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O retorno de Dom Mario

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Por Sergius Gonzaga                                             

“Les romans de Vargas Llosa aspirent à montrer l´influence du pouvoir dans le maximum d´experiences personelles et sociales”.  ALONSO CUETO (2010)

Submetidos a um jorro contínuo de ficções que, no mais das vezes, centram-se em microexperiências irrelevantes, em registros de realismo trivial, ou ainda em protestos sociais de formas inertes e escasso voo imaginativo, os leitores exigentes encontrarão no último romance de Mario Vargas Llosa –  Tempos ásperos –  a possibilidade de retomada de um dos tipos de relato que melhor traduziu a invenção literária na América Latina, durante os últimos 60 ou 70 anos. 

Tempos Ásperos - Mario Vargas Llosa

Trata-se de uma formulação ficcional em cuja tessitura fundem-se o patrimônio realista do século XIX e o experimentalismo das obras de Joyce, Faulkner, Hemingway e outros construtores da moderna prosa narrativa do século XX. Nela imperam a multiplicidade de pontos de vista, a descontinuidade espacial e temporal, a omissão deliberada de dados, o monólogo interior e o entrecruzamento de planos paralelos. Esses recursos de vanguarda permitem a ampliação desmesurada dos significados da realidade e a dilatação das experiências humanas, que se tornam abertas, movediças e, com frequência, inescrutáveis.  Ao mesmo tempo, tais narrativas de ambição polifônica estão saturadas de interesse pelo universo referencial e de edificação de complexos simulacros da existência. “Como se o escritor competisse com Deus” – escreveu certa vez o próprio Llosa.


UMA NOVELÍSTICA SINGULAR

A exemplo de Carlos Fuentes, Alejo Carpentier, Júlio Cortázar e García Márquez (os dois últimos em menor escala), o escritor peruano produziu uma série desses romances totalizantes. Sua essência reside na arguição das instâncias mais sombrias do poder, seja o poder político, seja o poder mais restrito, mas nem por isso menos feroz, de sistemas fechados, que encontram sua representação literária na rigidez das classes sociais, no conservadorismo dos valores éticos e no substrato infernal das relações familiares e afetivas.      

Vargas Llosa é insuperável na apresentação das conexões turvas e violentas entre a vida privada e o contexto sócio-histórico – normalmente opressivo – em que os protagonistas estão inseridos, às vezes em situação de liberdade e, outras vezes, condenados a cumprir o papel de eternos prisioneiros de um destino cego e impiedoso. Formam uma humanidade composta apenas por verdugos, vítimas e insurgentes. Os que se rebelam, o fazem em nome de princípios morais, em defesa de alguma utopia ou apenas por instinto de sobrevivência. Quase todos têm suas ilusões destruídas e costumam terminar os dias imersos no conformismo, na impotência e na mais abjeta mediocridade.

O resultado desses inquéritos (que desentranham tanto o rumor político e espiritual de uma época quanto a interioridade dos personagens) é a emergência de esplendorosas obras-primas da novelística contemporânea: A cidade e os cachorros (1963); A casa verde (1965); Conversa no Catedral (1969); A guerra do fim do mundo (1981); e A festa do Bode (2000). Mas a vitalidade de seu processo fabulativo transcende aos livros referidos: há duas obras magistrais de temática menos totalizadora: Tia Julia e o escrevinhador (1977) e a pungente novela Os filhotes (1966) – tecnicamente uma das mais audaciosas jamais concebidas nesta espécie literária. Além disso, escreveu vários romances de ótima fatura; uma autobiografia exemplar e inúmeros livros de crítica literária que revelam fina capacidade de análise, associada a uma linguagem persuasiva e repleta de paixão.*         

No entanto, em suas ficções mais recentes, O herói discreto (2013) e Cinco esquinas (2016), ocorrera uma descida de tom. Não eram propriamente relatos menores: Vargas Llosa continuava testemunhando as formas de vida imperantes em nossa época, pondo em cenas heróis problemáticos, desenhando texturas episódicas atraentes, porém os leitores sentiam falta em suas tramas, em sua arquitetura e em sua linguagem, da crispação, da intensidade, da matéria corrosiva (dramática ou humorística) e da singularidade do novo que, em seu conjunto, desvelavam a engrenagem social e o seu reflexo na biografia dos protagonistas. Ou seja, faltavam os elementos que constituíam o núcleo mais impactante de suas realizações.

SANGUEIRA PATRIÓTICA

Sob vários ângulos, Tempos ásperos é uma espécie de retorno (inesperado, eu ousaria dizer) do grande romancista. Talvez não carregue a aura das obras-primas absolutas que deixam os leitores assombrados, à beira da catatonia estética, mas trata-se uma narrativa aberta, instigante, cuja composição estrutural, notavelmente perfeita, ilumina um dos tantos momentos tenebrosos vividos por nações latino-americanas. Seu eixo temático gira em torno do golpe que, em 1954, derrubou Jacobo Árbenz, presidente da Guatemala,  após  conspiração e invasão militar articulada pela CIA, pela United Fruit, e pelo ditador dominicano Rafael Trujillo, que o acusavam de comunista.  **       

Militar jovem e de imenso prestígio no país, o coronel Árbenz fora conduzido à Presidência, em eleições livres, com esmagadora votação. Jamais tivera qualquer vínculo com extremistas de esquerda.  Anos antes, havia se casado com sofisticada jovem salvadorenha que o induzira a uma visão socialdemocrata sobre a realidade guatemalteca, marcada pela miséria e pelo analfabetismo. 70% de população tinha origem indígena e vivia em estado de servidão. Parte considerável das terras pertencia à United Fruit e a poucas famílias oligárquicas. Árbenz deu-se conta de que eram indispensáveis uma reforma agrária – por meio da expropriação de latifúndios improdutivos – e a cobrança de impostos da grande empresa bananeira. A par disso, permitiu a constituição de sindicatos de camponeses e tomou outras medidas populares. Foi então que o pêndulo do relógio das forças reacionárias começou a se acelerar rapidamente para abreviar o seu governo progressista.

No lançamento de Tempos ásperos, em Madri, Vargas Llosa especulou que se a intervenção militar contra Árbenz não tivesse ocorrido, o futuro da América Latina poderia ter sido outro. O projeto reformista da Guatemala serviria de modelo aos demais países que encontrariam, na moldura do regime democrático, saída para suas desigualdades e injustiças seculares. A derrocada dessa experiência inovadora, sob as botas de militares corruptos, financiados e armados pelos norte-americanos, apagou nos povos do continente a esperança de transformações estruturais pacíficas. Segundo Llosa, o jovem revolucionário Fidel Castro – até então um socialdemocrata –  teria começado a perceber que não bastava a vitória eleitoral ou o triunfo guerrilheiro para suprimir o atraso de um país. Que a única opção seria buscar o apoio soviético. A conclusão do escritor era a de que o futuro de Cuba (e o de milhares de jovens, que, nas décadas seguintes, sacrificariam inutilmente suas vidas em guerrilhas quase sempre sectárias) fora traçado, de alguma maneira, no momento da destituição de Jacobo Árbenz.*** 


HISTÓRIA POLÍTICA E FICÇÃO

Apesar do interesse despertado por essas especulações políticas, Vargas Llosa corria o risco de colocar mecanicamente, no centro vital de seu romance,   acontecimentos públicos  transcorridos em um período temporal mais ou menos próximo. A crônica das circunstâncias históricas precisa obrigatoriamente sujeitar-se ao reflexo imediato e veraz da “realidade real’. Fatos ainda vivos na memória coletiva e já investigados por historiadores e jornalistas, não autorizam, em princípio, o seu alargamento e a sua distorção por estratégias imaginativas. Desta contradição resulta um impasse artístico: como adequar os referenciais objetivos de domínio comum ao particular estatuto da ficção? O que fazer, sobretudo no caso Árbenz, em que os caminhos interpretativos do golpe pareciam suficientemente claros e internacionalmente conhecidos? Como transfigurar episódios coagulados do passado  em  vívida matéria privada, evitando-se assim a conversão do texto em algo próximo a uma mera reportagem descolorida?

A estratégia de Vargas Llosa para aceitar o desafio deveu-se ao fato de que Carlos Castilho Armas, o homem que derrubara Árbenz  e se mantivera como ditador, fora assassinado três anos depois (1957). E que o hipotético executor do magnicídio, um pobre soldado da guarda palaciana, suicidara-se em seguida, deixando um diário (ao que tudo indica, apócrifo), onde assumia o crime, dizendo-se filho de comunista morto pelo regime. Esta sempre fora a versão oficialista, até porque o general Miguel Ydígoras Fuentes assumira o comando autocrático da República Dominicana e era preciso justificar a tortura e a execução de milhares de opositores, perpetradas em todo o país. 

Havia, no entanto, múltiplos indícios de que a morte de Castilho Armas decorrera de uma conspiração em que estavam envolvidas várias pessoas e governos. Depois da leitura de livros recentes sobre o assunto, produzidos por historiadores revisionistas, Llosa resolveu explorar ficcionalmente esta hipótese, que atribuía o crime – de forma verossímil – a dois indivíduos: o tenente-coronel Enrique Trinidad Oliva, cruel chefe do serviço de segurança do déspota assassinado; e o homicida e torturador dominicano Abbes García, homem de confiança de Trujillo, enviado à Guatemala com o intuito de liquidar o tiranete local. Como um espectro sutil, apoiava-os na empreitada a enigmática figura de um agente da CIA que atendia por Mike.  A eles se somava a própria amante de Castilho Armas, Marta Borrero, mulher de rara beleza, ambiciosa e inteligente, conhecida como Miss Guatemala, a figura mais surpreendente da narrativa. Embora não tivesse participado do homicídio, ela mantinha vínculos com a CIA e com o agente de Trujillo, Abbes García, que seria o seu próximo amante e protetor.    

Sequestradas da existência real e transfiguradas em personagens romanescas, as referidas criaturas ofereceram ao ficcionista a matéria para a elaboração de uma cartografia do degradado subsolo humano (que floresce, em especial, nas ditaduras e governos populistas latino-americanas), onde abundam seres obsessivos, contaminados pela ambição e pela sede de poder, invariavelmente arrastados por perversões, gosto pela violência e ignóbil servilismo aos déspotas de plantão. Vargas Llosa sente-se à vontade com esses indivíduos que, por sua repulsiva fisionomia moral, são capazes de ultrapassar todos os limites éticos. As forças irracionais e misteriosas do Mal sempre o fascinaram e, em parte, o fulgor inquietante de suas melhores obras procede dos seres malignos que as povoam. 

Tempos ásperos edifica-se, portanto, a partir de duas linhas de intriga que se interligam dialeticamente. A primeira vincula-se ao processo de deposição de Jacobo Árbenz, suas causas e consequências,  apresentado por meio do registro fidedigno do sucedido. A segunda linha, que ocupa pelo menos três quartas partes do texto, é mais dúctil ao exercício inventivo e, por  conseguinte, apresenta maior soberania em relação aos fatos de conhecimento público. Composta por personagens reais e imaginários, esta camada fixa-se na preparação e efetivação do magnicídio e no acompanhamento posterior da existência dos criminosos, até o seu desenlace. Enfoca também a complexa personalidade de Marta Borrero suas relações familiares, sexuais e políticas. 

No primeiro plano do relato, o golpe contra Árbenz deflagra um processo histórico convulso que persiste em todo o livro como símbolo ameaçador da desgraça política vigente na América Latina. Mas é na segunda trama – cujo núcelo ativo gira em torno do assassinato de Castilho Armas – que se situa verdadeiramente o coração do romance. Ali reside seu principal foco de tensões, sua efetiva variedade e, sobremodo, seu mais profundo fascínio.  A ocultação intencional das motivações interiores dos protagonistas gera uma profusão de pontos cegos, e por derivação, uma nevoenta atmosfera de dubiedades. A par disso, o suspense, o ritmo frenético das ações carregadas de possibilidades imprevistas e a ferocidade dos homicidas, todos eles vivendo à sombra de regimes ditatoriais, permitem que o texto seja lido como um thriller excitante. Um thriller que não conseguimos largar até o seu desfecho

A ESTRUTURA NARRATIVA

A ânsia de totalização e de polissemia, tão marcantes na escrita de Vargas Llosa, induzem-no a usar vários procedimentos estruturais que podem dar ao leitor, nas primeiras páginas de Tempos ásperos, a impressão de desordem e extravio. A pluralidade de episódios; a simultaneidade de cenas em que se confundem a luta política, os sonhos generosos e os interesses mais degenerados; a ligação orgânica entre o drama do país e os dramas individuais; a aparição de vários personagens que brotam e desaparecem de maneira rápida, no fluir do texto, com pontos de vista particulares sobre o campo minado em que vivem; todos esses aspectos, expostos em rotação persistente, como em um caleidoscópio, contribuem decisivamente para que um universo de larga variedade e extensão se erga diante de nós.

Além disso, à fecundidade episódica e documental do romance acrescenta-se uma deliberada ruptura da linearidade cronológica. Sucedem-se tensões e conflitos de modo descontínuo. Por exemplo, a bifurcação da tormenta histórica – o golpe contra Árbenz e o assassinato do ditador Castilho Armas – não é mostrada em sequência lógica. Ao contrário, os eventos se contrapõe, em sinuoso zigue-zague narrativo, como se fizessem parte de uma rotação desgovernada e misteriosa. E, apesar de datas essenciais para a compreensão da narrativa serem mencionadas, aqui e ali, pelo narrador, muitas vezes elas parecem se esfumar na caótica multiplicidade das ações. 

Claro que este manejo tumultuoso do tempo obedece ao princípio desenvolvido pelos grandes ficcionistas do Modernismo de compatibilizar a forma artística inovadora com a descrição da experiência cotidiana de seres que vivem no quadro de uma temporalidade fragmentária, atomizada e irregular. As noções tradicionais de presente, passado e futuro têm seus contornos submetidos à erosão, fundindo-se em blocos narrativos oscilantes e complexos.  

É igualmente provável que Vargas Llosa – a par de sua inclinação vanguardista – tenha desintegrado a linearidade temporal em seu romance, através de saltos bruscos, para projetar regiões de silêncio e de vazio entre os capítulos, criando hiatos de incerteza e de abertura de significado. Os complicados avanços e recuos do narrador inserem no texto tonalidades mais reticentes, mais equívocas, e com isso evitam tanto a sobrecarga de informações quanto a adoção de um intranscendente realismo fotográfico, tão comum aos romances publicados em nossos dias.


SENTIDO E AMBIGUIDADE

O permanente jogo de idas e vindas temporais pode ser decifrado mais facilmente se o leitor atentar para uma diferença existente nos 32 capítulos que compõem o livro. Os capítulos ímpares são os mais desordenados e labirínticos em seu processo construtivo. Neles, um sem número de tramas e suas disposições retrospectivas confluem caoticamente, desde panoramas da realidade guatemalteca até registros das razões políticas e subjetivas dos protagonistas. Sem esquecer que, nesses capítulos, somos também apresentados à inteligência e à energia sedutora de Marta Borrero e demais figuras humanas que gravitam em seu entorno.

Já os capítulos pares – embora normalmente mais curtos – expõem os preparativos e a concretização do magnicídio que vitima Castilho Armas, dentro de uma cronologia progressiva, sem vaivens, onde predomina clara regularidade. Por intermédio da movimentação dos criminosos e das referências oriundas de seus atos e diálogos, consegue-se preencher muitos dos dados suprimidos nos capítulos ímpares e esclarecer passagens difusas na ordenação da fremente matéria relatada. E o leitor mais meticuloso descobrirá rapidamente a densa unidade que subjaz à fluidez estrutural das duas séries de capítulos.

De maneira geral, todas as lacunas sobre o significado histórico dos sucessos que embasam o romance se resolvem em seu andamento. Ficamos frente a verdades unívocas e conclusivas, como a implosão da democracia na Guatemala, a histeria anticomunista dos americanos do norte e seu apoio a desprezíveis tiranos e a elites reacionárias e impiedosas. Contudo, no plano dos personagens criados com liberdade imaginativa, Vargas Llosa, valendo-se da maestria habitual, abstém-se de formular pareceres definitivos a respeito de seus desconcertos e contradições, mesmo sobre os que já morreram ou agonizam, como Arturo Borrero, o pai de Marta.

A nevoenta justaposição entre a realidade factual e a imaginada é reproduzida na introdução que abre o romance, designada como Antes, e numa espécie de posto-scriptum que o encerra, Depois. Os dois capítulos, colocados fora da urdidura nuclear, funcionam como o marco inicial e como a conclusão do universo narrado. Ambos os textos são redigidos em linguagem próxima a do jornalismo. O primeiro, como se um pequeno ensaio. O segundo sob a forma de uma entrevista feita pelo narrador (explicitamente Mario Vargas Llosa) com uma protagonista do romance, confundindo mais uma vez os limites entre os planos da ficção e os do mundo empírico.

Antes principia no crepúsculo dos anos 40, quando o proprietário da gigantesca United Fruit  – cujos tentáculos se estendiam por cinco países da América Central e pela Colômbia – procura em Manhattan o famoso publicitário Edward Bernays, na tentativa de melhorar a imagem de sua companhia e de enfrentar as ameaças social-democráticas do presidente Juan José Árevalo (1945-1950) e de seu futuro sucessor Jacobo Árbenz. Neste encontro, que efetivamente aconteceu no plano da realidade, Bernays aposta no caminho de uma intensa campanha junto à opinião pública americana para qualificar a imagem da companhia e, ao mesmo tempo, acusar o governo guatemalteco de estar se tornando um satélite comunista. O objetivo de Antes é demonstrar que  a campanha contra Árbenz começara antes mesmo de sua eleição.

Depois centra-se no encontro (real? fantasioso?) realizado em Washington, entre Mario Vargas Llosa e Marta Borrero, 60 anos após sua fuga da Guatemala, exatamente na noite do magnicídio. Na entrevista, a ainda vaidosa, Martita que trabalhara para a CIA e para Trujillo e que fizera carreira como radialista na República Dominicana, silencia diante de perguntas embaraçosas desmente algumas histórias, reinverte o sentido de outras e põe em xeque a anunciada morte de um dos protagonistas, que teria sido chacinado pelos tonton macoutes, no Haiti, em cena de aterrorizante selvageria. 

Algumas das certezas enunciadas pelo narrador nos 32 capítulos de Tempos ásperos são postas em suspeição, e um véu de ambiguidade cobre certas partes do relato. Estaria Marta Borrero mentindo? Ou não deveríamos dar crédito integral a tudo que nos foi contado por esse narrador inconfiável (que declara ser o próprio Vargas Llosa) e que, em busca de intensidade e de emoções folhetinescas teria atraiçoado a verdade? 

Ou simplesmente – valendo-se da astúcia dos ficcionistas beijados pelo anjo da modernidade – Tempos ásperos condensaria a realidade fática e conclusiva da esfera política com as pulsões obscuras, movediças e irredutíveis das paixões humanas, originando uma outra realidade, um outro reino, um reino plural, feito tanto de dúvidas quanto de certezas –o reino da grande arte?

         

*Entre essas obras, estacam-se romances: Pantaleão e as visitadoras (1973); História de Mayta (1984); Quem matou Palomino Molero? (1986); Lituma nos Andes (1993); O paraíso na outra esquina (2003); o polêmico Travessuras da menina má (2007),  para alguns, um relato menor; para outros, excepcional melodrama erótico; e O sonho do celta (2010). Autobiografia, Peixe na água (1993) mescla o registro de sua passagem pela política peruana com aspectos da formação pessoal, nos moldes de um bildungsroman. Crítica literária: História de um deicídio (1971), clássico ensaio sobre as narrativas de García Márquez; A orgia perpétua  (1975) – dissecação apaixonada de Madame Bovary; Cartas a un jovem novelista (1997) – correspondência dirigida a um suposto escritor em formação acerca dos aspectos essenciais da criação ficcional. A tentação do impossível, (2004) –  análise de  Os miseráveis, de Victor Hugo; El viaje a la ficción (2008) – interpretação da obra de Juan Carlos Onetti: A verdade das mentiras (2003) – coletânea de ensaios literários sobre ficcionistas do século XX; 

** A década dos 50 foi particularmente dura para os governos democráticos do continente Mergulhados na paranoia anticomunista, os norte-americanos promoveram e sustentaram toda a sorte de tiranias corruptas e sanguinárias, garantindo também que suas empresas (mineração, telefonia, energia elétrica, alimentos, etc.) não sofressem nenhum tipo de injunção reguladora nos países em que atuavam. Doutrinados, treinados e armados pelos EUA, a maioria dos militares da América Latina demonstrou abjeta subserviência aos interesses da grande potência do Norte. Naturalmente, contando com a simpatia das elites locais e do clero, todos assustados com a expansão da “ameaça vermelha.”

Foi o período dourado de ditadores, quase sempre oriundos das Forças Armadas, a começar por Rafael Trujillo, feroz cão de guarda da política externa dos Estados Unidos para assuntos da América Central, que dirigiu de maneira brutal o seu país por 30 anos (1930-1961), até ser morto em um atentado (substrato histórico do esplêndido A festa do Bode). Mas houve muitos outros déspotas – invariavelmente corruptos e perversos. Em Cuba, Fulgencio Batista (1952-1959). No Haiti, François Duvalier, o “Papa Doc” (1957-1971, sendo substituído pelo filho “Baby Doc” até 1986). Em El Salvador – sucessão de governos militares (1931 -1971). Na Nicarágua, Anastasio Somoza (1936-1956, sucedido pelo filho de mesmo nome, que tiranizou o país até 1979). Na Venezuela,  Perez Jimenez (1952-1958). Na Colômbia, Rojas Pinilla (1953-1957). N Peru, Manuel Odría (1948-1956),  cujos avassaladores efeitos de desagregação ética sustentam Conversa na Catedral). No Paraguai, Alfredo Stroessner (1954-1989). Na Argentina, Eduardo Lonardi e Pedro Aramburu (1955-1958). 

*** Durante o ataque das forças invasoras, chefiadas por Castilho Armas, o jovem argentino Ernensto Che Guevara estava na Guatemala e tentou se alistar nas milícias que defenderiam o mandato de Jacobo Árbenz, mas a reação não aconteceu.

Sergius Gonzaga é professor de Literatura Brasileira na Universidade Federal do Rio Grande do Sul