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O que faz as pessoas serem boas ou más? Pergunte ao Dr. Love

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O acadêmico americano Paul Zak é famoso entre seus colegas por duas coisas desconcertantes que faz com as pessoas logo depois de conhecê-las. A primeira é abraçá-las: ele me vê chegando quando ainda estou do outro lado da sala em seu clube no centro de Manhattan, em Nova York, e se levanta lépido, ignora minha mão estendida e me envolve em seus braços. A segunda coisa é enfiar agulhas nos braços delas para tirar sangue.

Acabo emergindo de nosso encontro sem ter sido furado, mas isso não acontece com muitas pessoas. O trabalho de Zak, que ele descreve como "estudos vampirescos", já o levou a extrair sangue de noivos no dia do casamento; de pessoas que acabam de fazer massagens ou dançar; de Quakers, antes e depois de suas orações silenciosas, e de guerreiros tribais em Papua-Nova Guiné quando se preparam para realizar rituais tradicionais.

O fato de todas essas pessoas se submeterem a sua agulha de tão bom grado pode dever-se em parte a uma coisa: que Paul Zak é o charme personificado. Californiano de 50 anos com maxilar quadrado, cabelo bonito, espírito cordial e apelido que agrada à mídia (Dr. Love), ele dá a impressão de ter sido construído em um laboratório encarregado de criar a pessoa ideal para fazer palestras TED.

"Para maiores informações, para solicitar uma entrevista ou até mesmo pedir um abraço de Dr. Love", diz o release de imprensa que acompanha seu novo livro, A molécula da moralidade, "entre em contato com..."

A sede de sangue humano que o Dr. Zak sente se deve a seu interesse no hormônio oxitocina, sobre o qual ele se tornou um dos maiores especialistas mundiais. Conhecida há muito tempo como hormônio reprodutivo feminino - desempenha papel fundamental no parto e na amamentação -, a oxitocina emerge das pesquisas de Zak como algo muito mais abrangente: ela seria a "molécula da moralidade" subjacente a toda a virtude, a confiança, o afeto e o amor humanos.

Nas palavras dele, ela é "uma cola social que mantém a sociedade unida". O subtítulo de seu livro, "as surpreendentes descobertas sobre a substância que desperta o melhor em nós", dá um indício da escala de sua ambição, que envolve nada menos que a explicação de grandes questões filosóficas e religiosas por meio de uma única substância química presente no fluxo sanguíneo.

Ficamos sabendo que ser bem tratadas eleva os níveis de oxitocina das pessoas, o que, por sua vez, as leva a comportar-se melhor, enquanto sujeitos experimentais aos quais é dada uma dose de oxitocina artificial, através de um inalador, demonstram mais generosidade e confiança.

E não é unicamente em função de seu efeito sobre os humanos que a oxitocina é conhecida como "o hormônio do carinho": por exemplo, ratos-do-campo machos, normalmente muito promíscuos em suas interações com as fêmeas da espécie, tornam-se apaixonadamente monógamos quando seus níveis de oxitocina são elevados no laboratório.

O casamento mencionado acima - da repórter da New Scientist Linda Geddes e seu noivo - aconteceu numa casa de campo em Devon, na Inglaterra, onde Zak montou uma estação temporária de pesquisas. Ele extraiu amostras de sangue, antes e depois da cerimônia do casamento, dos noivos, seus familiares mais próximos e diversos amigos que estavam presentes, e então retornou de avião a seu laboratório na Universidade Claremont, no sul da Califórnia, levando 156 tubos de ensaio guardados entre gelo seco.

No laboratório, encontrou os resultados que já previa: a cerimônia tinha suscitado uma elevação da oxitocina nas pessoas presentes ao casamento. E o fez de maneiras sutis: a noiva registrou a maior elevação do hormônio, seguida pelos parentes mais próximos e então pelos amigos mais distantes, "em proporção direta à intensidade provável do engajamento emocional no evento". (Apenas o noivo contradisse a tendência: a testosterona interfere com a oxitocina, e o nível de testosterona dele estava alto.)Na descrição feita por Zak, o mapeamento dos níveis de oxitocina no casamento produziu um "sistema solar" humano no qual a noiva era o Sol e o hormônio estava finamente sintonizado com o envolvimento emocional sentido por cada um dos presentes. "Foi assombrosa", recorda o cientista, "essa visão perfeita de como a oxitocina se sintoniza com o ambiente".



CANALHAS
O ponto de partida foi um mistério persistente na área de estudos original de Zak, a economia: repetidas vezes, em experimentos, as pessoas se comportam com mais generosidade do que preveem os modelos econômicos tradicionais. Uma demonstração clássica disso é conhecida como o Jogo da confiança, em que pares de participantes se comunicam através de terminais de computador.

Elas nunca se encontraram e não fazem ideia de quem seja a outra pessoa. A pessoa A recebe US$ 10 e é convidada a transferir eletronicamente uma parte desse valor para a pessoa B. A pessoa A tem uma motivação para fazê-lo: de acordo com as regras, que as duas pessoas conhecem, qualquer dinheiro que A enviar a B triplicará de valor, e então B terá a opção de mandar uma parte dele de volta a A, como retribuição.

De acordo com as noções convencionais de comportamento racional, o jogo deveria ficar paralisado antes mesmo de começar. A pessoa B, agindo de modo egoísta, não tem razão para devolver dinheiro algum. Ciente disso, a pessoa A não deveria transferir nada para ela, para começar.

No entanto, nos experimentos com o jogo, 90% das pessoas A enviam o dinheiro, enquanto 95% das pessoas B mandam uma parte dele de volta à pessoa A. A análise da oxitocina presente no sangue delas revela o que está acontecendo: ao enviar dinheiro à pessoa B, a pessoa A está dando um sinal de confiança - e ficamos sabendo que o fato de receber um sinal de confiança leva o nível de oxitocina do destinatário a subir, motivando mais comportamentos generosos em troca.

E não é apenas receber dinheiro de graça que leva as pessoas a sentir o "calor agradável" da oxitocina: em outros estudos que Zak fez, benesses recebidas aleatoriamente não levam à distribuição de uma parte tão grande delas. O que faz a diferença é saber que outra pessoa confiou em você; o voto de confiança recebido de uma pessoa desencadeia a oxitocina em outra, fato que provoca mais comportamentos dignos de confiança, e assim por diante, num círculo virtuoso.

"Isso, com a exceção dos 5% das pessoas que são 'não reciprocadoras incondicionais", diz Zak, aludindo à minoria constante das pessoas que parecem ser imunes a esse ciclo. "Em meu laboratório, nós as chamamos de 'canalhas'."

PRECONDIÇÃO CRUCIAL
Essas descobertas encerram implicações importantes para nossa visão da moralidade. Os economistas tendem a orgulhar-se de ser realistas frios: a moralidade pode ser um conjunto de ideias bonitas sobre como as pessoas deveriam se comportar, reza esse modo de pensar, mas a economia é a análise de como elas se comportam de fato, motivadas não por valores éticos instigantes mas pelo desejo de ganho pessoal.

Ironicamente, talvez, as religiões tendem a compartilhar a mesma visão: que a conduta moral não acontece naturalmente, mas precisa ser imposta através do medo ou da promessa de uma recompensa.

O próprio Paul Zak foi criado numa família católica rígida; sua mãe, ele gosta de contar, o tirou do colégio católico porque não era suficientemente rígido e "baseou seu modo de me educar na premissa de que um comportamento moral, não egoísta, seria impossível sem a ameaça sempre presente do castigo, quanto mais assustador, melhor".

No entanto, o fato de a seleção natural nos ter dado oxitocina - um mecanismo que nos permite sermos instintivamente gentis e sentirmos confiança no outro - sugere que aquilo que a maioria de nós vê como sendo comportamentos moralmente corretos na realidade faz parte de como evoluímos para sermos.

"O ser humano é provavelmente quase o único animal que regularmente quer ficar na companhia de membros desconhecidos de nossa espécie", comenta Zak. "A gente curte isso. É divertido! Mas, para podermos fazer isso, precisamos ter algo em nossas cabeças que diga 'Oliver é confiável, Bob não é confiável'. E essa coisa é a oxitocina - esta molécula muito antiga, evolutivamente antiga" que nos ajuda a reagir à confiança depositada em nós com exatamente o grau certo de confiança recíproca.

CIVILIZAÇÃO

Os estudos anteriores de Zak tinham demonstrado que a confiança é uma precondição crucial da prosperidade econômica (para realizar transações, é preciso poder confiar nos outros), mas também um resultado dela (a partir do momento em que você não está mais lutando pela subsistência básica, você pode se dar ao luxo de confiar mais).Ele tinha localizado o mecanismo biológico através do qual tudo isso funcionava. A chamada Regra de ouro - trate os outros como você gostaria que eles o tratassem - é "uma lição que o corpo já conhece", escreve Zak.

A partir disso chega-se a quase tudo. "Para mim, essa é a base da civilização: um bando de desconhecidos vivendo juntos", diz Zak. "A partir do momento em que há civilização, pode haver a especialização do trabalho, o excedente, os professores universitários e os sacerdotes, porque agora você já tem como arcar com esse custo, e então ocorre o aumento do conhecimento."

Essa conversa sobre misturar ciência e moralidade suscita desconfiança em alguns setores: o simples fato de algo ser "natural" não quer dizer que seja "certo", eticamente falando, e os esforços para derivar códigos de conduta moral da ciência raramente acabam bem.

(O livro recente de Sam Harris, The moral landscape: how science can determine human values [A paisagem moral: como a ciência pode determinar valores humanos] é um desastre desse tipo: tudo o que demonstra, realmente, é como a ciência poderia ser usada para ajudar a construir a versão de Sam Harris de uma sociedade perfeita, o que não é a mesma coisa.)

Além disso, não está claro o que Zak quer dizer quando afirma que a oxitocina, ou a falta dela, "nos torna" bons ou maus. É o mesmo problema das reportagens sobre cientistas que descobrem a parte do cérebro "responsável" por comportamentos de risco, ou a cobiça, ou a crença em Deus: o fato de você ter descoberto a base biológica de um fenômeno não significa necessariamente que tenha descoberto a "causa real" dele.

Mesmo assim, nada disso enfraquece o aspecto mais poderoso do trabalho de Zak, que é o aspecto prático. Se a oxitocina é o mecanismo através do qual ocorre a ação moral, isso cria a possibilidade - possibilidade que pode ser motivo de otimismo ou de preocupação, dependendo da ótica sob a qual é vista -- de elevarmos os níveis de confiança, generosidade e, em última análise, felicidade de nós mesmos e do mundo em geral.

CONFIANÇA LÍQUIDA
Foram precisos dois anos de embates de Zak com a Administração de Alimentos e Drogas dos EUA e comitês de ética de universidades para conseguir que fosse aprovado o uso de inaladores de oxitocina em sujeitos experimentais (durante esse tempo, Zak evitou as restrições fazendo experimentos com ele mesmo, sob o olhar atento de sua mulher, neurologista praticante).

Mas, embora os trâmites burocráticos fossem complicados, as conclusões que acabaram sendo tiradas não foram: em exercícios como o Jogo da confiança, participantes que inalaram oxitocina demonstraram níveis muito mais altos de confiança e generosidade que os participantes que usaram inaladores com placebo.

Tudo isso pode levantar algumas questões preocupantes: o que vai impedir revendedoras de carros, por exemplo, de bombearem oxitocina em seus showrooms, ou políticos de usar o hormônio em suas campanhas eleitorais? Uma empresa chamada Vero Labs já vende um spray de oxitocina chamado Liquid trust (confiança líquida), supostamente para vendedores e homens solteiros à procura de companhia. Mas, Zak faz pouco caso da objeção: é incrivelmente difícil injetar oxitocina suficiente no fluxo sanguíneo, razão pela qual ele tem que fazer seus sujeitos inalar quantidades tão grandes de vapor.

Usar o hormônio de modo sub-reptício não seria possível. É claro que é possível estimular a elevação da oxitocina de maneiras sutis para promover as agendas de outras pessoas, "mas isso já é feito. Por que você acha que há cachorrinhos simpáticos em comerciais de papel higiênico? Para fazer você se sentir bem", provocando a liberação de oxitocina.

Enquanto isso, diz o Dr. Love, deveríamos todos fazer mais para estimular a oxitocina de maneiras benignas. Ele recomenda um mínimo de oito abraços por dia (abraços em bichinhos de estimação também valem). Massagens e até mesmo filmes água-com-açúcar parecem funcionar bem - Zak já o comprovou com exames de sangue. Interações no Twitter e Facebook parecem suscitar elevações da oxitocina, refutando o argumento de que as mídias sociais estariam acabando com as interações humanas: em termos hormonais, parece, o corpo as processa como interações de tipo inteiramente real.

As implicações políticas ainda não estão muito claras. Zak se descreve como agnóstico político, mas fala bem das ideias de "sociedade grande" de David Cameron, já que as interações em grupos pequenos tendem a funcionar melhor, em termos de oxitocina, que estruturas governamentais maiores. Mas o interesse próprio desenfreado dos fundamentalistas do livre mercado com certeza é uma receita para a redução da oxitocina: a prosperidade emerge em harmonia com a confiança e a bondade, não com o egoísmo, demonstram os estudos de Zak.

Podemos imaginar que os cidadãos cheios de oxitocina da utopia de Zak viveriam em escala local, apoiados por uma rede de segurança social, mas enfatizando o trabalho beneficente e os grupos comunitários. Eles brincariam com seus animais de estimação e assistiriam a comédias românticas. Sobretudo, talvez, seriam muito carinhosos e abraçariam uns aos outros o tempo todo. Isso nos faz pensar que as prescrições do Dr. Love talvez sejam uma causa perdida na Inglaterra.

Este texto é uma tradução de Clara Allain para a Folha de S.Paulo a partir do original do The Guardian