, mas não se limita a um relato. Ele usa o aprendizado emocional que obteve tratando pacientes oncológicos para trazer ora a gravidade, ora a euforia necessária para dimensionar ao leitor episódios desse embate entre a humanidade e a doença. O imperador mostra-se um adversário formidável, mas o texto é permeado pelo otimismo de alguém que compreende, admira e compartilha a capacidade humana de resolver problemas aparentemente insolúveis.

Mukherjee ignora fronteiras entre identidades e ideias, salta sobre elas com leveza. Cientista, anseia por transcender a academia, aplicando o conhecimento que ajuda a gerar. Médico, coloca-se no lugar dos pacientes, e, como eles, anseia por uma solução definitiva para a doença até hoje mencionada em voz baixa e aterrorizada. Pesquisador, busca na história respostas para o presente e esperança para o futuro. Escritor, usa arte para explicar de maneira simples problemas extremamente complexos. É admirável seu desapego a qualquer conceito que ele mesmo, ou outro, tenha da sua pessoa. Para escrever seu livro seguinte, O Gene, publicado em 2016, não hesitou em cruzar uma fronteira íntima: investigou e trouxe elementos de sua própria história familiar, atormentada por uma série de casos de doença mental.

O Gene é escrito num estilo diferente do livro anterior: ainda rico em detalhes sobre os principais personagens, é mais um livro de aventura do que um romance histórico. Mukherjee narra de forma eletrizante como os seres humanos descobriram as leis da hereditariedade, conceberam o conceito de gene, desvendaram a estrutura do DNA e, finalmente, chegaram a um ponto onde podem manipulá-lo, contudo ainda sem entender completamente as consequências disso. Ele partilha com o leitor o privilégio que teve em presenciar muitos dos momentos-chave dessa odisseia. Em Stanford, seu então mentor, Paul Berg, recebeu o Nobel por seus estudos nas primeiras quimeras de DNA – seres em que misturava o material genético de vírus e bactérias. Hoje, batalhas patentárias são travadas em Harvard para decidir quem pode explorar comercialmente as mais novas tecnologias para editar o genoma humano.

Que características podemos – ou devemos – editar em pessoas? O quanto o material genético realmente determina o comportamento humano? Qual o limite aceitável de manipulação genômica em um ser, uma população? Quem garantirá que essa tecnologia não seja usada para subjugar? O que será considerado saudável, uma vez que os alimentos sejam fruto de seres editados? Essas perguntas não podem ser respondidas de forma simplista, ou radical. Ao contrário, cada um de nós precisa fazer um esforço para conhecer todos os ângulos, ouvir os diferentes argumentos, exercitar o pensamento, em vez de fechar os olhos e tapar os ouvidos para algo que pareça difícil ou mesmo impossível. Siddhartha Mukherjee veio para nos ensinar que transpor as fronteiras com as quais nos deparamos diariamente não apenas pode ser útil ou prazeroso, mas necessário para preservar nossa humanidade. E, acima de tudo, nos tempos de extrema divisão em que vivemos, urgente.

(Por Cristina Bonorino, imunologista e pesquisadora 1C do CNPq | para Revista Fronteiras ZH)