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O que nos faz bons ou maus

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Psicólogo canadense, Ph.D. em psicologia cognitiva pelo MIT, Paul Bloom é mundialmente reconhecido por suas pesquisas sobre como crianças e adultos compreendem o mundo. Interligando diversas áreas do pensamento, o premiado professor de Yale é o autor de O que nos faz bons ou maus (Best Seller - Grupo Record).

Na obra, o psicólogo demonstra que bebês possuem a capacidade de julgar a bondade e a maldade das ações das outras pessoas, além de sentir empatia e compaixão e ter um senso rudimentar de justiça, desbancando teorias de que nasceríamos animais amorais, vindas de nomes que vão de Sigmund Freud a Jean Piaget e Lawrence Kohlberg. Em artigo para o Fronteiras do Pensamento, o neurocientista e reitor da UFRGS, Carlos Alexandre Netto, analisa as implicações das descobertas de Paul Bloom. Leia abaixo:

O que nos faz bons ou maus
Diariamente, nos comovemos com histórias de sofrimento e de solidariedade e nos sentimos inconformados com a injustiça e com as guerras. Somos seres morais e a moralidade, construída a partir da percepção de bem e mal, é um dos pilares da vida em sociedade.

Paul Bloom, psicólogo cognitivo e cientista que vem a Porto Alegre participar do Fronteiras do Pensamento, defende que já nascemos com algum senso de moral, de equidade e de justiça. Para comprovar sua hipótese ele encarou o difícil desafio de estudar a mente dos bebês. Pode parecer espantoso, mas pais e mães sabem que todos nascem com um repertório de comportamentos que se desenvolvem rapidamente, sobretudo as expressões de desconforto, prazer e alegria.

No laboratório do Centro de Cognição Infantil da Universidade de Yale, Bloom e sua equipe trabalham com bebês de 6 a 10 meses e utilizam dois comportamentos simples e consistentes: o estender dos braços, que demonstra preferência, e o tempo do olhar, que reflete o interesse ou a percepção do inesperado. Confortavelmente acomodados no colo dos pais, os bebês assistem a animações ou a teatros de fantoches com enredo simples, em que um dos personagens ajuda o outro, e um terceiro dificulta ou impede que o outro atinja seu objetivo. Em ambas as situações, os bebês percebem a diferença entre os comportamentos, ou seja, discriminam entre o bem e o mal, e sempre demonstram preferência pelo personagem bom e rejeitam o malvado. Com insight e análise científica rigorosa, Bloom constrói a teoria e estende sua abrangência pelo estudo de crianças em situações mais complexas para revelar empatia, compaixão e senso de equidade.

Portanto, nossa vida moral tem uma base inata, que trazemos desde o nascimento. As vivências individuais e coletivas, sobretudo em família, fazem evoluir a moralidade que, no adulto, é modulada tanto pelas emoções como pela razão. Esta é uma perspectiva radicalmente nova sobre as bases do comportamento humano, e que pode contribuir para cultivar o altruísmo e a solidariedade – o bem – e para entender, e quem sabe tratar ou prevenir, a violência e os comportamentos antissociais.