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O universal e o insólito, de Macondo a Havana

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Em 2017, o clássico livro de Gabriel Garcia Marquez, Cem anos de solidão, completou meio século de vida. Em artigo, o escritor cubano Leonardo Padura reflete sobre a obra, conhecida por tratar de sentimentos universais em um contexto extremamente particular.

Padura é romancista, ensaísta e jornalista. Considerado um dos melhores autores de Cuba, escreveu roteiros para o cinema e atuou por 15 anos na área do jornalismo investigativo. É autor do best-seller O homem que amava os cachorros, considerado a sua obra-prima, em que narra o assassinato do russo Leon Trótski, além de fazer críticas ao regime cubano.

Ganhou reconhecimento internacional com a série de romances policiais “Estações Havana”, estrelada pelo investigador Mario Conde, já traduzida em mais de quinze países, vencedora de diversos prêmios internacionais e recentemente adaptada para o cinema e para a TV (a série está disponível na Netflix).

Leonardo Padura acredita que o gênero policial permite abordar os maiores problemas da sociedade, como corrupção, repressão, erosão ideológica e pobreza. Pelo conjunto de sua obra, recebeu o Prêmio Princesa das Astúrias das Letras e o Prêmio Nacional de Literatura de Cuba.

Leonardo Padura abrirá o Fronteiras do Pensamento Salvador deste ano.

Além da conferência com Padura, o projeto ainda promoverá uma conferência com o filósofo Pierre Lévy e um debate especial entre a filósofa Djamila Ribeiro e a historiadora Lilia Schwarcz. As vagas estão abertas e os lugares são limitados.

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Leonardo Padura abre o Fronteiras Salvador 2019 em agosto


O meio século dos cem anos mais lidos da literatura latino-americana | Leonardo Padura

Cinquenta anos mais tarde, diante de leitores cubanos e outros chegados de diversas comarcas do mundo, tive a oportunidade de festejar o meio século de existência do romance mais influente, lido, estudado e admirado da literatura latino-americana de todos os tempos, Cem Anos de Solidão (1967) e, de passagem, ou sobretudo, as nove décadas do nascimento de seu autor, o colombiano Gabriel García Márquez (1927), ambas datas a serem celebradas no ano atual.

A divisão mexicana do grupo editorial Planeta foi a encarregada de preparar a homenagem – talvez a primeira das muitas que serão feitas este ano –, realizada em duas sessões, como parte das atividades da recém-concluída Feira Internacional do Livro de Havana.

Em ambos os casos, como romancista cubano, coube a mim ser algo como o anfitrião de estudiosos, diplomatas e editores que, partindo de suas perspectivas e experiências particulares, falaram das diversas facetas do escritor: como colombiano da costa caribenha, como pessoa que se tornou personagem graças à sua obra e sua fama, como jornalista e, obviamente, como autor de Cem Anos de Solidão, seu romance imensurável, a obra que sem dúvida alguma e com toda justiça o levou a Estocolmo em 1982 para ali receber o Prêmio Nobel de Literatura.

Se alguma coisa foi constatada como síntese dos diversos olhares sobre a personalidade, o pertencimento cultural e o empenho literário e jornalístico de Gabo foi o fato magnífico e ao mesmo tempo dramático de revelar como todos os atos cotidianos e criativos de sua existência estavam predestinados a confluir na criação de Cem Anos de Solidão ou foram determinados pela publicação e o sucesso avassalador de um romance em que muitos enxergaram a melhor das sínteses da história de um continente marcado pelos traumas da colonização, as lutas fratricidas, a violência, a dimensão mágica e hiperbólica própria de sua consciência coletiva e a sobrevivência cotidiana da poesia como expressão mais justa da vida.

A meu ver, o grande mérito literário e cultural desse romance exemplar foi ter satisfeito explosivamente a exigência feita à literatura por Miguel de Unamuno um século atrás: essa capacidade de "encontrar o universal nas entranhas do local e, no circunscrito e limitado, o eterno".

Porque a história da vila perdida de Macondo, em um canto longínquo do Caribe colombiano, fundada e apagada da face da Terra nas páginas do livro, alcança o mérito de, partindo do cenário mais local e extraordinário possível e por meio da história de uma família peculiar, expressar toda uma visão de mundo, da história e da condição humana com uma perspectiva de um caráter tão universal que sua imagem fala de todo um país, de um continente, e o faz para todo o mundo.

Entretanto o extraordinário desse exercício foi que a origem de cada uma das peripécias e os contextos em que a fábula se desenrola não é obra da imaginação exuberante do autor, mas de sua extraordinária capacidade de observador e tradutor de uma realidade em que outros colombianos como ele viveram.

Um mundo em que tudo era (e é) possível e no qual, como dissera Alejo Carpentier referindo-se à realidade de toda a América, "o insólito é cotidiano, sempre foi cotidiano".

Foi esse caráter universal e permanente da obra de García Márquez, a contundente beleza com que ele revelou as peculiaridades de um mundo real e alucinado, que levou a notícia de sua morte (da qual em breve terão se passado três anos) a provocar um estremecimento semelhante ao que se seguiu à notícia do assassinato de John Lennon pelas mãos de um fanático, sobre a qual o próprio García Márquez escreveu, destacando como era encorajadora a comoção gerada no mundo pelo desaparecimento de um homem que não tinha exercido o poder nem comandado exércitos, mas apenas se dedicado a cantar o amor e criar beleza.

Quando Gabo morreu, como recordou um de meus colegas da homenagem em Havana, um certo toque de recolher foi decretado nas primeiras páginas dos jornais do mundo e, por um dia, as notícias sobre guerras, atentados, golpes de Estado e perseguições policiais, étnicas e políticas deixaram de dominar.

O melhor espaço, o espaço merecido, foi reservado à cobertura do desaparecimento físico de um homem que dedicou a vida à criação de beleza, desde sua pequena Macondo, teclando dia a dia em busca do melhor adjetivo, trabalhando para uma eternidade na qual, como acaba de acontecer em Havana, algumas pessoas possam se reunir e prestar uma homenagem em locais decorados apenas com as borboletas amarelas que voaram de seus romances em direção às nossas sensibilidades e gratidões de leitores, de latino-americanos, de habitantes da Terra.

(Via Folha)