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7 reflexões sobre o romance moderno

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Quando lemos um romance, a nossa mente e a nossa percepção trabalham atentamente, com grande concentração, executando inúmeras operações ao mesmo tempo. Mas muitos de nós já nem mesmo percebemos que estamos executando essas operações. Somos como alguém que dirige um carro, inconsciente de que está pressionando botões, pisando em pedais, girando a direção com cuidado e, de acordo com várias regras, lendo e interpretando sinais de trânsito e conferindo o tráfego enquanto dirige.

Conferencista do Fronteiras do Pensamento, o Nobel de Literatura Orhan Pamuk mostra que a analogia do motorista é válida não somente para o leitor, mas também para o romancista. Alguns romancistas não têm noção das técnicas que estão usando. Eles escrevem de maneira espontânea, como se estivessem executando um ato perfeitamente natural.

As grandes ideias propostas por Orhan Pamuk, no palco do Fronteiras, podem ser lidas na obra Pensar a CulturaConfira abaixo alguns excertos da fala de Pamuk e não esqueça de passar pelo site da Arquipélago Editorial e garantir a sua cópia, também à venda nas principais livrarias!

Com o propósito de entender de que forma os romances nos afetam, façamos uma lista das mais importantes ações que ocorrem nas nossas mentes quando lemos um romance, bem como no caso de um motorista que faz diversas coisas e ao mesmo tempo conversa conosco. Escrevendo um romance, lendo um romance, nós também fazemos inúmeras operações:


01  Nós observamos a cena como um todo e acompanhamos a narrativa. No livro que escreveu sobre o Dom Quixote de Cervantes, o filósofo espanhol José Ortega y Gasset afirma que nós lemos romances de aventura, romances de cavalaria ou romances baratos para descobrir o que acontece em seguida, mas lemos o romance moderno (ele estava se referindo àquilo que chamamos hoje de romance literário) por causa de sua atmosfera.

02  À medida que lemos o romance, a história emerge aos poucos, revelando-se a partir de diversos objetos, imagens, descrições, sons, conversas, fantasias, memórias, por vezes ensaios, ensaios sobre história, comentários, informações, pensamentos, acontecimentos, cenas e momentos. Um romance, como todos sabemos, é uma enorme estrutura que abriga tudo isso.

03  A nossa mente indaga quanto da história contada pelo escritor é experiência real e quanto é imaginação. Esse é um dos eternos questionamentos tanto por parte do leitor quanto do escritor.

04  Ainda perguntamos a nós mesmos se a realidade é assim, se as coisas narradas, vistas e descritas num romance estão em conformidade com aquilo que sabemos pela experiência de nossas próprias vidas. 

05  Nós emitimos julgamentos morais a respeito das escolhas e do comportamento dos personagens, e, ao mesmo tempo, julgamos o escritor por seu julgamento moral no tocante a seus personagens. Será que o escritor concorda conosco quanto à ética, à política ou à situação do personagem? 

06  Congratulamo-nos pelo conhecimento, pela profundidade e pela compreensão que obtivemos. Principalmente em romances de alta qualidade literária, a intensa relação que estabelecemos com o texto parece ser para nós, leitores, o nosso próprio sucesso particular.

07  Outra coisa que deveríamos estar fazendo o tempo inteiro quando lemos um romance é lembrar o resto do romance. Enquanto se desenrola toda essa atividade mental, a nossa memória fica trabalhando intensamente de modo a encontrar significado no universo que o escritor nos revela.

Tanto escrever quanto ler um romance exige de nós que integremos todo o material que vem da vida e da nossa imaginação: o assunto, a história, os protagonistas e os detalhes do nosso mundo pessoal.